quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

Das duas, uma

Ou Ferreira Leite comprou uma paz podre dentro do PSD com a candidatura de Santana Lopes ou pensa, e mal, que em 2009 a fanfarra santanista pode compensar em folclore o que falta ao PSD em ideias. Nenhum destes cenários é particularmente animador.

O pior cego é o que não quer ver

Neste momento, já só tem ilusões sobre Manuela Ferreira Leite quem quer.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

A melhor canção de amor de sempre

Certa vez cantaram-me por telefone, num sussurro desafinado, o Romeo and Juliet, dos Dire Straits. Ainda não ouvi nada que batesse isso.

A livre circulação de pessoas

O ataque aos imigrantes que sempre caracterizou o CDS de Paulo Portas é, evidentemente, oportunista. Pretende cativar os votos do ressentimento e da exclusão. Mas é igualmente ideológico e, nessa vertente, ilustra bem o porquê da queda do PP nas intenções de voto. A ideologia que Portas e os seus seguidores trouxeram é uma ideologia que se encontra desfasada da realidade. No PP, pensa-se o mundo e os países ainda como coutadas geográficas e culturais. A globalização social e cultural é uma ideia que, no Largo do Caldas, não só se recusa como se pensa que deve ser combatida. Infelizmente para Portas, não é com o seu barco a remos, onde cada vez conta menos remadores, que conseguirá contrariar esta maré. Por um lado, a Europa precisa de imigração para equilibrar os seus saldos demográficos e os seus sistemas contributivos e, por outro, torna-se impossível sustentar um sistema que não permite que o mercado de trabalho acompanhe os investimentos. O CDS é, hoje, um partido fora do seu tempo.

Dias bons

O CDS apresentou, no Parlamento, propostas cujo único objectivo é dificultar a vida aos imigrantes. Foram recusadas por todos os restantes partidos. Os deputados também têm dias bons.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Post

Para dar mais dinâmica ao blogue e fidelizar leitores, estou a pensar iniciar uma série. Pensei chamar-lhe posts. É apenas uma ideia. Ainda não estou seguro que resulte.

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Supostamente, sim senhor

"A historieta da suposta gaffe de MFL é só fumaça."

Vai ser, sim senhor

"Vai ser preciso uma boa equipa."

Talvez fosse, sim senhor

"(...) talvez fosse boa ideia pôr alguém a escrever os discursos de Manuela Ferreira Leite."

Os preparativos

O estado da actual liderança do PSD é tão desastroso que consegue a proeza de colocar Luís Filipe Menezes a fazer declarações muito aceitáveis. É a inversão de tudo o que Ferreira Leite e os seus apoiantes defenderam e, com toda a certeza, mais um prego no caixão do seu projecto político.

Suspender o bom senso

Vamos acreditar, para manter um certo nível de conforto psicológico aceitável, que as declarações de Manuela Ferreira Leite sobre a suspensão da democracia foram um exercício falhado de ironia. Vamos acreditar nisto porque, ainda assim, é a solução menos má. Mas não deixa de ser um cenário bastante triste. Mesmo como exercício de ironia, o que se pode concluir desta intervenção é que a líder do PSD, quando entregue ao livre deambular do seu raciocínio político, possui uma tendência assustadora para o dislate. Para quem pretende ser uma referência de credibilidade na política e alternativa ao poder, deixa muito a desejar.

terça-feira, 18 de novembro de 2008

Há vida nos blogues

Há uns anos, escreviam nos blogues poucas pessoas. Havia, talvez, mais interacção, e era fácil cobrir um vasto espectro com uma lista de leituras diárias muito razoável. Hoje em dia, o número de blogues aumentou espantosamente e criaram-se redes de leituras mais restritas. É impossível acompanhar o ritmo da produção de conteúdos e do nascimento de novos blogues. Entraram no mundo dos blogues alguns nomes mediáticos, enquanto outros, à custa de muito talento, de muita perseverança, ou de muita polémica, conseguiram um lugar de destaque, acima do mar de nomes.

Entre quem cá anda desde esses tempos, é compreensível um certo desencanto com a evolução. O fenómeno deixou de ter uma dimensão quase tangível para assumir contornos mais massificados.

As maiores potencialidades dos blogues podem reduzir-se a duas características: tender a democratizar o acesso à produção de conteúdos e permitir a liberdade de se transformar no que os seus autores quiserem. Evidentemente, o crescimento da massa crítica e da diversidade dos blogues, pelas leis da estatística, gera alguns exemplos de muita qualidade, alguns exemplos de muito pouca qualidade e muitos exemplos medianos. Para além disto, os nomes mais sonantes, quer porque tragam a sua fama de outros campos, quer porque a tenham alcançado no mundo dos blogues, recolhem maiores antenções e também se percebe que assim seja. Tudo isto são consequências lógicas e óbvias. Quem não identificar este resultado com os benefícios que lhe estão associados não percebe bem as vantagens de uma ferramenta como os blogues.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

A pessoa errada

A espantosa justificação apresentada para por Cavaco Silva em relação ao seu silêncio manifesta uma interpretação muito limitada dos seus poderes e funções, ou uma interpretação muito difusa do que é o regular funcionamento dos órgãos democráticos, ou uma submissão inadmissível ao desvario do PSD-Madeira. Mas revela, sem margens para dúvidas, aquilo que já muitos lhe tinham apontado em altura mais oportuna: que é a pessoa errada para o cargo que desempenha.

terça-feira, 11 de novembro de 2008

Uma América pós-racial

Segundo querem fazer crer, desde que Obama ganhou as eleições, é racismo dizer que ainda há racismo. Quem viveu quinhentos anos de escravatura, abusos, perseguições e segregação não pode voltar a colocar o assunto em cima da mesa. E quem concorda com eles também não.

Barack Obama é filho de mãe branca e de pai negro. É branco? Não, é negro. A cor da pele interessa e Obama é negro porque o branco era, e é, o ponto de referência. Em caso de miscigenação, quando um dos progenitores é branco e o outro não, ninguém se lembra de dizer que os filhos do casal são brancos. São outra coisa qualquer, ainda que tenham passado toda a sua vida em plena Europa ou EUA. Quanto a racismo, parece bastante esclarecedor.

Também é bastante esclarecedor que a eleição do primeiro presidente dos EUA com um tom de pele diferente dos 43 que o antecederam esteja a ser desvalorizada nestes termos. O racismo branco, na estranha mente destes pensadores, desapareceu. Mas, melhor ainda, aquilo a que devemos prestar atenção é ao racismo negro. Este exercício tem apenas duas consequências: apagar o passado e calar a contestação dos que acreditam que ainda há muito caminho a percorrer na marcha das igualdades.

No dia em que ser negro, nos EUA, não signifique uma maior probabilidade de ser condenado à morte, de ter piores empregos, piores salários e pior educação, poderemos começar a pensar no fim do racismo branco. Até lá, a eleição de Obama, apesar do enorme marco que representa, está longe de ser sinónimo de uma América pós-racial.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Uma presidência alheia

Em princípio, Cavaco Silva há-de perceber a gravidade do que está a acontecer na Madeira. Em princípio, até pode ser que já se tenha movimentado para restituir a normalidade do funcionamento das instituições. Infelizmente, por tudo aquilo a que já nos habituou, desde os tempos dos seus governos até aos da actual presidência, a gestão da comunicação com o eleitorado sempre foi um dos aspectos que Cavaco desdenhou. Que em Belém não seja um escândalo manter o silêncio à volta dos devaneios do PSD-Madeira é todo um tratado sob uma forma de estar na política.

Primeira página

Aqui está uma acontecimento sobre o qual não me importava que os jornais anunciassem, nas primeiras páginas, uma comunicação televisiva do Presidente da República.

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Pró-americanismo

A Esquerda, a Europa e o resto do mundo não se caracterizam, nem nunca se caracterizaram, pelo anti-americanismo. Apenas acreditam que a América merece melhor do que o que viveu nos últimos oito anos. O anti-americanismo é um traço comum em fundamentalismos políticos, o que nunca foi o caso da esmagadora maioria da esquerda - democrática, republicana, humanista e progressista por natureza -, nem da Europa e muito menos do resto do mundo, tantas vezes demasiado ocupados com os seus problemas para se preocuparem com os dos EUA. Acreditar que as políticas internas e externas de Bush foram um desastre não é sinónimo de anti-americanismo. Pelo contrário, é sinal de pró-americanismo, mesmo muito pró-americanismo.

Enquanto esperamos

Houve uma altura, na campanha presidencial americana, em que, qualquer que fosse o resultado das eleições, ele significaria o adeus ao grupo de ideólogos, conselheiros e assessores que caracterizaram a presidência de George W. Bush. Houve, realmente, uma altura em que McCain ou Obama representavam uma mudança tão significativa que, só por si, já era bem-vinda. Mas depois a campanha de John McCain preferiu a colaboração dos mesmos ideólogos, dos mesmos conselheiros e dos mesmos assessores das campanhas e da presidência Bush. O resultado foi um florescer e agravar de difamações, de insultos e de mentiras como estratégia de campanha. E, claro, a escolha de Sarah Palin para a vice-presidência, um hino à neofilia, à ausência de mérito, ao clientelismo e ao caciquismo. Hoje, uma vitória de McCain já não representa outra coisa que não seja um pouco mais do mesmo. Ou talvez bastante mais do mesmo. A América e o mundo precisam de outra forma de fazer política.

Uma questão de legitimidade

Concordo que o líder do CDS-PP tenha legitimidade para questionar a continuidade de Vítor Constâncio à frente do Banco de Portugal. O que não concordo é que Paulo Portas tenha legitimidade para ser líder do CDS-PP.

domingo, 2 de novembro de 2008

A direita portuguesa

Paulo Portas continua a sua senda contra o Rendimento Mínimo. Manuela Ferreira Leite lembrou-se de fazer uma graçola sobre os efeitos do investimento público nos números do desemprego dos imigrantes. Tanto um como outra apelam a sentimentos que militam entre os mais baixos a animar o ser humano. Os líderes do PP e do PSD optam por incentivar o egoísmo e o nacionalismo bacoco em detrimento da solidariedade social e da honestidade intelectual. Perante o descalabro nas sondagens, Portas e Ferreira Leite parecem preferir disputar votos ao eleitorado do PNR. Assim vai a direita portuguesa.

sábado, 1 de novembro de 2008

Timing

Já não se pode elogiar ninguém. Uns acabam com os blogues, para aí pela 93ª vez, se não me falham as contas. Outros saem-se com isto, para o qual todas as palavras parecem desadequadas. Ou melhor, afinal arranjam-se duas: qual realização?

sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dardos



Nunca fui grande adepto de cadeias em blogues. Os blogues mudam, os hábitos mudam, os gostos mudam, e sempre me pareceu extremamente complicado elaborar uma lista de preferências. As listas de preferências, sejam elas de blogues, de livros, de filmes ou de doçaria conventual, para mim, são sempre listas de exclusões. O prémio para os eleitos é sempre o tantas vezes injusto desconsolo dos que ficam de fora. Assim, este Prémio Dardos, em que a Helena e o Lutz decidiram incluir-me, precisa de uma explicação para que se perceba a excepção à regra. A que se segue não é uma lista de preferências do momento. É quase a minha lista de prémios Nobel dos blogues. Trata-se de blogues que há bastante tempo, e de forma constante, contribuem para o meu pequeno prazer de ler bons blogues. E são blogues onde o respeito pela inteligência e pela honestidade do pensamento enriquecem o dia de quem por lá passa. São eles:

A Barbearia do Senhor Luís
A Pente Fino
Aurea Mediocritas
Bandeira ao Vento
Blogame Mucho
Blogo Existo
Dois Dedos de conversa
Imagens com Texto
Lida Insana
Margens de Erro
Mar Salgado
Ma-Schamba
Quase em Português
Vida breve
Womenage a Trois

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Democracia avançada e madura

Multiplicam-se os avisos dos militares em relação à insatisfação que se vive no meio, dos quais o mais sonante talvez seja o do general Loureiro dos Santos, notando-se o cuidado, nada inocente, que tem sido colocado nas palavras escolhidas. A insatisfação dos militares pode ser perfeitamente justificada ou não, não sendo esse o aspecto que me interessa reter. Aquilo que me capta a atenção é um certo tom de ameaça velada, que parece contradizer a confiança que, por exemplo, Loureiro dos Santos deposita no nosso sistema político ao apelidá-lo de democracia avançada e madura. Não se deve acalentar pretensões sobre esta matéria: a democracia portuguesa tem 34 verdes anos de vida. A necessidade que os militares sentiram de abrir hostilidades no seu processo revindicativo, e a forma escolhida para o fazerem, revela bem o quão débeis são o avanço e a maturidade da nossa democracia. Das forças armadas, como das forças policiais, pelo papel social que desempenham, espera-se uma reserva e uma discrição superiores à média. A ambiguidade dos sinais contidos nestes alertas é, por si só, um acontecimento com efeitos negativos para a democracia. Se as forças armadas se querem assumir, como não podia deixar de ser, como um pilar de estabilidade social e democrática, convinha que agissem respeitando esses princípios. Se é preciso contestar as políticas governamentais, que isso seja feito com franqueza, com exposição dos argumentos relevantes, com recurso a porta-vozes oficiais ou oficiosos, mas nunca com um tom de ambiguidade onde se possam ler pequenas ameaças ou pequenas chantagens, as quais apenas servem para alimentar o ainda muito fraco sentido democrático da nossa sociedade.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O iluminado

Apesar da promulgação, Cavaco Silva continua a manifestar enormes reservas, como não se inibiu de expressar, à lei do divórcio. Uma lei, convém recordar, que tem o apoio de toda a esquerda e até de alguma direita.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Fim-de-semana

Passa uma pessoa dois dias sem ver blogues e, no entretanto, metade do 5Dias muda de casa e cria o Jugular.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Esclarecer interpretações

Depois de reler o post anterior fiquei com a impressão de que pode dar a entender que a minha apreciação do blogue em causa é negativa. Muito pelo contrário. Como já disse, escrevem lá o Besugo e o maradona e isso é garantidamente sinónimo de tempos bem passados a ler blogues (sem desmérito para os restantes autores daquela casa). Eu continuaria a ler o Besugo e o maradona ainda que eles escrevessem apenas receitas de cozinha.

A crise chega à selecção

Nasceu aí há uns dias A Dieta Rochemback. Não há-de ser por acaso que os leitores do catalão e facciosíssimo Sport votaram Rochemback para o pior 11 de sempre do FC Barcelona (outros nomes familiares dessa equipa de arrepiar: Geovanni, Okunowo e Amunike). Ora, nesse blogue, onde, entre outros, escrevem o Besugo e o maradona, surge uma interessante pista para o desaire que parece estar a apoderar-se da selecção de futebol. Para quem não saiba, ou nunca tenha reparado, importa notar que o actual treinador da selecção é alguém que passou os últimos anos associado a um patrocinador, digamos, muito especial. We never saw it coming. Pois não, pois não...

Do optimismo II

O número de telefone do escritório já pertenceu a uma agência bancária. Não há dia em que não se atenda um ou dois telefonemas de clientes da instituição que ainda não actualizaram a agenda telefónica. A maior parte das pessoas que telefona nesta condição começa a discorrer o seu assunto mal se levanta o auscultador. Um número ainda considerável continua mesmo depois de quem atende ter tido finalmente oportunidade de se identificar. Nesta semana, dois telefonemas particularmente notórios: uma senhora com bastante urgência em discutir o empréstimo da casa e uma outra interessada em saber quanto dinheiro tinha ainda na conta. Algo me diz que as suas preocupações não eram excesso de liquidez.

Do optimismo

Quem, como eu, não está por enquanto desempregado nem perdeu ainda o seu negócio (...).

Decepções anunciadas

Qualquer que seja a perspectiva escolhida, não se consegue perceber como é que a candidatura de Pedro Santana Lopes à CML possa ser vantajosa. Não o é para a higiene política, não o é para a cidade, não o é para o PSD nem para Ferreira Leite e não o é para o PS, que continua a não ter uma oposição que o desafie. Eventualmente pode servir os interesses de Santana Lopes, mas nem isso é certo. Mas ainda que sirva a sua ambição pessoal, e no dia das eleições poderemos aferi-lo, é muito pouco para justificar a escolha. O PSD insiste em trilhar os mesmos caminhos que o conduziram ao marasmo em que se encontra. Só de decepciona quem, no início, acalentou ilusões de que a credibilidade é algo que se decreta a priori em colunas de opinião.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O eterno retorno

Começamos todos, agora, a ver com mais clareza qual era a porcaria a que Queirós se referia há uns anos.

Provérbio do dia

Atrás de mim virá quem bom de mim fará.

Escusavam era de ter ido buscar o Carlos Queirós para o contraste ser tão grande.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Todos diferentes

Hoje os preconceitos de uns vão aliar-se à falta de coragem de outros para continuar a adiar um passo fundamental na luta contra a desigualdade neste país.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Democracia de segunda

Recorrendo aos lugares comuns, a solução portuguesa passa quase sempre menos por resolver os problemas do que por contorná-los. Resolver eventuais problemas de fiabilidade nas votações dos emigrantes tornado mais difícil a participação eleitoral não resolve nada. Pelo contrário, apenas afasta os emigrantes dos seus representantes e do próprio país. Minar a participação cívica e política nos dias que correm é das piores ideias que pode ocorrer a um político sério. Numa época de desconfiança e afastamento entre eleitos e eleitores, contribuir activamente para a diminuição da participação eleitoral não é um tiro no pé. É, antes, estar a fazer pontaria a órgãos vitais.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O silêncio a favor da demagogia

O PSD de Setúbal decidiu investir numa campanha de outdoors à qual não falta nenhum dos pergaminhos da pior demagogia política. Nestes momentos, o silêncio de Ferreira Leite, pensarão os estrategas sociais-democratas, cai como uma luva. O silêncio em política tem esta extraordinária capacidade de camuflagem. Ao escolher não comentar, o actor político permite que a sua putativa opinião possa ser interpretada à medida das conveniências de cada um. Tanto pode ser de apoio como de recriminação, bastando que se lhe imprima o spin certo para as audiências certas. O silêncio, camuflando intenções e compromissos, não só esconde a opinião, mas, muito mais importante, impede a responsabilização. A política sem opiniões, sem compromissos e sem responsabilização deixa de proporcionar a possibilidade de controlo e acesso à informação a que os eleitores têm direito. A estratégia do silêncio é uma estratégia de vistas curtas, oportunista e desprestigiante. Quem não percebe o mal que esta opção faz ao exercício da democracia provavelmente não percebe o próprio exercício da democracia.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Negro

Agora que penso nisso, o novo acelerador de partículas nunca poderá destruir o mundo. Um buraco negro manufacturado que nos engolisse a todos não é ciência; é poesia.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Sobreviver

David Hume terá dito que, para si, pensar que não exista nada depois da morte não o afligia mais do que pensar que não exista nada antes do nascimento. Falava, obviamente, da experiência da própria morte. O problema da morte, para quem partilha da aparente serenidade que Hume demonstrava, não se prende tanto com a ausência de si mesmo no mundo, mas antes com a ausência daquilo que se ama. O problema da morte é sempre o problema da morte dos outros. Ou, dito de outra forma, ainda menos encorajadora, o da própria sobrevivência.

A guerra contra o terrorismo

Após o 11 de Setembro erigiu-se o paradigma da guerra contra o terrorismo. A escolha da expressão não foi inocente. A guerra é um estado de excepção. Por isso se disse que o mundo estava diferente depois do ataque ao WTC. Mas, nos seus fundamentos, o mundo manteve-se igual. Houve, evidentemente, uma alteração de escala, traduzida nas dimensões humanas, materiais e mediáticas do atentado. Mas as ameaças mantiveram-se iguais na sua natureza. O terrorismo, o fundamentalismo e a ameaça nuclear e biológica, por um lado, e o direito à integridade física e psicológica e à procura de justiça, por outro, não nasceram em 2001.

Os caminhos bons e os caminhos maus que trouxeram a humanidade até aos dias de hoje mantiveram-se iguais a si mesmos. Não se verificou uma alteração dos fundamentos da ética, da justiça e das relações humanas. Não se inverteram os pólos do certo e do errado,
O terrorismo continuou a ser terrorismo, a morte continuou a ser morte, a tortura continuou a ser tortura e a guerra continuou a ser a guerra.

O paradigma da guerra contra o terrorismo, ao remeter para o estado de excepção, permitiu um posicionamento ideológico que sancionou todo o género de excessos. Sob o seu manto surgiram guerras preventivas, abusos sobre os direitos humanos, abusos sobre o estado de direito e despesas absurdas para satisfazer as necessidades de destruição e reconstrução de todo este processo. O poder viu o seu espectro de acção ser consideravelmente alargado. E se o poder tende a corromper, a natureza dessa corrupção, como se viu, tanto é material como moral.

A guerra ao terrorismo não serviu sequer os seus intentos e muito menos serviu os propósitos daquilo que gostamos de considerar as grandes conquistas da civilização humana – a democracia, a liberdade e o respeito pelos direitos humanos. Neste dia, isto é tão verdadeiro como se sabia ser há oito anos atrás. Utilizar as críticas ao paradigma da guerra ao terrorismo como forma de menorizar a solidariedade com as vítimas desse atentado é apenas um subterfúgio cobarde para desviar as atenções do falhanço miserável em transformar esse terrível momento numa oportunidade para a civilização se elevar a um nível que se sentia ser perfeitamente possível.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Areia para os olhos

O presidente do Conselho Nacional do CDS-PP criticou o comportamento de Paulo Portas e Nobre Guedes em relação à demissão deste último. Segundo a notícia do Público, pediu “mais formalismo” e avisou que “a amizade não se deve sobrepor às regras de funcionamento partidário”. E para frisar bem a elevação do nível de exigência dentro do partido, propôs um texto de apoio a Portas que os conselheiros se apressaram a aprovar com apenas quatro abstenções e nenhum voto contra. Os dirigentes do CDS-PP chegaram a um ponto em que já não são capazes de atirar areia para os olhos de ninguém, a não ser deles mesmos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

WALL.E

E depois, nunca percebi bem porquê, o Babel é que estava recheado de anti-americanismo primário.
Dito isto, vale cada cêntimo do preço do bilhete, com os bónus da divertida curta que o antecede e da extraordinária síntese de História da Arte dos créditos finais.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Erros de avaliação

Uma candidata a vice-presidente que segure bem a base eleitoral conservadora, evangélica e rural dos republicanos permite que McCain possa ir atrás dos votos independentes e dos democratas de Reagan com outro à-vontade. Em 2004, os democratas nunca conseguiram perceber que perderam a eleição na luta ideológica. O eleitor americano não votou Bush por falta de informação ou por falta de discernimento. Votou nos valores e nas estratégias que lhe eram mais caras e num grupo de pessoas que, goste-se ou não, já tinha demonstrado ser capaz de cumprir o seu propósito político. Sarah Palin não alarga o espectro de potenciais votantes no partido republicano, mas promete segurar votos fundamentais. Se a campanha dos democratas não der o devido valor ao que Sarah Palin representa, pode ter à sua espera o mesmo desfecho de há quatro anos.

quinta-feira, 4 de setembro de 2008

Coisas que interessam

Um post muito interessante da Palmira Silva sobre Sarah Palin. Ao lado do acessório e tocando apenas no que realmente é importante.

A ralé (2)

A das redacções. A que dá a madeira e os pregos com uma mão para poder escrever com a outra o relato da crucificação. A que condena os erros alheios e nunca reconhece os seus. A que debita moralismos pelos quais nunca se guia. A que se cala perante a canalhice que se prepara na mesa ao lado.

A ralé

Para alguma gente, continua a ser importante realçar que a atribuição de uma indemnização a Paulo Pedroso não esclarece a sua culpabilidade ou inocência no processo Casa Pia. Entre essa gente, podemos seguramente encontrar agentes dos sistema de justiça, educativo e político. Gente, porventura, com responsabilidades. Gente que se move em círculos restritos, especializados, mesmo de elite. O que toda esta gente tem em comum entre si e com o anónimo que comenta no balcão do café do bairro é a desconfiança orgânica perene. Ninguém entre eles valoriza a liberdade e a presunção de inocência. Até prova em contrário, somos todos presumíveis culpados e potenciais ameaças. Os políticos são todos corruptos, os árbitros são todos vendidos, a justiça é toda interesseira, a educação é toda uma lástima. Esta não é a atitude de uma consciência esclarecida, humanista, democrática. Esta é a atitude da ralé. A ralé não é uma classe ou um estrato social, não é de direita nem de esquerda, mas antes uma forma de estar na sociedade que desconfia de tudo e de todos e que será sempre a primeira, como antes, a abraçar os abusos, a perda de direitos e de garantias. A ralé, indiscutivelmente, é uma das maiores ameaças para a democracia de que tanto se queixa.

terça-feira, 2 de setembro de 2008

Ó chumos, eu agora estou aqui e isto é só convosco, vinde cá!

Besugo, hás-de compreender, se dependesse de mim, preferiria nunca te apanhar pela frente num hospital. Mas, como estas coisas não dependem de vontades, tendo de te apanhar pela frente num hospital, não quereria apanhar outro médico. Acho que isto se percebe e, se não se perceber, acho que pelo menos tu percebes bem. Dir-te-ia “não me mintas, não me escondas nada e não escrevas sobre mim”. E talvez pudéssemos falar de futebol para enganar os entretantos. Tu queixavas-te do meio campo do Sporting e eu dizia-te para levares o do Benfica, a ver se passavas os fins-de-semana mais contente. É o passavas...
Não é rendoso, mas é pessoal. Não fica mais pessoal do que isto. Não fica. Agora tira as mãos do Record e vai escrever qualquer coisa, que não dizes nada desde dia 27.

É bom que se distinga

Depois de Paulo Pedroso ter ganho o seu processo contra o Estado Português, um dos advogados das vítimas, Miguel Matias, vem lembrar que “É bom que se distinga que este processo contra o Estado ganho agora não tem rigorosamente nada a ver sobre a apreciação de culpa ou inocência de Paulo Pedroso relativamente aos factos que os meus clientes lhe imputam». Efectivamente, é bom que se distinga isso. No que diz, de forma directa, respeito à culpa ou inocência do ex-ministro e deputado, decidiu a juíza Ana Teixeira Pinto não haver motivo para o levar a julgamento. A menos que Miguel Matias reivindique uma inversão do ónus da prova e da presunção de inocência, é bom que se distinga que esse caso ficou arrumado nesse momento. A justiça, tal como é pensada por alguns dos seus agentes, pode ser uma coisa assustadora.

Formas de estar

Uma curiosa forma de estar, esta, de Paulo Portas, que não considerou importante, durante quase um ano, que os militantes, os eleitores e o país tivessem conhecimento de que o CDS-PP está sem vice-presidentes.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A afronta

Para os antigos gregos, os seus escravos eram indivíduos desprovidos de palavra. Obviamente, não porque não conseguissem falar, mas porque, dada a sua condição, não poderem usar a palavra publicamente. Essa era uma qualidade apenas ao alcance dos homens livres – livres não só do jugo de outros homens, mas igualmente do jugo do trabalho e das tarefas do quotidiano doméstico. Por esse motivo, aos cidadãos que, tendo a possibilidade de participar na vida pública, preferiam ocupar-se dos seus negócios, os restantes gregos reservavam um não disfarçado desprezo.

Gerir silêncios faz inevitavelmente parte da vida política. Mas elevar o silêncio a uma forma de fazer política, tanto do agrado de algum PSD, revela uma perspectiva muito estreita e demasiada preocupação com o imediato. É não só um sinal de falta de fôlego e de fraqueza como uma afronta ao que a vida política devia ser.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

Silêncios arriscados

A realidade social e política não se compadece com os desejos dos partidos políticos. O compromisso de um líder partidário com um período anunciado de silêncio é, por isso, uma opção demasiado arriscada. Mas, para além deste risco desnecessário, existe ainda o crescendo de expectativas quanto à primeira intervenção que marca o fim do período de retiro. Alimentar uma situação destas só é viável quando se tem a certeza de se poder estar à altura do acontecimento. Fazer melhor do que fez a última direcção do PSD não é uma tarefa árdua. Mas o PSD não pode estar em competição consigo mesmo, sob pena de enquanto assim estiver não estar em condições de competir com o PS. A José Sócrates, não falta nada para manter o predomínio sobre a agenda política do fim do Verão e ajudar a transformar o regresso do PSD num balão cheio de nada.

sábado, 23 de agosto de 2008

À deriva

Não é necessário ser um génio da estratégia de combate político para chegar à conclusão a que chegou Santos Silva. Parece que apenas no PSD ninguém percebeu que as críticas ao silêncio do governo partiam de uma casa com telhados de vidro.

A estratégia de silêncio da liderança do PSD tem sido algumas vezes apontada como errada, mas legítima. Mas o silêncio, na política, em raríssimas ocasiões é legítimo. Desde que os gregos se dedicaram a aprimorar a política como expressão da vida em comunidade que o discurso e a acção dela fazem parte. Estando na oposição e enfrentando uma maioria absoluta do PS, a acção é algo a que o PSD não pode aceder facilmente. Sobra-lhe o discurso. Abdicando dele, não lhe sobra nada.

A triste realidade do PSD é que após os excessos de Menezes e de Santana Lopes, impunha-se uma mudança profunda de orientação. A opção de Ferreira Leite foi posicionar-se no extremo oposto e comprometer-se com um silêncio monástico. Mas, para marcar a diferença após o populismo de Menezes, a solução ideal nunca poderia ser outra forma de extremismo, ainda que de sinal contrário. Bastava apenas que tivesse recorrido à característica que falta ao PSD há tanto tempo: a moderação.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

A desgraça (2)

Depois de uma capa destas, tenho uma certa curiosidade para saber o que terá andado o Record a dizer dos atletas portugueses nos JO nas últimas semanas.

A desgraça

De acordo com os critérios do COI, com uma medalha de ouro e uma medalha de prata, esta é a melhor classificação portuguesa de sempre nuns Jogos Olímpicos.

Disparates fáceis

Na última página do Público, Vasco Pulido Valente espelha bem como uma quantidade assinalável de raciocínios rápidos e desordenados podem constituir algo que passe por opinião sobre um assunto. Para VPV, os JO transformaram-se numa aberração. A maior parte das provas clássicas não faz sentido; uma parte das modalidades recentes não faz sentido; a divisão e especialização das provas não faz sentido; o futebol não faz sentido; finalmente, o treino específico que os atletas de alta competição fazem cria “monstros”, “máquinas concebidas para meia dúzia de gestos, sem beleza e sem uso”. Esta última afirmação, para ficar apenas por aqui, é tão descabida como desinformada. A ideia que Pulido Valente tem dos atletas deve basear-se sobretudo nos praticantes das modalidades clássicas que “não fazem sentido”, como o lançamento do peso e do martelo. Modalidades onde ser baixo e pesado se torna uma vantagem porque o arremesso se faz num movimento giratório. Ninguém pede a um historiador que seja um especialista em física. Mas para quem parece abnegar a especialização dos atletas, algum ecletismo para os conhecimentos básicos que a maior parte dos jovens de 16 anos é obrigado a saber talvez não fosse má ideia.

VPV confunde deporto amador com desporto profissional e talvez sinta um excesso de nostalgia dos tempos em que aristocratas com penteados de gosto duvidoso circulavam com igual graciosidade nos salões de chá e nos courts de ténis e de badminton. Deve ser daqui que nasce a defesa do golfe, esse desporto em que 99% do tempo activo de jogo é passado a olhar para relva ou para as nuvens à procura de uma bola minúscula, como modalidade olímpica.

Para provar que definitivamente não sabe do que fala, VPV chega a utilizar Michael Phelps como um exemplo, quando o nadador americano não pode ser considerado outra coisa que não seja uma excepção. De tal forma é assim, que ninguém ganha 7 medalhas de ouro nuns JO desde os anos 70 - e Phelps leva para casa oito. De resto, nem se percebe o que VPV quer dizer quando afirma que “a ginástica, a natação e o mergulho (...) são tão minuciosamente divididas que um único atleta (...) consegue apanhar oito medalhas.” Qual é a alternativa? Uma única grande prova de natação em que cada um nada o que lhe apetece? Exigir aos ginastas que saltem directamente das argolas para o cavalo de arções sem tocar no tapete? Escrever disparates é reconhecidamente fácil. Mas não devia ser tão fácil.

A opinião publicada sobre o desporto e sobre os JO tem neste texto de VPV um bom exemplo do muito que se fez por estes dias. Avança-se com ideias rápidas e sonantes, mesmo que a realidade seja uma coisa bastante mais prosaica. Pelo menos, VPV tem o mérito de não alinhar na consensual crítica ao desempenho dos atletas portugueses e ter procurado uma abordagem diferente. Aliás, um dos traços característicos de VPV é assumir-se como uma excepção à regra. Assim uma espécie de Michael Phelps, mas ao contrário.

Os bons exemplos que vêm de cima

Depois de ter anunciado, a meio dos Jogos Olímpicos, que não se recandidataria ao COP, Vicente Moura voltou ontem, no dia da primeira medalha de ouro portuguesa, com a palavra atrás. Os momentos escolhidos são curiosos, mostrando que não são apenas os atletas olímpicos que desperdiçam boas ocasiões para estar calados.

quinta-feira, 21 de agosto de 2008

As condições do sucesso

Os exemplos pontuais valem o que valem. São episódios que podem condensar em si mesmos um retrato fiel de uma determinada realidade ou que podem apenas contribuir para uma mistificação da mesma. Eu deixo a história e a minha interpretação e, a partir daí, cada um faça a leitura que quiser.

O meu irmão, agora com 22 anos, desde muito cedo começou a praticar natação. Ao chegar à adolescência iniciou-se na competição. O seu dia típico implicava despertar entre as 5:30 e as 6:00, ir de boleia com o nosso pai até à piscina (porque o início do treino não se compadecia com os caprichosos horários da Carris), passar perto de duas horas na água, ir novamente de boleia com o nosso pai para a escola, tomar um segundo pequeno-almoço durante os curtos minutos de que dispunha no trajecto para não chegar atrasado (porque o facto de ser um atleta de competição federado não lhe proporcionava maior grau de tolerância do que a qualquer outro aluno), passar uma boa parte do resto do dia em aulas, voltar para a piscina ao fim da tarde, passar outras duas horas na água, voltar para casa entre as 20:00 e as 21:00, jantar e, com quatro horas de treino, perto de 7 km de água no corpo e um dia de aulas, arranjar forças para fazer trabalhos de casa e estudar para os testes antes de ir para a cama recuperar para o dia seguinte. Na escola, surpreendentemente ou não, o nível das notas manteve-se bom, excepto, e aparentemente sem explicação, apenas numa disciplina. Quando o nosso pai lá se deslocou para tentar perceber o que se estava a passar, uma vez que as notas de final de período não correspondiam ao que as dos testes faziam prever, a professora dessa disciplina afirmou categoricamente que lhe estava a baixar a nota porque não considerava concebível que um estudante se envolvesse numa actividade tão exigente e não se dedicasse por inteiro à escola. Nenhuma argumentação e nem mesmo uma reunião com o director de turma a fizeram voltar atrás.

Desde há uns tempos que as transmissões de jogos de futebol permitem ao espectador saber quanto corre cada jogador em campo durante a partida. Agora podemos todos pasmar de admiração com futebolistas que percorrem 8 km, 10 km, 12 km num jogo só. Ontem, em Pequim, dois nadadores portugueses, Daniela Inácio e Arseniy Lavrentyev, participaram na mais dura prova de natação nas olimpíadas: os 10 km em águas abertas. Daniela Inácio nadou a distância em 2:00:59 e Arseniy Lavrentyev em 2:03:39. Ninguém pasmou por um nadador precisar de apenas mais 30 minutos para igualar as prestações dos heróis da bola. Aliás, ninguém deu sequer destaque ou importância à prova.

Os 15 milhões de euros que se investiram na missão olímpica de Pequim são um pormenor entre muitos. Em Portugal não se gosta de desporto e não se compreende o desporto. Gosta-se de ganhar e gosta-se das intrigas palacianas que enchem diariamente as capas dos jornais desportivos. Discutir se 15 milhões de euros é dinheiro a mais ou dinheiro a menos é falhar o mais importante. As condições de base para o sucesso não estão lá. Quando isso acontece não há dinheiro que salve o dia.

terça-feira, 19 de agosto de 2008

Uma sociedade perigosa

No Verão passado, quando uma criança desapareceu do aldeamento turístico em que os pais se encontravam a gozar férias, não faltou quem logo apontasse o dedo acusador aos progenitores. Perante o desespero evidente de dois pais, houve quem não contivesse o seu moralismo e clamasse contra a sua incúria. Este mês, a intervenção policial para pôr cobro a uma situação de assalto com sequestro de dois reféns terminou com a morte de um dos assaltantes e o outro ferido com gravidade. Louvou-se a autoridade, o tiro certeiro e o exemplo que dará que pensar aos meliantes em futuras situações da mesma natureza. Pouco tempo depois, a GNR baleou mortalmente uma criança, numa perseguição a uma carrinha onde se encontravam também dois indivíduos apanhados em flagrante a roubar material de construção. Perante a morte de um rapaz de 12 anos, familiar dos dois ladrões, logo se perguntou o que estava o rapaz ali a fazer e que país é este em que se leva uma criança para um roubo. Umas semanas antes, um tiroteio num bairro social, do qual espantosamente apenas resultou um ferido ligeiro, fez estalar a indignação contra esse bando de oportunistas a viver das prestações sociais, que tanta ajuda recebem sem nada dar em troca. Grupos que, disse-se na altura, cultivam a exclusão e a miséria em que vivem e que são incapazes de se inserir e relacionar normalmente com o resto da sociedade.

O que todas estas histórias e os comentários que motivaram têm em comum é um manifesto desprezo pelo ser humano. Perante o sofrimento alheio, quer seja o da família de uma criança desaparecida, quer seja o da família de uma criança morta, quer seja o de duas comunidades aterrorizadas pela pequena e média criminalidade perpetrada por uma dúzia de indivíduos, quer seja, finalmente, o dos próprios criminosos que vêm decretada a sua sentença sem a interferência de qualquer tribunal, perante tudo isto há sempre quem, com toda a crueldade do mundo, consiga dizer: “estavam a merecê-las”. Esta gente de juízo fácil está cheia de certezas, cheia de pequenos moralismos para dispensar aos outros, cheia de si mesma, cheia de superioridade, cheia de uma convicção enraizada do abismo que as separa dos “outros”. Os “outros” são “pretos”, são “ciganos”, são “brasileiros”, são “estrangeiros”, são “criminosos”, são “pobres”. Não são pessoas completas. São um conjunto de abstracções e de preconceitos sociais. Não estão num patamar abrangido pelo direito inalienável à dignidade humana.

Não há sociedades sem crime e sem criminosos. O mais preocupante não é, obviamente, uma sociedade em que a criminalidade até pode ser mediática, mas está longe de estar fora de controlo. O preocupante é uma sociedade que quando olha para os seus membros não vê indivíduos, as suas acções e os seus laços sociais e em que o desprezo pelo próximo está tão disseminado, desde o cidadão anónimo à elite fazedora de opinião. Numa sociedade assim, o maior perigo vem de dentro.

Obras

O troço da CRIL que passa pela Buraca e pelo bairro de Santa Cruz está há anos para ser concluído. A obra pode ser muito importante e muito útil, mas quem já esperou tanto pode esperar mais um pouco. Não há justificação razoável para que os moradores, que já tanto têm que os apoquente, sejam obrigados a suportar 12 horas consecutivas de obras diárias, fins-de-semana incluídos, e que nem sequer respeitam os limites de ruído impostos por lei.

Medalhas porque sim

De repente, Portugal acordou a pensar que podia ganhar medalhas nos Jogos Olímpicos. Que não só podia, como devia ganhar medalhas. Ninguém se perguntou quais são as reais condições que os nossos atletas possuem para alcançar esse objectivo. Do conforto dos sofás, e à distância que a televisão permite, surgiram exigências difíceis de sustentar e as declarações manifestamente desastradas de alguns atletas em Pequim não ajudaram a criar observadores mais frios.

O talento treina-se. A mestria dá trabalho. Ser consistentemente bom requer disciplina. O desporto, qualquer que seja, pede dedicação, sacrifício, planeamento, investimento e superação. Num país em que raras actividades podem gabar-se de atingir elevados níveis de desempenho, por que é que com as prestações desportivas havia de ser diferente? Existe uma excelente desculpa para os maus resultados. Na realidade, a mais justa e a melhor de todas: os outros são melhores.

segunda-feira, 18 de agosto de 2008

Modéstia à parte

Francis Obikwelu pediu desculpas por não ter conseguido oferecer ao país, pelo menos, uma final, quando este lhe pagou a participação nos JO. Obikwelu é medalhado olímpico, recordista europeu e uma das melhores coisas, senão a melhor, que aconteceu ao atletismo português nos últimos anos. Não deve nada a ninguém. A viagem a Pequim já a merece e ganhou há muito tempo.

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Partido Populista

Escapa-me por que é que há-de ser o governo a desenhar o plano de segurança dos bancos. O CDS-PP deve ter uma boa razão. Ou então não tem e apenas não consegue deixar escapar qualquer oportunidade para salivar a sua demagogia securitária.

Perspectivas

Enquanto a discussão sobre a criminalidade se centrar na nacionalidade de quem a comete, fala-se menos das condições sociais, económicas e demográficas dos criminosos. Mas que ninguém se preocupe. Quando lá chegarmos logo alguém virá falar em “sociologia desculpabilizadora”.

11 em 1000

Já o escrevi várias vezes: as estatísticas, em si mesmas, são muito pouco. Números são números e, se as coisas forem bem feitas, respondem a hipóteses construídas a partir de teorias. Andamos aqui a discutir se é mais rigoroso e objectivo dizer que a taxa de criminalidade dos estrangeiros é superior à dos portugueses ou se é igual. Questões de metodologia, portanto. O que ainda não se discutiu são as teorias que podem ajudar a interpretar os dados e que dão forma a todas as investigações. Existe alguma teoria que afirme que a nacionalidade influi na propensão para a criminalidade? Eu não conheço nenhuma. Nascer português, espanhol, brasileiro, angolano, ucraniano, etc. é relevante para a nossa relação com as leis? Certamente que sim, mas isso não se deve ao que está escrito no BI. Deve-se aos processos de socialização que cada sociedade proporciona aos seus membros, incluindo modelos culturais e estruturas sociais relevantes.
Mas, ainda que se recuse a adaptação metodológica do estudo, as taxas de criminalidade para portugueses e estrangeiros são, respectivamente, de 7 em mil e 11 em mil. É significativamente diferente. No pátio da penitenciária, os estrangeiros podem fazer um jogo de cinco para cinco, com um à baliza, e os portugueses só podem fazer um jogo de três para três, com um à baliza.

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

Preconceituosos são os outros

Vamos supor que se pretende comparar o desempenho desportivo dos indivíduos de dois grupos distintos numa prova de resistência. Apura-se no final que os indivíduos do grupo A apresentam um desempenho notoriamente pior que os do grupo B. Contudo, sabe-se que mais de metade do grupo A é constituído por septuagenários e que no grupo B estes apenas ascendem a um quarto do total. Deve este dado ser ignorado na comparação que se pretende realizar? Não, não deve. A solução passa por ajustar as estruturas etárias dos dois grupos para que os dados sejam comparáveis, sob pena de se estar a desvirtuar as conclusões.

Foi isto que os autores do estudo comparado de taxas de criminalidade fizeram. O estudo não esconde que a taxa de criminalidade entre portugueses e estrangeiros em Portugal é distinta. Mas ajustada a estrutura da sociedade portuguesa à estrutura dos estrangeiros as diferenças desaparecem. Em condições semelhantes as taxas de criminalidade são semelhantes. Em condições diferentes as taxas são diferentes.
Comparar realidades diferentes dá trabalho e requer metodologias complexas e discutíveis. E pode ser sempre alvo de ataques por pessoas que usam como argumentos em seu favor a utilização de jargão científico por parte dos autores de um estudo que se quer científico.

Vamos repetir devagarinho para ver se o JCD percebe: “Em condições equivalentes de masculinidade, juventude e condição perante o trabalho” não é, nem pouco mais ou menos, o mesmo que dizer “Os portugueses que fazem parte do grupo dos que cometem crimes, têm tendência equivalente para cometer crimes aos imigrantes que cometem crimes.” A primeira é uma metodologia de comparação, a segunda é apenas uma algaraviada que em momento algum traduz fielmente o que se afirma no estudo.

Desculpas

Na semana passada, ainda no rescaldo do assalto em Campolide, Ferreira Fernandes assinou um artigo de opinião fazendo referência ao documentário Ónibus 174 em jeito de alfinetada nos “sociólogos desculpadores”. Ferreira Fernandes faz parte desse interminável contingente de indivíduos que não percebem a diferença entre compreender ou explicar um comportamento e aceitá-lo ou desculpá-lo, para o qual já vai sobrando muito pouca paciência. Mas neste artigo vai mais longe e, traído pela memória ou pelo preconceito, confunde a interpretação sociológica da criminalidade avançada pelo “sociólogo desculpador”. Não é que a sociedade não ligue aos bandidos (embora, efectivamente, não ligue), mas sim que não liga aos marginais (conceito bastante diferente de bandido), os quais têm na criminalidade, e sobretudo na criminalidade violenta, uma saída que lhes confere visibilidade e uma sensação de poder que não experimentam em nenhuma outra situação. Não é uma desculpa, é uma explicação e nada descabida.

O espaço diário de Ferreira Fernandes no DN é pequeno e não chega para contar a história toda. Deve ser essa a explicação para deixar de fora aspectos importantes que o documentário explora e que definem o desfecho do sequestro do Rio de Janeiro (a má preparação das forças policiais, a sujeição do poder político às pressões mediáticas, a ausência de soluções de prevenção da marginalidade e de reinserção social, o nível abjecto dos estabelecimentos prisionais no Brasil e o racismo que impera em todo o sistema policial e judicial). Deve ser essa também a justificação para que Ferreira Fernandes sintetize o desfecho do sequestro com “a morte de Sandro, o bandido, e de uma refém”. Convinha ter referido que a refém morre depois de alvejada quatro vezes: um primeiro tiro da responsabilidade de um elemento da polícia, que falha, a um metro de distância, o sequestrador, e os restantes da autoria deste último. Quanto a Sandro Nascimento, que sai ileso desta trágica intervenção, morre “misteriosamente” no carro celular durante o trajecto para a esquadra.

Dos criminosos espera-se que quebrem a lei. Das forças da autoridade espera-se outra coisa.

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Criminalidade comparada

Citar notícias de jornais já foi chão mais seguro de pisar, mas o Público de hoje faz referência a um estudo que compara taxas de criminalidade cometida por portugueses e por estrangeiros em Portugal (disponível aqui). A conclusão é que, ajustada a estrutura social dos portugueses à dos estrangeiros, as diferenças desaparecem e a nacionalidade deixa de ser um factor de influência. O estudo permite ainda perceber que a nível concelhio não foi identificada qualquer relação entre presença de estrangeiros e criminalidade registada e que, afastada a variável nacionalidade, sobram as variáveis sociais e económicas como aquelas que possuem relevância estatística.

Ligeirezas

Nunca deixará de me surpreender a ligeireza com que algumas pessoas dispõem da vida e morte de outras.

sexta-feira, 8 de agosto de 2008

Racismo? Xenofobia? Nonsense...

Aliás, basta passar os olhos pelas caixas de comentários nos sites noticiosos ou no Youtube para o confirmar.

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Injustiça para todos

Um momento de violência, grave mas altamente invulgar, envolvendo não mais que uma dúzia de pessoas, e é tudo o que o CDS de Paulo Portas precisa para atacar as medidas de apoio aos mais pobres. A luta do CDS contra o RMG e o RSI é antiga. Paulo Portas sabe que não é junto dos beneficiários destas ajudas que encontra o seu eleitorado mais fiel - reformados e pequenos proprietários, sobretudo fora das zonas mais densamente urbanas. Penalizar a larguíssima maioria de beneficiários do RMG ou do RSI que levam a sua vida de uma forma tão honesta quanto esforçada é tão inerentemente injusto que não há explicação possível que se lhe possa colar.

Mas o CDS não é contra os apoios do Estado, como não é contra a imigração. É contra alguns apoios do Estado e contra alguma imigração.

O que fica do discurso ambíguo do CDS é que os apoios não são para quem precisa, mas sim para quem merece. A diferença entre uns e outros reside no facto de se poder definir indicadores objectivos para os primeiros, enquanto os segundos dependem sobretudo de juízos de valor, sempre subjectivos e muitas vezes arbitrários. Se alguém acredita que este esquema não gera subsídio-dependência é muito ingénuo ou intelectualmente muito desonesto. Não só gera subsídio-dependência como gera subsídio-dependência de contornos caciquistas. Mas com essa, aparentemente, o CDS vive bem.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Cada país tem o George W. Bush que merece

Esqueçam o número de cantos dos Lusíadas, esqueçam o bolo-rei, esqueçam o mal disfarçado apoio a Manuela Ferreira Leite. Já tem uns meses, mas vale a pena ouvir.

Via Câmara Corporativa

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Pretérito imperfeito

Ninguém pode dizer que a prestação sofrível de Manuela Ferreira Leite como líder do maior partido da oposição seja uma surpresa. O PSD conseguiu a proeza de minar de tal forma o seu mais recente funcionamento que a escolha óbvia nas últimas eleições internas era um mergulho sem glória no passado. MFL não está ligada a nenhum projecto político de envergadura e galvanizador para o país. Pelo contrário, quase sempre suscitou contestação no desempenho de cargos de relevo e está irremediavelmente ligada à desastrosa experiência do governo de Durão Barroso, a qual abriu as portas do partido e da governação aos piores momentos que, em democracia, se conhecem tanto num como noutra. Dificilmente qualquer estratégia de campanha conseguirá iludir estes factos. A memória dos eleitores pode ser curta, mas não é, certamente, assim tão curta.

"Não é fácil"

É com a titubeante frase de título deste post que os deputados socialistas justificam o adiamento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ao contrário do que afirmam PSD e CDS, é à esquerda que este governo poderá perder votos decisivos para a maioria absoluta. Se não vão lá pela coragem de assumir a igualdade de direitos, ao menos sempre podiam tentar encarar o calculismo político por outra perspectiva.

Impossível de saber

Pretender saber exactamente quantas armas ilegais existem é um bocado como pretender saber exactamente quais os assaltos que vão ocorrer no dia seguinte.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Bandidos

Esta manhã, no blogue da TSF, perdão, no fórum da TSF, alguém dizia que os bairros sociais que se construíram foram aqueles que foi possível construir. Tenta-se, assim, atenuar a opção de criar guetos sociais num modelo cujo insucesso era já amplamente conhecido. Percebem-se as dificuldades financeiras a todos os níveis de intervenção política, mas, mesmo com o pouco dinheiro que havia e há, era difícil ter feito pior trabalho.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ser benfiquista

Os jornais desportivos andam há semanas a fazer capa com o Pablo Aimar. O benfiquista prevenido desconfia.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Good news and bad news

Boa notícia. Má notícia.

Anti-americanismo

Alguns blogues descobriram que quem vai aos EUA descobre mais EUA do que aqueles que aparecem na televisão. E que o anti-americanismo se desvanece na miríade de aspectos positivos com os quais assim se contacta em primeira mão. Na minha modestíssima forma de ver as coisas, isto são conclusões que qualquer pessoa munida de um mínimo de bom senso pode retirar sem se levantar do sofá.

Autoridade

Para a diplomacia dos EUA, os testes balísticos do Irão constituem uma violação das disposições das Nações Unidas. Como o Irão representa realmente uma ameaça séria, seria muito mais conveniente que os EUA tivessem, eles mesmos, mostrado um bocadinho mais de respeito pela ONU. Serviria, por exemplo, para soarem muito mais convincentes neste momento delicado.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Reconciliemo-nos, diziam eles

A Igreja Anglicana aprovou, por maiorias expressivas, a ordenação de mulheres bispos. O aceso debate e a polémica que antecederam esta alteração parecem ter traduzido menos consenso do que aquele que as votações demonstram. A favor da ordenação de mulheres estiveram 70% dos bispos, 74% do clero e 62% dos laicos, o que deixa muito pouca margem para ambiguidades.

Para a Igreja Católica, este é um passo que suscita “desgosto” e um “obstáculo à reconciliação” entre as duas Igrejas. Diz ainda a ICAR que a ordenação de mulheres constitui uma “ruptura com a tradição apostólica mantida por todas as Igrejas no primeiro milénio”. O facto de a ICAR ter de recuar mais de 1000 anos para apoiar as suas posições neste debate já devia ser suficiente para suscitar alguma reflexão para os lados de Roma. Mas o “desgosto” do Vaticano revela também uma certa forma de ecumenismo. A aproximação entre Igrejas é possível, desde que os modelos se aproximem daquilo que o catolicismo professa. Aliás, esta inflexibilidade, ligada ao medo de perder uma identidade que insiste em carregar consigo alguns dos mais preconceituosos modelos morais e culturais da era pré-medieval, explica bastante bem as dificuldades em manter-se como uma influência no ocidente moderno.

Deixemos de parte o facto de se saber para além de qualquer dúvida que os textos que compõem o Novo Testamento foram seleccionados e adulterados pelas correntes da proto-ortodoxia católica e de ser razoavelmente duvidoso que Jesus Cristo tenha escolhido para seus seguidores apenas homens, e mesmo assim ficamos com a imensidão de práticas descritas na Bíblia que foram abandonadas ao longo dos tempos, precisamente porque os textos bíblicos reflectem modelos de época que não se podem perpetuar sob pena de criarem anacronismos insustentáveis.

Ao recusar terminantemente a ordenação de mulheres, ao condenar a homossexualidade, ao estabelecer uma conexão absoluta entre sexo e procriação, a ICAR apresenta-se como uma Igreja que não é para todos. Alguns dirão que está no seu direito. Muito bem, que esteja. Mas nem é preciso ler os evangelhos que nunca chegaram a integrar o Novo Testamento para se perceber que as intenções de Jesus Cristo andavam longe desta Igreja que se reclama sua há 2000 anos. Há mais Igrejas para além desta Igreja Católica, mesmo dentro dela própria.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Copinho de leite

Hoje, à hora de almoço, num café da Avenida da Liberdade, um conhecido comentador e analista político, de muitas noites de eleições e debates televisivos, cuja particularidade mais notável é a queda para a indigência intelectual, folheava o 24 Horas e tinha à sua frente o que parecia ser um copo de leite. Tudo faz sentido.

Meios e fins

Quando não se percebe que não se pode estar ao lado das mesmas pessoas que usam o rapto e o sequestro como armas políticas, quando não se percebe a legitimidade intrínseca de resgatar alguém de um cativeiro de um dia, quanto mais de sete anos, quando se reduz pessoas a classes e categorias para que a coerência ideológica justifique o injustificável e relativize o sofrimento concreto e indelével de reféns e respectivas famílias, quando não se percebe nada disto não se tem uma solução politicamente, socialmente e culturalmente razoável para entender e actuar num mundo moderno, democrático e humanista. E o resto é completamente secundário, porque quem não percebe isto é demasiado perigoso para ser encarado com normalidade num debate sobre o que quer que seja.
"Hoje vai ser mais um dia de inferno", diz, de repente, o homem no elevador.

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Evidente e férreo

Na realidade, pela altura em que Marx estipulava a lei evidente e férrea da luta de classes, Faraday e Maxwell entretinham-se a demonstrar que a lei da gravidade de Newton não era tão evidente e férrea como isso.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Corporativismos

Há sempre quem pense que proteger “os nossos” passa por fechar os olhos à falta de competência, ao desleixo ou à má fé. Parecem não perceber o tipo de “nossos” em que isso os transforma.

Mais bola, ou talvez não

Compreensivelmente, não faltam adeptos do FCP a exultar com a participação do clube na Liga dos Campeões. O SLB, se fosse gerido por pessoas sérias ou inteligentes, já para não pedir as duas qualidades em simultâneo, ter-se-ia abstido de qualquer papel nesta novela e teria afirmado desde o princípio, de forma simples e decidida, que disputaria a UEFA qualquer que fosse o destino reservado ao FCP.
Mas uma coisa é estranha. Se o SLB “não deve obter na secretaria o que não conseguiu em campo”, o que faz o seu sentido, por razões de honra mais do que por quaisquer outras, já o facto de o FCP ter andado igualmente a tentar ganhar fora de campo não parece ser tão incomodativa para tais aficionados. O oportunismo feroz não é bonito de se ver. A alegria baseada na batotice também não.

Deve ser a tradição humanista da Europa a funcionar

Se os euro-deputados comungassem da memória de dias menos felizes na Europa que se pede aos irlandeses não tinham tanta pressa em aprovar legislação de natureza tão claramente hiper-securitária e xenófoba.

Ingratos

Se a Itália chegar à final do Europeu e ganhar a competição, é bom que toda a gente se lembre que a responsabilidade é de um senhor chamado Adrian Mutu, o qual, chamado a marcar um penalti que, prodigiosamente, arrumava de uma vez com França e Itália, não teve a dignidade sequer de falhar apontando ao adepto da última fila do estádio. Não, com tanta baliza, com tanta superfície de poste e trave, com tanta bancada, conseguiu atirar devagar, a meia altura, para o centro da baliza, onde, mesmo que Buffon não fosse o guarda-redes estupidamente bom que é (qual Petr Cech qual quê), bastava-lhe desmaiar para o seu lado esquerdo para defender a bola. É obrigá-los a passar a disputar competições da Confederação Asiática ou da Confederação Africana e que vão lá falhar penaltis decisivos contra o Iémen ou o Burkina Faso.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Construir a Europa

Em mais um dos seus exercícios de paciente dedicação aos blogues, a Helena traduziu um artigo do Süddeutsche Zeitung sobre o projecto de construção da Europa. Talvez não exista, por esta altura, tema político mais actual e importante do que a consolidação política da União Europeia. Mas o texto que a Helena traduziu enferma de uma exagerada desculpabilização dos políticos e de uma exagerada diabolização dos eleitores irlandeses.
É preciso que se diga que o argumento dos 862 415 irlandeses que estão a travar os 490 milhões de europeus é pura demagogia. Não fossem os irlandeses os únicos a referendar o Tratado e logo se veria, com mais propriedade, quantos europeus poriam travão à Europa. Este é um juízo que é independente da valia do referendo para ratificação do Tratado ou da necessidade deste último. Mesmo sem considerar se o Tratado está bem elaborado ou não, se o processo está a ser bem gerido ou não, se a sua ratificação deve depender de métodos directos ou representativos, não se pode fingir que há apenas 800 mil irlandeses dispostos a dizer “não”. Em 500 milhões de consciências, custa a acreditar que mais de 99,8% delas estejam de acordo quanto ao presente e futuro da UE.
As campanhas são feitas pelos políticos e pelas suas máquinas de propaganda. Se na Irlanda se andou a discutir questões paralelas e alguns se aproveitaram para envenenar o processo com o seu populismo e os seus ajustes de contas internos, isso não pode ser certamente imputado aos eleitores. Essa culpa não morre solteira e se parece fácil atribuir as responsabilidades aos políticos é porque, neste caso, são eles efectivamente os principais, senão exclusivos, responsáveis. O envolvimento toca a todos, mas uns têm mais instrumentos à sua disposição para fazer as coisas de outro modo do que os outros.
Por outro lado, esta visão maniqueísta de “connosco ou contra nós”, tão popular depois do 11 de Setembro, é redutora e simplesmente injusta. Ser contra o Tratado não significa ser contra a Europa, nem contra o alargamento, nem contra o aprofundamento da integração económica e política. Ser contra o Tratado pode apenas significar que se pretende uma construção europeia diferente. O fim da História da Europa não está nem na recusa do Tratado nem na sua aceitação acrítica.
A Europa precisa de uma redefinição do seu processo de integração política, o que deu origem à defunta Constituição e, por sua vez, ao actual Tratado. A integração económica atingiu um nível de sofisticação muito elevado e, através das relações de mútuos benefícios que tem gerado, dá o cimento utilitarista para que o projecto da UE ambicione outros objectivos. Não é credível que algum dos países que a integram se imagine fora dela num futuro próximo, nem mesmo a sempre desconfiada Grã-Bretanha, nem se deve empurrar a Irlanda para o lado como um entrave indesejável. Construir uma integração política a 27 e preparada para continuar a ser alargada e aprofundada é um desígnio incontornável da UE, mas não se afigura tarefa fácil. Há uma diferença de substância entre a simplicidade e o simplismo. O projecto da UE, por muito bonito que fosse, dificilmente poderia residir apenas na primeira e não precisa definitivamente da segunda.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Mais que perfeito

O problema desta linha de pensamento é que, quando se reúne a elite para tomar decisões e se deixa o povo à porta à espera do resultado, ninguém garante a ninguém, à partida, quem fica do lado de dentro e quem fica do lado de fora. Dito de outra forma, a melhor garantia que tenho de que o que digo é ouvido é assegurando que o que qualquer pessoa diga seja ouvido. Porque, dêem-se as voltas ao texto que se quiser, as estratificações, por mais que sociologicamente justificáveis, serão sempre politicamente inaceitáveis.
Se viermos falar na competência que investimos nos nossos políticos ao elegê-los, a questão ganha contornos bastante diferentes.Mas se o argumento é “a insanidade política que é submeter a decisão popular um texto incompreensível para quase toda a gente, onde a decisão pode ser tomada com base nos elementos mais aleatórios que se podem imaginar”, parece-me que estamos demasiado perto de uma linha que, uma vez atravessada, permite todo o tipo de justificações elitistas anti-democráticas.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Casa de ferreiro

Entre os anos 50 e 60, para não falar de histórias mais recentes, quando já metade do mundo clamava contra cortinas de ferro, a população negra do Sul da América lutava pelo direito de se sentar nos mesmos bancos de autocarro dos brancos, pelo direito de entrar nos mesmos restaurantes e hotéis, pelo direito a frequentar as mesmas escolas e universidades e pelo direito a eleger e ser eleito para cargos públicos. Muitas vezes a liberdade é uma palavra que enche a boca de pessoas que sempre a acham mais urgente em casa alheia.

quinta-feira, 5 de junho de 2008

A excepção

O corolário do post anterior é que Barack Obama deve representar apenas Barack Obama. Para os que acham que ter o primeiro afro-americano da história na recta final da corrida para a Casa Branca é um sinal inequívoco de mudança, interessa relembrar que Obama é um candidato preferido pelo que os especialistas de marketing político americano chamam wine drinkers e tem sérias dificuldades com os chamados beer drinkers. É um produto de elite, mais facilmente acarinhado pelas elites, que as estatísticas sócio-económicas se encarregam de demonstrar ter muito pouco a ver com a esmagadora maioria da população desfavorecida dos EUA, qualquer que seja a sua cor de pele. Barack Obama é a excepção que confirma a regra.

Romantizar

Em política, há sempre quem romantize. Barack Obama, para além daquilo que possa, ou não, valer como futuro presidente dos EUA, é uma inevitável romantização política. Porque tem um discurso articulado e que entusiasma, porque é novo e atraente e porque a América tem ainda muitas contas para ajustar na questão das igualdades étnicas. É impossível não ver na nomeação de Obama algo mais que o simples acto em si. Na sua imagem reúne-se a superação de séculos de escravatura e discriminação, o triunfo da perseverância e a vitória das oportunidades para todos. Mas atribuir demasiada importância a esta perspectiva tolda o julgamento político. Em política, a romantização e as más interpretações nunca são uma boa notícia. E por muito difícil que seja a avaliação, os candidatos devem valer pelo que são e não pelo que gostaríamos que fossem.

terça-feira, 3 de junho de 2008

Uma outra Feira do Livro

As quesílias do mundo editorial ultrapassam-me. As lutas de poder e de protagonismo que giram em torno da Feira do Livro de Lisboa pouco me têm interessado e confesso que nem sequer me esforço por me inteirar das razões da contenda. Com os anos, ou, de forma menos eufemística, com a idade, vamos descobrindo que, paulatinamente, vão surgindo pequenas intolerâncias para com certas coisas, as quais acarinhamos e desenvolvemos até atingirem um nível de requinte muito pessoal. Para nós são um sinal evidente de que o amadurecimento dos gostos nos torna selectivos e exigentes. Para todos os restantes são a prova provada de que a idade se encarrega de nos tornar cada vez mais chatos e embirrantes.

O meu grau de crescente exigência já não concebe que se descure a internet como um canal privilegiado de comuicação. Menos ainda que um evento como a Feira do Livro não aproveite todas as potencialidades deste meio, como se não houvesse já exemplos suficientes de como o rentabilizar devidamente. Mas, por falha dos organizadores, ou por falha dos editores, ou por falha de todos, o que nos chega é o mesmo modelo de sempre, em que as estratégias de promoção e venda passam por ocultar a informação e o interesse do cliente vem sempre, na melhor das hipóteses, em segundo lugar.

Numa outra Feira do Livro, o Livro do Dia seria uma iniciativa para fidelizar clientes e promover o gosto pela leitura, colocando à venda os melhores livros, dos melhores autores, aos melhores preços, e nunca serviria para tentar desencalhar monos que atafulham armazéns esconsos desde o tempo em que os cabelos com brilhantina estavam na moda. Numa outra Feira do Livro, a lista de Livros do Dia de todos os editores e para todo o período da Feira seria divulgada no primeiro minuto do evento, para que os compradores pudessem definir prioridades e planear as suas visitas. Numa outra Feira do Livro, esta informação estaria disponível permanentemente no site, através do qual também seria possível fazer reservas e encomendas.

Os portugueses lêem pouco, os livros estão caros e não são uma prioridade nas despesas familiares. Como a necessidade é a mãe de todas as invenções, dir-se-ia que este seria o momento para apostar em novos modelos – que já nem são tão novos como isso. Mas há sempre quem torça o nariz e desconfie e prossiga, parafraseando o outro, de prejuízo em prejuízo até à falência final.

segunda-feira, 2 de junho de 2008

Acontecimentos

Não ver televisão tem as suas vantagens. A principal é que as coisas regressam à dimensão que possuem sem o efeito promocional que a televisão lhes empresta. Hoje em dia, até os telejornais são programas de entretenimento. De outra forma, não faria sentido que durassem mais de 30 minutos, como não faz sentido que se transmitam directos de todos os sítios e mais alguns, a propósito de tudo e mais alguma coisa. Os factos deixam de ser factos e passam a ser "acontecimentos". A forma passa a definir o conteúdo e a propaganda incessante encarrega-se de relegar para segundo plano os restantes factos que concorrem por espaço noticioso televisivo.
O distanciamento do exagero que a promoção dos "acontecimentos" assume não apaga a sua importância. Antes permite que ela seja equacionada em perspectiva e de um ponto de vista muito mais pessoal. O julgamento é aquele que cada um faz em função dos seus interesses e prioridades, e não o que é definido a priori por terceiros e que só por manifesta ingenuidade pode ser considerado imparcial e destituído de interesses. A televisão dá mais importância ao futebol porque o futebol interessa e o futebol interessa porque a televisão dá mais importância ao futebol. Este é o ciclo viciado das prioridades editoriais e a principal explicação que desmistifica a falsidade de que "as audiências provam que a televisão transmite o que as pessoas querem ver".
Sem televisão, o terramoto de Sichuan continuará sempre a ser uma tragédia, mas o Rock in Rio é apenas uma sucessão de concertos e o Euro 2008 são apenas jogos de futebol.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

A globalização do futebol

Um dos temas mais interessantes para discutir as consequências práticas da globalização é o futebol. Mais concretamente, as suas implicações no modelo de organização e gestão do futebol moderno.

Há muitos críticos do rumo que o futebol está a tomar. Se quisermos agrupar as opiniões em apenas duas barricadas, de um lado temos os que defendem que o futebol (e o desporto, de uma forma geral) deve representar um caso de excepção no enquadramento legislativo europeu, enquanto do outro temos os que defendem precisamente o contrário. As leis do futebol europeu, neste momento, alinham pela livre circulação de jogadores, em concordância com o que se passa no mercado de trabalho comum da UE. Na opinião de alguns, isso descaracterizou os campeonatos nacionais, prejudicando a formação de novos talentos nas escolas dos clubes, ao mesmo tempo que agudizou uma divisão entre clubes de elite, com orçamentos milionários, e clubes de segunda, com orçamentos modestos.

Há uns anos, o modelo das competições europeias de clubes começou a sofrer alterações profundas de forma a maximizar as receitas televisivas. Na UEFA, alguém se lembrou que, dentro da lógica do futebol-entretenimento, seria interessante ver com mais frequência as melhores equipas jogar entre si. Como, matematicamente, isto é muito complicado de ver acontecer num modelo de eliminatórias e apenas com um representante por país, no caso da Taça dos Campeões, nasceu o conceito de Liga dos Campeões. Nesta última, existem fases de grupos e podemos encontrar até um máximo de quatro equipas de um mesmo campeonato. O aparente contrasenso de termos uma Liga de Campeões cuja final pode, hipoteticamente, ser disputada entre duas equipas que não conseguiram melhor que a quarta classificação no seu campeonato nacional não impediu a sua implementação.

O lema da UEFA é “We care about football”. Mas não cometemos uma grande injustiça se dissermos que a sua preocupação passa muito, sim, pelas receitas do futebol. De resto, as boas intenções da UEFA e da FIFA para com o futebol-desporto são sempre de desconfiar. Basta relembrar que a final de Moscovo, este ano, terminou depois da uma da manhã, hora local, ou que muitos dos jogos do Campeonato do Mundo nos EUA, em 1994, se disputaram debaixo de um Sol implacável e temperaturas altíssimas, para benefício das transmissões televisivas para a Europa.

O principal problema do futebol é que o actual modelo, que gera receitas fabulosas, não foi acompanhado de uma política sensata de distribuição de riqueza. Quem já dispunha de orçamentos elevados teve a oportunidade de ganhar ainda mais. Quem não dispunha de recursos, viu-se progressivamente afastado da possibilidade de diminuir a diferença para os clubes de elite. Neste Verão, fala-se de transferências milionárias como sempre se tem falado desde há uns anos. O Chelsea pode oferecer mais de 60 milhões de euros por um avançado do Liverpool. O Inter poderá gastar mais de 40 milhões para reforçar-se de acordo com os desejos do seu novo treinador. O Real Madrid pondera seriamente a hipótese de contratar Cristiano Ronaldo ao Manchester United por qualquer coisa como 80 milhões de euros.

Perante um cenário que pouca gente terá a coragem de não apelidar de excessivo, alguns voltam-se para a livre circulação de jogadores como uma das causas do descalabro, pretendendo, obviamente, restringi-la. Desse modo esperam que regresse um maior equilíbrio entre clubes europeus. Mas muito mais eficaz, e até justa, seria a imposição de limitações de outro nível. O actual modelo beneficia um número muito restrito de jogadores. Cerceando a circulação de jogadores de uma forma geral, não só não se impede que os valores de transferências continuem a subir, como se ataca o direito de uma imensa maioria de futebolistas que não deixam de ser trabalhadores e não ganham, nem de perto nem de longe, os salários que enchem as manchetes dos diários desportivos. Assim, sobra por exemplo a imposição de tectos salariais e de tectos para transferências. E sobra também uma distribuição de receitas que não favoreça apenas os que já possuem os maiores trunfos, mas que beneficie a modalidade como um todo. Se é competição que se pretende, então este será um caminho muito mais seguro.

O futebol não pode ser encarado puramente como desporto nem puramente como negócio de entretenimento, pois muito mais está em causa. De alguma forma, criou-se a ideia de que os dois modelos são inconciliáveis, o que não é verdade. Soluções de compromisso são sempre possíveis. Basta vontade de as alcançar e não recorrer à primeira solução aparentemente milagrosa que apareça.

Hora do disparate

E depois os blogues é que estão cheios de abordagens simplistas e de opiniões avulsas.

quarta-feira, 26 de março de 2008

IVA (2)

Num registo mais sério, o que a descida do IVA representa é o início da campanha não oficial para as próximas legislativas.

IVA

A descida do IVA de 21% para 20% só se pode explicar se, com a proliferação de trabalho precário, alguém no Ministério das Finanças tiver tido a visão de facilitar as contas para o preenchimento dos recibos verdes. E quem ache que estou a exagerar é porque, com toda a certeza, nunca perdeu muito tempo do seu dia de trabalho à espera que a pessoa que tem à frente perceba o funcionamento do valor bruto, da retenção na fonte, da incidência de IVA, do valor líquido e da tenebrosa soma algébrica para apurar o resultado.

quinta-feira, 20 de março de 2008

Fazer rolar cabeças

A notícia já é do fim-de-semana passado. Existem lares, apoiados pelo Estado, a recusar idosos infectados com HIV. Mencionou-se a possibilidade, reconhecidamente extrema, de vir a retirar os apoios concedidos a esses lares. O presidente da União das Misericórdias, Manuel Lemos, reagindo a essa ainda que remota possibilidade, apelou à “pedagogia” e rejeitou que se “corte cabeças a torto e a direito”.

Tem razão o presidente das Misericórdias. A pedagogia e a sensibilização são sempre soluções altamente recomendáveis, pelo menos para aqueles que acreditam que a mudança é possível. Da mesma forma, os lares das Misericórdias desempenham um papel importantíssimo e seria eventualmente nefasto colocá-los numa situação difícil que acabaria por prejudicar, em último caso, a população que beneficia dos serviços por eles prestados.

Tudo isto faz sentido e parece equilibrado, mas a questão não se esgota aqui. Tudo parece apontar para que os casos relatados representem situações pontuais. Mas é preciso que nos perguntemos a partir de que número as coisas passam a ganhar um relevo impossível de ignorar e em que circunstâncias é legítimo pedir responsabilidades. Três casos pontuais de discriminação são apenas um deslize ou são três casos a mais do que se pode aceitar? Faz sentido admitir que discriminar poucos é melhor do que discriminar muitos?

Ninguém recusará méritos à pedagogia, mas espera-se que, mais de duas décadas depois do mundo ter despertado para a realidade da SIDA, pessoas com responsabilidades em áreas ligadas à acção social estivessem entre a população mais sensibilizada para os problemas da discriminação e da exclusão. Tem de ser possível traçar uma linha que divida aqueles que reúnem condições para as funções que ocupam dos que não as possuem. Não se trata de fazer rolar cabeças. Trata-se de assegurar que as pessoas estão à altura dos cargos. Ao Estado não cabe pedir cabeças, mas é perfeitamente legítimo que exija que aos apoios que concede corresponda um desempenho de acordo com o princípio da igualdade de direitos. A União das Misericórdias, por todo o trabalho que não se pode deixar de se lhe reconhecer, devia ser a primeira a preocupar-se com isso. Quando estão em causa questões fundamentais, os números não são realmente importantes.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Promessas vãs

Recentemente, quando Alvin Toffler passou por Portugal, ganhou algum destaque o facto de ter afirmado preferir Barack Obama porque representava um sinal positivo para o resto do mundo. Argumentou-se, não sem razão, que escolher candidatos em função do sinal que representam talvez não seja a opção mais sensata. Contudo, quase ninguém reparou que Toffler complementou a sua preferência afirmando que não acreditava que nenhum candidato cumprisse as promessas que faz. O contexto é importante e as declarações aparentemente superficiais podem sempre encerrar algum tipo de raciocínio mais esclarecido.

sábado, 15 de março de 2008

Leis potencialmente inúteis

O governo quer acabar com as raças de cães consideradas perigosas em território nacional. Como as pessoas que usam cães como prolongamento dos seus egos e que não entendem ou não respeitam os mais elementares conselhos da sua educação e sociabilização não vão desenvolver um súbito interesse por peixes de aquário, é provável que daqui a 5 ou 10 anos tenhamos o mesmo tipo de problemas que levaram a esta lei envolvendo outras raças.

Aquilo que é considerado perigoso ou agressivo (conceitos diferentes, convém lembrar) varia de país para país. Curiosamente, na lista italiana não consta o Mastim Napolitano, que está na lista alemã, onde, por sua vez, não está o Rottweiler, que está na lista espanhola, onde não está o cão das Canárias, que está na lista italiana, onde o Serra da Estrela e o Rafeiro do Alentejo também são considerados com risco de agressividade e já foram tidos como potencialmente perigosos. Mas em Portugal não. Tudo muito objectivo, como se vê.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Resumo da situação

Um dos comentários do blogue da Atlântico, a propósito da capa miserável do DN de terça-feira, refere que, jornalisticamente falando, “a fotografia está bem apanhada, porque vende e porque levanta polémica”, acrescentando depois que, apesar de não ser uma história para figurar no jornal, “as vendas falam mais alto, e por vezes é necessário abdicar de certos princípios para ganhar leitores e visibilidade”.

Eis a descrição do estado a que chegou a comunicação social. Vender e polemizar são conceitos relevantes para a definição de jornalismo e os princípios são relativizáveis em função da visibilidade. Não poderia estar melhor condensado.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Lixo

Se a mulher do presidente da CML, António Costa, não tem actividade política conhecida, se tece comentários em círculos reservados, se se limita a participar numa manifestação a título pessoal, esta pseudo-notícia no DN é puro lixo e tem como única finalidade dar visibilidade às tristes e mal intencionadas insinuações de Paulo Pinto Mascarenhas. A forma de estar na política do círculo próximo de Paulo Portas já é bem conhecida. A falta de dignidade de imprensa de referência, infelizmente, também já vai sendo.

O gosto e a qualidade

Existe um pequeno problema com a adenda do João Tunes ao seu post A Mania Fixada dos 3 F. O raciocínio explicita uma dicotomia acentuada entre massas e vanguarda cultural. Essa dicotomia não existe nesses moldes. Nem eu sou a pessoa indicada para escrever um texto de sociologia do consumo cultural nem este blogue precisa de mais textos impenetráveis que ninguém lê, mas as lógicas do consumo respeitam mais um ordenamento em espiral do que uma divisão dicotómica. As diversas classes sociais aspiram ao padrão de consumo das classes que lhe estão imediatamente acima e procuram afastar-se dos padrões das que lhes estão imediatamente abaixo. Para que fique bem claro, este acima e abaixo são usados devido ao suporte metafórico da espiral. Não estou, ainda, a fazer juízos de valor. Posso gostar do livro A, do filme B, do programa C e da reportagem D. Outros discordarão. Nada de especial. São meras preferências.

O juízo de valor começa quando se propõe uma hierarquia baseada num qualquer conjunto de critérios. Apesar da crescente facilidade de segmentação do mercado e de difusão de conteúdos, as escolhas têm de ser feitas. Voltando ao nosso caso, abrir telejornais com notícias de futebol ou com a maior manifestação contra o governo não pode ter o mesmo valor, sob pena de cairmos num relativismo niilista. O número de simpatizantes do SLB e do SCP não é um argumento forte porque, se admitirmos que todos os simpatizantes de um clube se interessam de forma homogénea pelo resultado do fim-de-semana, nada nos impede de afirmar que todos os cidadãos de um país se interessam de forma homogénea pelos acontecimentos que influenciam a sua governação.

Os conteúdos noticiosos, a abordagem jornalística e a hierarquia de prioridades são passíveis de ser julgados. Se as audiências são um indicador de preferência mas não de qualidade, então como medir esta última? Julgo que a resposta se encontra em critérios de relevância objectiva dos assuntos e em rigor de tratamento da informação. Parece-me inquestionável que, objectivamente, o que está relacionado com a governação tem primazia sobre o que se relaciona com o desporto. A política e o entretenimento não estão ao mesmo nível de importância. Se uma boa parte das pessoas prefere as reportagens sobre o Benfica e o Sporting, isso é sobretudo um problema de cidadania e de demissão das responsabilidades cívicas, e não um problema que ponha em causa a hierarquia valorativa que propus. Não somos um povo de mandados, nem de tontos, nem de elites e de massas. Somos um país com fracos níveis de maturidade democrática e de cultura cívica, em que a ética e a qualidade não são suficientemente valorizadas.

terça-feira, 11 de março de 2008

Efes

Se não tresli, sou acusado de alinhar pelo diapasão dos que acham que temos um povo de mandados que cai na primeira esparrela que apanha à frente. Mas entre aquilo com que o povo se distrai e aquilo com que querem distrair o povo vai uma grande diferença. Há ciclos mediáticos e, apesar de termos telejornais de quase 90 minutos, o tempo de cobertura não deixa de ter de ser distribuído entre as várias notícias. Sem Camacho e sem a crise de resultados do Sporting sobrava bastante mais tempo para dedicar a outras coisas. Se alguém me pedisse a opinião, eu diria que o futebol não deve abrir telejornais nem fazer capa de periódicos generalistas. Mas ninguém pediu e a comunicação social nunca cessa de nos surpreender com as suas opções editoriais.

Levo uns anos valentes a menos disto do que o João Tunes. Mesmo assim, se não me falha nada, quer-me parecer que os três F elucidam mais sobre o que o regime salazarista reservava às massas do que sobre as preferências destas. Acho que do meu post não se retira que somos um povo de mandados e de tontinhos distraídos. Quanto muito, retira-se que dentro do PS deve haver quem esteja aliviado por dividir um ciclo mediático que não lhe é particularmente favorável. Se parecer outra coisa, façam favor de dizer, mesmo que seja para me explicar o que é que eu estava a pensar quando escrevi o texto.

Provocação

Oitenta escudos por um bilhete para Genesis? Parece-me um bom preço de mercado ainda hoje.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Timing perfeito

No fim-de-semana da maior manifestação contra o governo de José Sócrates, o treinador do Benfica demite-se e o Sporting encaixa dois secos em Guimarães, consolidando uma renhida luta pelo apuramento para a UEFA. No Largo do Rato devem estar a acender velinhas aos santos.

domingo, 9 de março de 2008

Tramaram-se

O PSOE ganhou novamente as eleições espanholas. Perdeu o PP, claro, mas, acima de tudo, perdeu a Igreja Católica espanhola. Os bispos espanhóis quiseram ir a votos e obtiveram uma resposta inequívoca de uma sociedade que está muito à frente do obscurantismo que pretendiam fazer vingar.

Muito curiosa é a convivência deste activismo político, quase militante, com as passagens dos Evangelhos que dão a César o que é de César. Não é uma realidade de agora, mas não deixa de ser estranho que ainda seja uma realidade nos dias de hoje.

Feitios

Há uns tempos, quando já andavam a abrir a porta da rua a Camacho, comentava-se que se ele fosse um bom treinador não estaria no Benfica. O que Camacho percebe de futebol passa-me ao lado, tal como passa ao lado dos que o criticam na sua erudição de mesa de café. O que é certo é que o agora bi-ex-treinador do Benfica, não há melhor forma de o dizer, é daquelas pessoas que não está para aturar merdas. O que é muito mau para se trabalhar em futebol, onde quer que seja, e em Portugal, no que quer que seja.

terça-feira, 4 de março de 2008

Vapor político

O Rui Branco revela perplexidade pela bateria de críticas com que o Movimento Esperança Portugal foi recebido e prefere oferecer o benefício da dúvida ao projecto de Rui Marques.

O centro do centro, politicamente falando, é algo que não me agrada. É um posicionamento legítimo, claro, mas ideologicamente muito difícil de sustentar. O centro do centro, como opção política, parece-me coerente com um pragmatismo político muito activo. Podemos esperar para ver, mas quer-me parecer que a melhor estratégia, nesse caso, passaria por assumir projectos muito definidos. Para já, assistimos apenas uma manifestação de intenções que está entre o vazio e a ambiguidade que serve tudo.

Em segundo lugar, as expressões de eleição deste novo movimento deixam muito a desejar. Têm ligeiros laivos de demagogia messiânica e de ingenuidade político-social. Posicionem-se onde quiserem e escolham o discurso que lhes apetecer, mas é inegável que pretendem ocupar um espaço que está preenchido. E, assim sendo, não estou a ver como podem reclamá-lo sem uma crítica muito forte ao que tem sido o centro e os seus actores políticos no passado recente.

Por estes lados, não se trata tanto de cuspir em todas as direcções nem de distribuir porrada pelos pequeninos. Opiniões, já dizia o outro, cada um tem a sua. O MEP propõe-se mudar o país pelo centro, privilegiando o que nos une e construindo pontes. Mas de substância e ideias concretas não apresenta nada. É tudo tão vaporoso que, para ser sincero, não sei se chega, sequer, para ser qualificado como demagogia.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Regresso a Viena

"Não apago. Porque Wittgenstein's Vienna é um título demasiado bom para ser deixado à disposição de qualquer um (apesar de se basear miserável e vergonhosamente num excelente livro de título homónimo). Porque não me esqueço do desgosto que tive ao ver que o endereço Ceci n'est pas un blog não estava em branco e não quero deixar de proporcionar a outros um desgosto parecido com aquele que, na altura, me assolou. Porque talvez me apeteça, um destes dias, ter um blogue onde possa ilustrar a palavra justiça com a fotografia de um jacaré. Ou, talvez, com a gravura de uma cadeira."

Entre o PS e o PSD

"O Movimento Esperança Portugal descreve-se como abrangendo um espaço da social-democracia entre o PS e PSD."

Entre o PS e o PSD, como tem sido muito notório, o que existe menos é espaço para o que quer que seja, de tal forma as extremidades de cada um se tocam. Um novo partido pode e deve reclamar qualquer espaço político, apesar dos analistas que equacionam o espectro partidário como se se tratasse de feirantes a competir por balcões no mercado da vila. O problema do Movimento Esperança Portugal, para além do nome escolhido, é que é impossível implantar-se nessa zona sem fazer uma crítica feroz ao que tem sido o centrão socialista/social-democrata. De alguma forma, não me parece que seja essa a estratégia pela qual os seus futuros dirigentes vão optar.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

A vida secreta dos animais domésticos

Que a gata tem um gosto especial por trazer lagartixas para casa já não é novidade e acabou por ser uma rotina com a qual se convive pacificamente. Agora o talento especial do cão para desenterrar ratazanas mortas, isso é uma conversa totalmente diferente.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Reformas

Parece muito agradável facilitar a aposentação dos funcionários públicos, reduzindo os números da Administração Pública. Mas, se não me escapa nada, isto significa que o problema orçamental dos ministérios está a ser sacudido para as costas da Segurança Social. Ninguém é despedido, muito bem, mas ainda me parece melhor se não vierem, daqui a uns tempos, falar na sobrecarga com as pensões de reforma para pedir mais anos de trabalho, ou mais descontos, ou redução de benefícios.

Modesta contribuição para a educação das elites

No seguimento da série do João Pinto e Castro dedicada ao presidente da Comissão de Cultura e Media do parlamento britânico e do contributo do Lutz Bruckelmann, a minha singela participação, recorrendo à arte Michelangelo Caravaggio, uma das preferências da casa.


Caravaggio, O Amor Triunfante, 1602-03

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Equívocos

Parece que a palavra multiculturalismo parece querer transformar-se, para alguma direita, no que a palavra globalização é para alguma esquerda: uma fonte de equívocos.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

As estatísticas, sempre as estatísticas

Arrepia ligeiramente ouvir uma pessoa com as responsabilidades de Vitalino Canas a dizer que a média da taxa de desemprego no ano passado é enganadora. A média não é enganadora. É o que é: uma medida de tendência central com as virtudes e limitações que lhe são conhecidas. As estatísticas não são enganadoras. O que é enganador é o que se opta por dizer com elas.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Ideias fáceis

O problema não é que a Europa tenha colocado a palavra "inimigos" no esquecimento, como afirma Henrique Raposo. O problema é que no mundo ocidental, livre, moderno, democrático, há quem tenha esquecido os conceitos de dignidade e de sofrimento humano e quem tenha esquecido que este continente viu morrer, no século passado, mais de 60 milhões dos seus habitantes como consequência de guerras. O problema é que há quem goste muito de espingardas, sobretudo quando são sempre outros a conhecer-lhes as extremidades. A bravura é muito fácil atrás do monitor e do teclado. Só que deixa de ser bravura; apenas bravata.

O conceito de guerra pode abranger muitas definições e aforismos, desde o popular inferno da guerra à académica continuação da diplomacia por outros meios. O que a guerra nunca deixa de ser é uma situação de excepção, com regras de excepção. É por isso que o insistente recurso à expressão “guerra contra o terrorismo” é tudo menos ingénuo e natural. A guerra, por permitir esse estatuto de excepção, abre caminho a todos os atropelos, a todos os abusos e a todas as feridas. Verdun, Auschwitz, Hiroshima e Sarajevo, entre tantos outros exemplos, não são causas de guerra. São, antes, seus produtos e, por tudo o que representam, deviam originar uma longa pausa para reflexão antes de se entrar no caminho das ideias fáceis.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

Da estética à ética

É bastante difícil comentar a nova polémica a envolver o primeiro-ministro. Ou melhor, a envolver José Sócrates, porque é muito discutível que actos com 20 anos tenham a pertinência para a actualidade que lhe querem emprestar. Se não fosse assim, Durão Barroso, Pacheco Pereira e tantos outros ainda andariam a pagar pelo que disseram e fizeram há trinta anos. E não andam.

Ao redor de José Sócrates cheira a sangue. Este vasculhar do seu passado longínquo, alheio à actividade política, é muito pouco comum. Mais do que noticiar e comentar, parece existir uma vontade de sangrar o primeiro-ministro, quase uma obsessão pela descoberta da nódoa no percurso. Isto, repare-se, em questões totalmente alheias às políticas do governo, porque essa é outra conversa. A repetição das investidas, com motivos dúbios e contornos pouco claros, não abona a favor dos seus autores, sobretudo depois do muito que se saturou o publico com episódios anteriores.

A dificuldade de comentar esta polémica reside precisamente na falta de confiança que existe no trabalho das televisões e dos jornais. Chegámos a um ponto em que, apesar da notícia, é sempre preciso começar as frases com um “se for verdade…”. Porque por vezes, demasiadas vezes, não é. Não só a fidelidade da informação passou a ser duvidosa, como as prioridades editoriais deixam muito a desejar. Ou querem convencer-nos que não há nada com maior interesse e importância para noticiar do que os projectos que Sócrates assinou há duas décadas?

Se é isto que têm para servir como jornalismo de investigação da imprensa de referência, é fraco. É menos que fraco. Comparativamente, não é melhor, sequer, que as aberrações de tijolo e cimento que Sócrates ajudou a pôr de pé.