Quarta-feira, 26 de Março de 2008

IVA (2)

Num registo mais sério, o que a descida do IVA representa é o início da campanha não oficial para as próximas legislativas.

IVA

A descida do IVA de 21% para 20% só se pode explicar se, com a proliferação de trabalho precário, alguém no Ministério das Finanças tiver tido a visão de facilitar as contas para o preenchimento dos recibos verdes. E quem ache que estou a exagerar é porque, com toda a certeza, nunca perdeu muito tempo do seu dia de trabalho à espera que a pessoa que tem à frente perceba o funcionamento do valor bruto, da retenção na fonte, da incidência de IVA, do valor líquido e da tenebrosa soma algébrica para apurar o resultado.

Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Fazer rolar cabeças

A notícia já é do fim-de-semana passado. Existem lares, apoiados pelo Estado, a recusar idosos infectados com HIV. Mencionou-se a possibilidade, reconhecidamente extrema, de vir a retirar os apoios concedidos a esses lares. O presidente da União das Misericórdias, Manuel Lemos, reagindo a essa ainda que remota possibilidade, apelou à “pedagogia” e rejeitou que se “corte cabeças a torto e a direito”.

Tem razão o presidente das Misericórdias. A pedagogia e a sensibilização são sempre soluções altamente recomendáveis, pelo menos para aqueles que acreditam que a mudança é possível. Da mesma forma, os lares das Misericórdias desempenham um papel importantíssimo e seria eventualmente nefasto colocá-los numa situação difícil que acabaria por prejudicar, em último caso, a população que beneficia dos serviços por eles prestados.

Tudo isto faz sentido e parece equilibrado, mas a questão não se esgota aqui. Tudo parece apontar para que os casos relatados representem situações pontuais. Mas é preciso que nos perguntemos a partir de que número as coisas passam a ganhar um relevo impossível de ignorar e em que circunstâncias é legítimo pedir responsabilidades. Três casos pontuais de discriminação são apenas um deslize ou são três casos a mais do que se pode aceitar? Faz sentido admitir que discriminar poucos é melhor do que discriminar muitos?

Ninguém recusará méritos à pedagogia, mas espera-se que, mais de duas décadas depois do mundo ter despertado para a realidade da SIDA, pessoas com responsabilidades em áreas ligadas à acção social estivessem entre a população mais sensibilizada para os problemas da discriminação e da exclusão. Tem de ser possível traçar uma linha que divida aqueles que reúnem condições para as funções que ocupam dos que não as possuem. Não se trata de fazer rolar cabeças. Trata-se de assegurar que as pessoas estão à altura dos cargos. Ao Estado não cabe pedir cabeças, mas é perfeitamente legítimo que exija que aos apoios que concede corresponda um desempenho de acordo com o princípio da igualdade de direitos. A União das Misericórdias, por todo o trabalho que não se pode deixar de se lhe reconhecer, devia ser a primeira a preocupar-se com isso. Quando estão em causa questões fundamentais, os números não são realmente importantes.

Quarta-feira, 19 de Março de 2008

Promessas vãs

Recentemente, quando Alvin Toffler passou por Portugal, ganhou algum destaque o facto de ter afirmado preferir Barack Obama porque representava um sinal positivo para o resto do mundo. Argumentou-se, não sem razão, que escolher candidatos em função do sinal que representam talvez não seja a opção mais sensata. Contudo, quase ninguém reparou que Toffler complementou a sua preferência afirmando que não acreditava que nenhum candidato cumprisse as promessas que faz. O contexto é importante e as declarações aparentemente superficiais podem sempre encerrar algum tipo de raciocínio mais esclarecido.

Sábado, 15 de Março de 2008

Leis potencialmente inúteis

O governo quer acabar com as raças de cães consideradas perigosas em território nacional. Como as pessoas que usam cães como prolongamento dos seus egos e que não entendem ou não respeitam os mais elementares conselhos da sua educação e sociabilização não vão desenvolver um súbito interesse por peixes de aquário, é provável que daqui a 5 ou 10 anos tenhamos o mesmo tipo de problemas que levaram a esta lei envolvendo outras raças.

Aquilo que é considerado perigoso ou agressivo (conceitos diferentes, convém lembrar) varia de país para país. Curiosamente, na lista italiana não consta o Mastim Napolitano, que está na lista alemã, onde, por sua vez, não está o Rottweiler, que está na lista espanhola, onde não está o cão das Canárias, que está na lista italiana, onde o Serra da Estrela e o Rafeiro do Alentejo também são considerados com risco de agressividade e já foram tidos como potencialmente perigosos. Mas em Portugal não. Tudo muito objectivo, como se vê.

Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Resumo da situação

Um dos comentários do blogue da Atlântico, a propósito da capa miserável do DN de terça-feira, refere que, jornalisticamente falando, “a fotografia está bem apanhada, porque vende e porque levanta polémica”, acrescentando depois que, apesar de não ser uma história para figurar no jornal, “as vendas falam mais alto, e por vezes é necessário abdicar de certos princípios para ganhar leitores e visibilidade”.

Eis a descrição do estado a que chegou a comunicação social. Vender e polemizar são conceitos relevantes para a definição de jornalismo e os princípios são relativizáveis em função da visibilidade. Não poderia estar melhor condensado.

Quarta-feira, 12 de Março de 2008

Lixo

Se a mulher do presidente da CML, António Costa, não tem actividade política conhecida, se tece comentários em círculos reservados, se se limita a participar numa manifestação a título pessoal, esta pseudo-notícia no DN é puro lixo e tem como única finalidade dar visibilidade às tristes e mal intencionadas insinuações de Paulo Pinto Mascarenhas. A forma de estar na política do círculo próximo de Paulo Portas já é bem conhecida. A falta de dignidade de imprensa de referência, infelizmente, também já vai sendo.

O gosto e a qualidade

Existe um pequeno problema com a adenda do João Tunes ao seu post A Mania Fixada dos 3 F. O raciocínio explicita uma dicotomia acentuada entre massas e vanguarda cultural. Essa dicotomia não existe nesses moldes. Nem eu sou a pessoa indicada para escrever um texto de sociologia do consumo cultural nem este blogue precisa de mais textos impenetráveis que ninguém lê, mas as lógicas do consumo respeitam mais um ordenamento em espiral do que uma divisão dicotómica. As diversas classes sociais aspiram ao padrão de consumo das classes que lhe estão imediatamente acima e procuram afastar-se dos padrões das que lhes estão imediatamente abaixo. Para que fique bem claro, este acima e abaixo são usados devido ao suporte metafórico da espiral. Não estou, ainda, a fazer juízos de valor. Posso gostar do livro A, do filme B, do programa C e da reportagem D. Outros discordarão. Nada de especial. São meras preferências.

O juízo de valor começa quando se propõe uma hierarquia baseada num qualquer conjunto de critérios. Apesar da crescente facilidade de segmentação do mercado e de difusão de conteúdos, as escolhas têm de ser feitas. Voltando ao nosso caso, abrir telejornais com notícias de futebol ou com a maior manifestação contra o governo não pode ter o mesmo valor, sob pena de cairmos num relativismo niilista. O número de simpatizantes do SLB e do SCP não é um argumento forte porque, se admitirmos que todos os simpatizantes de um clube se interessam de forma homogénea pelo resultado do fim-de-semana, nada nos impede de afirmar que todos os cidadãos de um país se interessam de forma homogénea pelos acontecimentos que influenciam a sua governação.

Os conteúdos noticiosos, a abordagem jornalística e a hierarquia de prioridades são passíveis de ser julgados. Se as audiências são um indicador de preferência mas não de qualidade, então como medir esta última? Julgo que a resposta se encontra em critérios de relevância objectiva dos assuntos e em rigor de tratamento da informação. Parece-me inquestionável que, objectivamente, o que está relacionado com a governação tem primazia sobre o que se relaciona com o desporto. A política e o entretenimento não estão ao mesmo nível de importância. Se uma boa parte das pessoas prefere as reportagens sobre o Benfica e o Sporting, isso é sobretudo um problema de cidadania e de demissão das responsabilidades cívicas, e não um problema que ponha em causa a hierarquia valorativa que propus. Não somos um povo de mandados, nem de tontos, nem de elites e de massas. Somos um país com fracos níveis de maturidade democrática e de cultura cívica, em que a ética e a qualidade não são suficientemente valorizadas.

Terça-feira, 11 de Março de 2008

Efes

Se não tresli, sou acusado de alinhar pelo diapasão dos que acham que temos um povo de mandados que cai na primeira esparrela que apanha à frente. Mas entre aquilo com que o povo se distrai e aquilo com que querem distrair o povo vai uma grande diferença. Há ciclos mediáticos e, apesar de termos telejornais de quase 90 minutos, o tempo de cobertura não deixa de ter de ser distribuído entre as várias notícias. Sem Camacho e sem a crise de resultados do Sporting sobrava bastante mais tempo para dedicar a outras coisas. Se alguém me pedisse a opinião, eu diria que o futebol não deve abrir telejornais nem fazer capa de periódicos generalistas. Mas ninguém pediu e a comunicação social nunca cessa de nos surpreender com as suas opções editoriais.

Levo uns anos valentes a menos disto do que o João Tunes. Mesmo assim, se não me falha nada, quer-me parecer que os três F elucidam mais sobre o que o regime salazarista reservava às massas do que sobre as preferências destas. Acho que do meu post não se retira que somos um povo de mandados e de tontinhos distraídos. Quanto muito, retira-se que dentro do PS deve haver quem esteja aliviado por dividir um ciclo mediático que não lhe é particularmente favorável. Se parecer outra coisa, façam favor de dizer, mesmo que seja para me explicar o que é que eu estava a pensar quando escrevi o texto.

Provocação

Oitenta escudos por um bilhete para Genesis? Parece-me um bom preço de mercado ainda hoje.

Segunda-feira, 10 de Março de 2008

Timing perfeito

No fim-de-semana da maior manifestação contra o governo de José Sócrates, o treinador do Benfica demite-se e o Sporting encaixa dois secos em Guimarães, consolidando uma renhida luta pelo apuramento para a UEFA. No Largo do Rato devem estar a acender velinhas aos santos.

Domingo, 9 de Março de 2008

Tramaram-se

O PSOE ganhou novamente as eleições espanholas. Perdeu o PP, claro, mas, acima de tudo, perdeu a Igreja Católica espanhola. Os bispos espanhóis quiseram ir a votos e obtiveram uma resposta inequívoca de uma sociedade que está muito à frente do obscurantismo que pretendiam fazer vingar.

Muito curiosa é a convivência deste activismo político, quase militante, com as passagens dos Evangelhos que dão a César o que é de César. Não é uma realidade de agora, mas não deixa de ser estranho que ainda seja uma realidade nos dias de hoje.

Feitios

Há uns tempos, quando já andavam a abrir a porta da rua a Camacho, comentava-se que se ele fosse um bom treinador não estaria no Benfica. O que Camacho percebe de futebol passa-me ao lado, tal como passa ao lado dos que o criticam na sua erudição de mesa de café. O que é certo é que o agora bi-ex-treinador do Benfica, não há melhor forma de o dizer, é daquelas pessoas que não está para aturar merdas. O que é muito mau para se trabalhar em futebol, onde quer que seja, e em Portugal, no que quer que seja.

Terça-feira, 4 de Março de 2008

Vapor político

O Rui Branco revela perplexidade pela bateria de críticas com que o Movimento Esperança Portugal foi recebido e prefere oferecer o benefício da dúvida ao projecto de Rui Marques.

O centro do centro, politicamente falando, é algo que não me agrada. É um posicionamento legítimo, claro, mas ideologicamente muito difícil de sustentar. O centro do centro, como opção política, parece-me coerente com um pragmatismo político muito activo. Podemos esperar para ver, mas quer-me parecer que a melhor estratégia, nesse caso, passaria por assumir projectos muito definidos. Para já, assistimos apenas uma manifestação de intenções que está entre o vazio e a ambiguidade que serve tudo.

Em segundo lugar, as expressões de eleição deste novo movimento deixam muito a desejar. Têm ligeiros laivos de demagogia messiânica e de ingenuidade político-social. Posicionem-se onde quiserem e escolham o discurso que lhes apetecer, mas é inegável que pretendem ocupar um espaço que está preenchido. E, assim sendo, não estou a ver como podem reclamá-lo sem uma crítica muito forte ao que tem sido o centro e os seus actores políticos no passado recente.

Por estes lados, não se trata tanto de cuspir em todas as direcções nem de distribuir porrada pelos pequeninos. Opiniões, já dizia o outro, cada um tem a sua. O MEP propõe-se mudar o país pelo centro, privilegiando o que nos une e construindo pontes. Mas de substância e ideias concretas não apresenta nada. É tudo tão vaporoso que, para ser sincero, não sei se chega, sequer, para ser qualificado como demagogia.

Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Regresso a Viena

"Não apago. Porque Wittgenstein's Vienna é um título demasiado bom para ser deixado à disposição de qualquer um (apesar de se basear miserável e vergonhosamente num excelente livro de título homónimo). Porque não me esqueço do desgosto que tive ao ver que o endereço Ceci n'est pas un blog não estava em branco e não quero deixar de proporcionar a outros um desgosto parecido com aquele que, na altura, me assolou. Porque talvez me apeteça, um destes dias, ter um blogue onde possa ilustrar a palavra justiça com a fotografia de um jacaré. Ou, talvez, com a gravura de uma cadeira."

Entre o PS e o PSD

"O Movimento Esperança Portugal descreve-se como abrangendo um espaço da social-democracia entre o PS e PSD."

Entre o PS e o PSD, como tem sido muito notório, o que existe menos é espaço para o que quer que seja, de tal forma as extremidades de cada um se tocam. Um novo partido pode e deve reclamar qualquer espaço político, apesar dos analistas que equacionam o espectro partidário como se se tratasse de feirantes a competir por balcões no mercado da vila. O problema do Movimento Esperança Portugal, para além do nome escolhido, é que é impossível implantar-se nessa zona sem fazer uma crítica feroz ao que tem sido o centrão socialista/social-democrata. De alguma forma, não me parece que seja essa a estratégia pela qual os seus futuros dirigentes vão optar.

Sexta-feira, 29 de Fevereiro de 2008

A vida secreta dos animais domésticos

Que a gata tem um gosto especial por trazer lagartixas para casa já não é novidade e acabou por ser uma rotina com a qual se convive pacificamente. Agora o talento especial do cão para desenterrar ratazanas mortas, isso é uma conversa totalmente diferente.

Sexta-feira, 22 de Fevereiro de 2008

Reformas

Parece muito agradável facilitar a aposentação dos funcionários públicos, reduzindo os números da Administração Pública. Mas, se não me escapa nada, isto significa que o problema orçamental dos ministérios está a ser sacudido para as costas da Segurança Social. Ninguém é despedido, muito bem, mas ainda me parece melhor se não vierem, daqui a uns tempos, falar na sobrecarga com as pensões de reforma para pedir mais anos de trabalho, ou mais descontos, ou redução de benefícios.

Modesta contribuição para a educação das elites

No seguimento da série do João Pinto e Castro dedicada ao presidente da Comissão de Cultura e Media do parlamento britânico e do contributo do Lutz Bruckelmann, a minha singela participação, recorrendo à arte Michelangelo Caravaggio, uma das preferências da casa.


Caravaggio, O Amor Triunfante, 1602-03

Terça-feira, 19 de Fevereiro de 2008

Equívocos

Parece que a palavra multiculturalismo parece querer transformar-se, para alguma direita, no que a palavra globalização é para alguma esquerda: uma fonte de equívocos.

Sexta-feira, 15 de Fevereiro de 2008

As estatísticas, sempre as estatísticas

Arrepia ligeiramente ouvir uma pessoa com as responsabilidades de Vitalino Canas a dizer que a média da taxa de desemprego no ano passado é enganadora. A média não é enganadora. É o que é: uma medida de tendência central com as virtudes e limitações que lhe são conhecidas. As estatísticas não são enganadoras. O que é enganador é o que se opta por dizer com elas.

Terça-feira, 12 de Fevereiro de 2008

Ideias fáceis

O problema não é que a Europa tenha colocado a palavra "inimigos" no esquecimento, como afirma Henrique Raposo. O problema é que no mundo ocidental, livre, moderno, democrático, há quem tenha esquecido os conceitos de dignidade e de sofrimento humano e quem tenha esquecido que este continente viu morrer, no século passado, mais de 60 milhões dos seus habitantes como consequência de guerras. O problema é que há quem goste muito de espingardas, sobretudo quando são sempre outros a conhecer-lhes as extremidades. A bravura é muito fácil atrás do monitor e do teclado. Só que deixa de ser bravura; apenas bravata.

O conceito de guerra pode abranger muitas definições e aforismos, desde o popular inferno da guerra à académica continuação da diplomacia por outros meios. O que a guerra nunca deixa de ser é uma situação de excepção, com regras de excepção. É por isso que o insistente recurso à expressão “guerra contra o terrorismo” é tudo menos ingénuo e natural. A guerra, por permitir esse estatuto de excepção, abre caminho a todos os atropelos, a todos os abusos e a todas as feridas. Verdun, Auschwitz, Hiroshima e Sarajevo, entre tantos outros exemplos, não são causas de guerra. São, antes, seus produtos e, por tudo o que representam, deviam originar uma longa pausa para reflexão antes de se entrar no caminho das ideias fáceis.

Quarta-feira, 6 de Fevereiro de 2008

Da estética à ética

É bastante difícil comentar a nova polémica a envolver o primeiro-ministro. Ou melhor, a envolver José Sócrates, porque é muito discutível que actos com 20 anos tenham a pertinência para a actualidade que lhe querem emprestar. Se não fosse assim, Durão Barroso, Pacheco Pereira e tantos outros ainda andariam a pagar pelo que disseram e fizeram há trinta anos. E não andam.

Ao redor de José Sócrates cheira a sangue. Este vasculhar do seu passado longínquo, alheio à actividade política, é muito pouco comum. Mais do que noticiar e comentar, parece existir uma vontade de sangrar o primeiro-ministro, quase uma obsessão pela descoberta da nódoa no percurso. Isto, repare-se, em questões totalmente alheias às políticas do governo, porque essa é outra conversa. A repetição das investidas, com motivos dúbios e contornos pouco claros, não abona a favor dos seus autores, sobretudo depois do muito que se saturou o publico com episódios anteriores.

A dificuldade de comentar esta polémica reside precisamente na falta de confiança que existe no trabalho das televisões e dos jornais. Chegámos a um ponto em que, apesar da notícia, é sempre preciso começar as frases com um “se for verdade…”. Porque por vezes, demasiadas vezes, não é. Não só a fidelidade da informação passou a ser duvidosa, como as prioridades editoriais deixam muito a desejar. Ou querem convencer-nos que não há nada com maior interesse e importância para noticiar do que os projectos que Sócrates assinou há duas décadas?

Se é isto que têm para servir como jornalismo de investigação da imprensa de referência, é fraco. É menos que fraco. Comparativamente, não é melhor, sequer, que as aberrações de tijolo e cimento que Sócrates ajudou a pôr de pé.

Terça-feira, 29 de Janeiro de 2008

Uma de três

Politicamente, há três interpretações para a remodelação de Correia de Campos. Ou o ministro da Saúde não fez o trabalho previsto, ou se reconhece que as reformas levadas a cabo não são as melhores, ou o primeiro-ministro cedeu à pressão popular e mediática. Em nenhuma delas o governo de José Sócrates fica bem na fotografia.

Tortura

A ASAE fica aí a uns 50 metros do barbeiro onde me desloco regularmente para aparar a melena. Os únicos indícios de tortura que por lá costumo encontrar são o tempo que se passa à procura de lugar para estacionar e os preços praticados pelo parque de estacionamento subterrâneo, quando há mais pressa.

Segunda-feira, 28 de Janeiro de 2008

Sinais de perigo

Encontra-se no Dois Dedos de Conversa um artigo de Bernd Ulrich, traduzido pela Helena Araújo, que se revela imperdível (quem domine o Alemão encontra também ligação disponível para o original). O posicionamento dos extremismos políticos é cada vez mais notório e relaciona-se de perto com o ambiente de incerteza e de clivagem social que se vive um pouco por toda a Europa.

A democracia pode sobreviver a muitas crises, mas dificilmente ao facto de ser tida como um dado adquirido, não precisando de ser permanentemente defendida e aprofundada. A forma como tratamos os mais desprotegidos revela muito do que somos e, neste momento, não revela uma grande preocupação com as suas condições. O tratamento reservado aos imigrantes – legais e, sobretudo, ilegais – ou a incapacidade de encarar o sofrimento humano vivido pelos apátridas e pelos refugiados denotam bem o lugar que o Ocidente lhes reserva na sua lista de prioridades.

Se a isto somarmos o eterno conflito israelo-palestiniano, o separatismo Kosovar e o recrudescimento dos nacionalismos, na Europa como no Mundo, temos rastilho e pólvora suficiente para nos arrependermos amargamente de não ter dado a devida atenção aos sinais à nossa volta.

Domingo, 27 de Janeiro de 2008

Actualizações

José Pimentel Teixeira continua o seu Ma-Schamba noutro poiso.

À esquerda

Criar um novo partido à esquerda do PS, algures no intervalo que deveria separar o PS do PCP e do BE, é entregar o partido à indefinição centrista, à sede de poder pelo poder e às facções mais à direita que por lá militam. Parece haver quem queira retirar como consequência lógica dos resultados eleitorais de Manuel Alegre e de Helena Roseta a criação de uma nova força partidária, a qual resolveria os diferendos vividos. Mas o problema não reside em Manuel Alegre, Helena Roseta ou nos militantes que se identificam com uma linha ideológica mais à esquerda. O problema reside precisamente no facto de o PS se ter transformado num partido com uma matriz muito próxima do centro-direita. A ala à esquerda do PS não precisa de outro partido; precisa que o PS volte a ser um partido de esquerda.

Faz falta ao sistema político-partidário uma força de esquerda com a implantação eleitoral do PS. A co-habitação de um partido como o PSD com esta versão do PS é redundante e empobrecedora. Além disso, compreensivelmente, o PSD faz muito melhor de PSD do que o PS. Esta aventura pelo centro-direita do PS de Sócrates só tem resultado bem porque os sociais-democratas optaram consecutivamente por soluções tão populistas como pouco credíveis nas figuras de Santana Lopes e de Luís Filipe Menezes.

Ao contrário do que muita gente pensa, a culpa da crise no PSD não é da responsabilidade de Sócrates, mas ainda dos efeitos dos governos e do PS de António Guterres. Deixem o PSD voltar a encontrar uma referência séria para líder, com um discurso ideologicamente coerente e sério, para ver o pandemónio em que se vai transformar o Largo do Rato nas mãos da elite dirigente que os anos Sócrates têm promovido.

Quinta-feira, 24 de Janeiro de 2008

Gostar de peixe

Acho que ainda não disse, este ano, que gosto muito do que escreve o Besugo. Pois bem, gosto muito do que escreve o Besugo.
O Besugo diz que não lhe pagam para escrever (e muito menos para escrever bem). Ainda bem, digo eu. Assim, o que escreve não lhe vem da carteira, mas sai-lhe da alma, ou do coração, ou do que ele lhe queira chamar.
O Besugo é do Sporting. Devia ser do Benfica. Quem escreve assim, depois de um dia de trabalho, devia ser do Benfica. Eu já fui ver jogos do Sporting e sei que tenho razão.

Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

Publicidade grátis

A edição desta semana da revista The Economist menciona o nosso cantinho da costa ocidental da Europa. O texto tem por título “Millennium bug”. Depois de passar os olhos pelos curtos parágrafos do artigo, onde se lê portuguese banks podia ler-se o nome de qualquer país da América Latina e continuaria tudo a fazer sentido.

Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Só mais uns dias

Eu fui, mas volto.

Quinta-feira, 10 de Janeiro de 2008

Resumo do dia

Se bem percebo, Luís Filipe Meneses está satisfeito porque José Sócrates mudou de opinião, mas não gosta que o primeiro-ministro mude de opinião. Já Paulo Portas, o ex- ministro Xerox, acha que tem autoridade moral e política para aconselhar a demissão a quem quer que seja. Armando Vara, por seu lado, quer mudar de emprego, mantendo o que ainda tem. Tudo normal. Tudo perfeitamente normal.

Quarta-feira, 9 de Janeiro de 2008

Referendar

Não se vai referendar o Tratado. Mas referenda-se, pelo menos de quatro em quatro anos, os tratantes.

Um debate necessário

Na segunda-feira, João Pinto e Castro notou com perplexidade as prioridades do Público nos destaques que confere aos artigos dos seus colunistas. O exemplo é efectivamente caricato e poderia servir de mote para introduzir o debate que o país e os blogues ainda não fizeram sobre os meios de comunicação social.

O tema da comunicação social, sobretudo quando abordado nos blogues, mas não só, acaba frequentemente por resvalar para um debate sobre as novas oportunidades e as novas ameaças ao jornalismo. Discute-se muito se os blogues são comunicação social, se roubam ou acrescentam público, se competem ou complementam os meios tradicionais, tal como se discute a relação dos órgãos de comunicação social com a Internet, a rapidez de divulgação das notícias, a interdependência entre canais de informação e as vantagens e desvantagens relativas de cada meio em comparação com os outros.

Comparar blogues com os meios de difusão de notícias – a imprensa, as televisões, as rádios – tem o seu interesse enquanto exercício intelectual, especialmente, sem estranheza, para quem escreve em blogues, mas ofusca uma discussão muito mais importante. Os blogues ainda não substituem os meios de comunicação social, nem em recursos, nem em audiência, nem em influência e os órgãos de comunicação social tradicionais ainda são o meio de informação por excelência para a maioria da população. Assim sendo, o que importa conhecer é o seu actual estado de funcionamento. Ou seja, interessa perceber o grau de confiança e profissionalismo que ela oferece, enquanto instrumento de mediação da informação, enquanto lente de leitura da actualidade política, económica e social.

Compreende-se que esse debate não interesse aos próprios meios que serão objecto de reflexão. Surge, então, o papel que os blogues têm a desempenhar.

Que qualidade de democracia podemos esperar se a comunicação social padecer de fragilidades operacionais, de falta de rigor, de interesses instalados? Não muita, certamente. O debate que ainda não foi feito é precisamente este e envolve compreender a qualidade de ensino de jornalismo nas faculdades, o peso do trabalho inexperiente e mal remunerado nas redacções, o fenómeno da concentração da comunicação social e a relação das receitas da publicidade com a independência editorial.

Deste modo, o equívoco gerado pela chamada de atenção do Público pode ter resultado de uma ética informativa pouco desenvolvida, de mera iliteracia ou de um trabalho mal feito por falta de tempo para o fazer melhor. O que é certo é que, sobretudo na imprensa, cada vez o leque de temas é menor, os artigos são mais pequenos e superficiais e a qualidade da escrita se torna sofrível. Encarar o problema com frontalidade, parecendo que não, era um favor que se fazia aos jornalistas, já para não falar do país.

Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Controlar o sistema

Os partidos políticos são condição necessária, se bem que não suficiente, de qualquer sistema político democrático. Estabelecer um limite mínimo de filiados como condição de não extinção de um partido político tem o duvidoso condão de, numa situação extrema, mas não tão estranha em tempos de divórcio entre política e eleitores, poder patrocinar a extinção de todos os partidos políticos do sistema. Este raciocínio revela bem a ausência de bom senso de tal limitação. Mas, como diria o outro, essa não é a questão. A questão é que a liberdade política, que passa pela liberdade de associação política, não pode estar manietada por números estabelecidos arbitrariamente.

Por alguma razão, alguém pensou que um partido político deve depender menos da identificação dos eleitores com as suas propostas do que da disponibilidade destes para pagarem quotas. A premissa, já de si, é absurda. Contudo, a objecção principal que se levanta a este sistema de policiamento da actividade partidária é a sua inerente falta de democraticidade, a forma como prejudica inquestionavelmente os partidos mais pequenos, vozes de correntes minoritárias, mas nem por isso menos merecedoras do seu espaço de intervenção.

No fundo, esta é uma solução de secretaria, artificial e autoritária, de controlo paulatino da evolução do sistema político-partidário, sonegando aos indivíduos a oportunidade de estabelecerem por eles mesmos, não só com as suas decisões eleitorais, mas também com a sua disponibilidade para a actividade partidária, o futuro de cada força envolvida no processo. A falta de cultura democrática manifesta-se de muitas formas e em muitos meios. Entrevê-la enraizada numa lei tão recente e posta em execução por órgãos de soberania não deixa de ser manifestamente preocupante.

Always look on the bright side of life

Se pensar que terminei o ano passado, já a menos de duas horas da meia-noite, a conter uma inundação na casa-de-banho que alastrava até meio do corredor, este ano as coisas só podem melhorar.

Quarta-feira, 26 de Dezembro de 2007

Conto de Natal

- Então, gostaste da imagem que escolhi para pôr no blogue na véspera de Natal?
- Nem por isso...

Segunda-feira, 24 de Dezembro de 2007

Feliz Natal


Giotto di Bondone, The Celebration of Christmas at Greccio, 1295-1300

Quinta-feira, 20 de Dezembro de 2007

A Península Ibérica em números

Já está disponível o exercício de masoquismo anual publicado pelo INE.

Por comparação

Os membros do governo japonês andam a discutir a existência de ovnis e a capacidade de reacção das forças de defesa em caso de contacto directo. Isto quase faz parecer a política portuguesa um cenário razoável e equilibrado.

Terça-feira, 18 de Dezembro de 2007

Wittgenstein’s Wienna

O Terapia Metatísica anunciou o seu fim. Ando há uns dias para alinhar umas palavras sobre o blogue escrito pela Filigraana sem conseguir resumir as ideias em forma de post. Até hoje. O Terapia Metatísica é um daqueles blogues que dá vontade de escrever blogues.

Diz-me com quem andas

Carla Bruna, uma mulher do Mal?