quinta-feira, 24 de julho de 2008

Injustiça para todos

Um momento de violência, grave mas altamente invulgar, envolvendo não mais que uma dúzia de pessoas, e é tudo o que o CDS de Paulo Portas precisa para atacar as medidas de apoio aos mais pobres. A luta do CDS contra o RMG e o RSI é antiga. Paulo Portas sabe que não é junto dos beneficiários destas ajudas que encontra o seu eleitorado mais fiel - reformados e pequenos proprietários, sobretudo fora das zonas mais densamente urbanas. Penalizar a larguíssima maioria de beneficiários do RMG ou do RSI que levam a sua vida de uma forma tão honesta quanto esforçada é tão inerentemente injusto que não há explicação possível que se lhe possa colar.

Mas o CDS não é contra os apoios do Estado, como não é contra a imigração. É contra alguns apoios do Estado e contra alguma imigração.

O que fica do discurso ambíguo do CDS é que os apoios não são para quem precisa, mas sim para quem merece. A diferença entre uns e outros reside no facto de se poder definir indicadores objectivos para os primeiros, enquanto os segundos dependem sobretudo de juízos de valor, sempre subjectivos e muitas vezes arbitrários. Se alguém acredita que este esquema não gera subsídio-dependência é muito ingénuo ou intelectualmente muito desonesto. Não só gera subsídio-dependência como gera subsídio-dependência de contornos caciquistas. Mas com essa, aparentemente, o CDS vive bem.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

Cada país tem o George W. Bush que merece

Esqueçam o número de cantos dos Lusíadas, esqueçam o bolo-rei, esqueçam o mal disfarçado apoio a Manuela Ferreira Leite. Já tem uns meses, mas vale a pena ouvir.

Via Câmara Corporativa

quinta-feira, 17 de julho de 2008

Pretérito imperfeito

Ninguém pode dizer que a prestação sofrível de Manuela Ferreira Leite como líder do maior partido da oposição seja uma surpresa. O PSD conseguiu a proeza de minar de tal forma o seu mais recente funcionamento que a escolha óbvia nas últimas eleições internas era um mergulho sem glória no passado. MFL não está ligada a nenhum projecto político de envergadura e galvanizador para o país. Pelo contrário, quase sempre suscitou contestação no desempenho de cargos de relevo e está irremediavelmente ligada à desastrosa experiência do governo de Durão Barroso, a qual abriu as portas do partido e da governação aos piores momentos que, em democracia, se conhecem tanto num como noutra. Dificilmente qualquer estratégia de campanha conseguirá iludir estes factos. A memória dos eleitores pode ser curta, mas não é, certamente, assim tão curta.

"Não é fácil"

É com a titubeante frase de título deste post que os deputados socialistas justificam o adiamento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ao contrário do que afirmam PSD e CDS, é à esquerda que este governo poderá perder votos decisivos para a maioria absoluta. Se não vão lá pela coragem de assumir a igualdade de direitos, ao menos sempre podiam tentar encarar o calculismo político por outra perspectiva.

Impossível de saber

Pretender saber exactamente quantas armas ilegais existem é um bocado como pretender saber exactamente quais os assaltos que vão ocorrer no dia seguinte.

segunda-feira, 14 de julho de 2008

Bandidos

Esta manhã, no blogue da TSF, perdão, no fórum da TSF, alguém dizia que os bairros sociais que se construíram foram aqueles que foi possível construir. Tenta-se, assim, atenuar a opção de criar guetos sociais num modelo cujo insucesso era já amplamente conhecido. Percebem-se as dificuldades financeiras a todos os níveis de intervenção política, mas, mesmo com o pouco dinheiro que havia e há, era difícil ter feito pior trabalho.

sexta-feira, 11 de julho de 2008

Ser benfiquista

Os jornais desportivos andam há semanas a fazer capa com o Pablo Aimar. O benfiquista prevenido desconfia.

quarta-feira, 9 de julho de 2008

Good news and bad news

Boa notícia. Má notícia.

Anti-americanismo

Alguns blogues descobriram que quem vai aos EUA descobre mais EUA do que aqueles que aparecem na televisão. E que o anti-americanismo se desvanece na miríade de aspectos positivos com os quais assim se contacta em primeira mão. Na minha modestíssima forma de ver as coisas, isto são conclusões que qualquer pessoa munida de um mínimo de bom senso pode retirar sem se levantar do sofá.

Autoridade

Para a diplomacia dos EUA, os testes balísticos do Irão constituem uma violação das disposições das Nações Unidas. Como o Irão representa realmente uma ameaça séria, seria muito mais conveniente que os EUA tivessem, eles mesmos, mostrado um bocadinho mais de respeito pela ONU. Serviria, por exemplo, para soarem muito mais convincentes neste momento delicado.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Reconciliemo-nos, diziam eles

A Igreja Anglicana aprovou, por maiorias expressivas, a ordenação de mulheres bispos. O aceso debate e a polémica que antecederam esta alteração parecem ter traduzido menos consenso do que aquele que as votações demonstram. A favor da ordenação de mulheres estiveram 70% dos bispos, 74% do clero e 62% dos laicos, o que deixa muito pouca margem para ambiguidades.

Para a Igreja Católica, este é um passo que suscita “desgosto” e um “obstáculo à reconciliação” entre as duas Igrejas. Diz ainda a ICAR que a ordenação de mulheres constitui uma “ruptura com a tradição apostólica mantida por todas as Igrejas no primeiro milénio”. O facto de a ICAR ter de recuar mais de 1000 anos para apoiar as suas posições neste debate já devia ser suficiente para suscitar alguma reflexão para os lados de Roma. Mas o “desgosto” do Vaticano revela também uma certa forma de ecumenismo. A aproximação entre Igrejas é possível, desde que os modelos se aproximem daquilo que o catolicismo professa. Aliás, esta inflexibilidade, ligada ao medo de perder uma identidade que insiste em carregar consigo alguns dos mais preconceituosos modelos morais e culturais da era pré-medieval, explica bastante bem as dificuldades em manter-se como uma influência no ocidente moderno.

Deixemos de parte o facto de se saber para além de qualquer dúvida que os textos que compõem o Novo Testamento foram seleccionados e adulterados pelas correntes da proto-ortodoxia católica e de ser razoavelmente duvidoso que Jesus Cristo tenha escolhido para seus seguidores apenas homens, e mesmo assim ficamos com a imensidão de práticas descritas na Bíblia que foram abandonadas ao longo dos tempos, precisamente porque os textos bíblicos reflectem modelos de época que não se podem perpetuar sob pena de criarem anacronismos insustentáveis.

Ao recusar terminantemente a ordenação de mulheres, ao condenar a homossexualidade, ao estabelecer uma conexão absoluta entre sexo e procriação, a ICAR apresenta-se como uma Igreja que não é para todos. Alguns dirão que está no seu direito. Muito bem, que esteja. Mas nem é preciso ler os evangelhos que nunca chegaram a integrar o Novo Testamento para se perceber que as intenções de Jesus Cristo andavam longe desta Igreja que se reclama sua há 2000 anos. Há mais Igrejas para além desta Igreja Católica, mesmo dentro dela própria.

sexta-feira, 4 de julho de 2008

Copinho de leite

Hoje, à hora de almoço, num café da Avenida da Liberdade, um conhecido comentador e analista político, de muitas noites de eleições e debates televisivos, cuja particularidade mais notável é a queda para a indigência intelectual, folheava o 24 Horas e tinha à sua frente o que parecia ser um copo de leite. Tudo faz sentido.

Meios e fins

Quando não se percebe que não se pode estar ao lado das mesmas pessoas que usam o rapto e o sequestro como armas políticas, quando não se percebe a legitimidade intrínseca de resgatar alguém de um cativeiro de um dia, quanto mais de sete anos, quando se reduz pessoas a classes e categorias para que a coerência ideológica justifique o injustificável e relativize o sofrimento concreto e indelével de reféns e respectivas famílias, quando não se percebe nada disto não se tem uma solução politicamente, socialmente e culturalmente razoável para entender e actuar num mundo moderno, democrático e humanista. E o resto é completamente secundário, porque quem não percebe isto é demasiado perigoso para ser encarado com normalidade num debate sobre o que quer que seja.
"Hoje vai ser mais um dia de inferno", diz, de repente, o homem no elevador.