quarta-feira, 11 de junho de 2008

Mais que perfeito

O problema desta linha de pensamento é que, quando se reúne a elite para tomar decisões e se deixa o povo à porta à espera do resultado, ninguém garante a ninguém, à partida, quem fica do lado de dentro e quem fica do lado de fora. Dito de outra forma, a melhor garantia que tenho de que o que digo é ouvido é assegurando que o que qualquer pessoa diga seja ouvido. Porque, dêem-se as voltas ao texto que se quiser, as estratificações, por mais que sociologicamente justificáveis, serão sempre politicamente inaceitáveis.
Se viermos falar na competência que investimos nos nossos políticos ao elegê-los, a questão ganha contornos bastante diferentes.Mas se o argumento é “a insanidade política que é submeter a decisão popular um texto incompreensível para quase toda a gente, onde a decisão pode ser tomada com base nos elementos mais aleatórios que se podem imaginar”, parece-me que estamos demasiado perto de uma linha que, uma vez atravessada, permite todo o tipo de justificações elitistas anti-democráticas.

2 comentários:

Helena disse...

Concordo que esta desconfiança sobre o eleitorado não é muito democrática. Mas a frase seguinte do post é bastante elucidativa sobre o contexto.
Essa linha anti-democrática já foi passada pelos partidos que aproveitaram o referendo para chatear, ou ganhar espaço político em casa, ou sei lá o quê.
Quando não é claro que na Irlanda se está a discutir por mais ou por menos Europa, mas se fala da defesa intransigente dos valores mais conservadores dos irlandeses, quando um dos lemas é "vote no because you don't know", a realização do referendo é uma caricatura - ou uma ameaça - para a Democracia.
Eu hoje (é segunda-feira de manhã, dá-me um desconto) estava com vontade de multar os políticos que usaram o referendo irlandês para deitarem areia na engrenagem, em vez de explicar simplesmente aos irlandeses o que estava em causa.

Miguel Silva disse...

Este processo está todo muito encalhado. O Tratado começa por ser um projecto interessante que, como tanta coisa na UE, ganha proporções frankensteinianas.
Eu pego na tua frase e dou-lhe uma pequena volta, estas campanhas são uma caricatura e uma ameaça para a democracia. A instituição do referendo não é, em si, condenável pelo que dela se aproveitam para fazer. E eu não acho que o referendo deva servir para tudo, ou que é "a solução" democrática. Temos democracias representativas por alguma razão. Acho é que há falta de vontade de fazer as coisas de outra forma, de implicar mais os europeus na construção da Europa. Da comunidade económica à comunidade política vai um salto qualitativo que merece que se saiba bem onde se pisa e com quem se conta.