sexta-feira, 4 de julho de 2008

Meios e fins

Quando não se percebe que não se pode estar ao lado das mesmas pessoas que usam o rapto e o sequestro como armas políticas, quando não se percebe a legitimidade intrínseca de resgatar alguém de um cativeiro de um dia, quanto mais de sete anos, quando se reduz pessoas a classes e categorias para que a coerência ideológica justifique o injustificável e relativize o sofrimento concreto e indelével de reféns e respectivas famílias, quando não se percebe nada disto não se tem uma solução politicamente, socialmente e culturalmente razoável para entender e actuar num mundo moderno, democrático e humanista. E o resto é completamente secundário, porque quem não percebe isto é demasiado perigoso para ser encarado com normalidade num debate sobre o que quer que seja.

2 comentários:

Rui Pedro Silva disse...

Voto apresentado pelo PCP na AR


«Ingrid Betancourt em liberdade

Após seis anos de cativeiro na selva, é motivo de justa satisfação o regresso à liberdade de Ingrid Betancourt, ex-candidata presidencial colombiana.

O resgate de Ingrid Betancourt coloca em evidência a gravidade da situação em que se encontram centenas de prisioneiros na posse da guerrilha e nas prisões do regime de Álvaro Uribe e a necessidade de encontrar uma solução humanitária.

Assinale-se que, sistematicamente, o Governo da Colômbia tem vindo a sabotar negociações, mediadas por responsáveis de diversos países, no sentido da troca de prisioneiros entre as partes do conflito.

Os complexos problemas em presença na Colômbia, exigem uma solução política e negociada de um conflito que se arrasta há mais de 40 anos, indissociável de um regime que promove o agravamento da exploração, da repressão e das perseguições, incluindo milhares de assassinatos e brutais torturas, fortemente condicionado pela ingerência política e militar da administração norte-americana.

A necessidade de uma solução negociada para o conflito na Colômbia, torna-se ainda mais urgente num quadro em que os EUA o procuram radicalizar e instrumentalizar, como justificação para o reforço da presença de forças militares e como forma de desestabilização da região e dos países que a integram, com risco de escalada militar e ameaça à paz.

Nestes termos, a Assembleia da República:

1- Congratula-se pelo regresso à liberdade de Ingrid Betancourt.

2- Exprime o seu desejo de que a liberdade de Ingrid Betancourt possa contribuir para um caminho de paz para a Colômbia.

3- Apela às partes envolvidas para que encetem negociações no sentido da libertação de todos os prisioneiros.

4- Valoriza todos os esforços orientados para alcançar uma solução política negociada.

5- Apela às partes para que se empenhem na busca de uma solução política negociada do conflito, que dura há mais de quatro décadas.

6- Manifesta-se pelo respeito da soberania do povo colombiano na definição dos destinos do seu país.

Assembleia da República, 4 de Julho de 2008

Miguel Silva disse...

Duas questões aqui:
1 - este texto contém partes substanciamente diferentes do comunicado lacónico, publicado anteriormente, no site do PCP e do que se publicou, por exemplo, no resistir.info.
2 - resta saber se os problemas da Colômbia se devem resolver ao tiro e com sequestros.

Não se trata aqui de defender ninguém em particular a não ser o interesse dos sequestrados e das suas famílias. Os métodos das FARC, na minha opinião, não são legítimos e é isso que era preciso dizer claramente. Acho que não deve custar reconhecer sem ambiguidades que não se raptam pessoas como forma de fazer política. Que esse não é o caminho seja lá para onde for que se queira ir. Chamar membro da classe dominante da Colômbia a uma pessoa já é suficientemente redutor. Nestas circunstâncias é perfeitamente obsceno. É desrespeitar a pessoa, a sua dignidade humana, a sua família, a gravidade da situação e o bom senso de todos os leitores.
Quando não se mostra esse respeito há razões mais que suficientes para se manter uma reserva política e moral sobre o autor de tais (des)considerações.
Há muitas pessoas que, revendo-se no ideal, não se revêem nos métodos. O meu texto não é para esses.