sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O Estado da arte

O Estado acaba de adquirir em leilão a Deposição de Cristo no Túmulo, de Giambattista Tiepolo. Embora houvesse, qualquer que fosse o comprador, a obrigação de manter a pintura do século XVIII em território nacional, é um sinal interessante e positivo o que o Estado acaba de dar. Talvez tenha sido uma decisão muito condicionada pelo mediatismo que envolve a obra. Na prática, garante-se que esta não será mais uma obra importante da pintura europeia destinada a eclipsar-se definitivamente numa colecção particular. Por vezes, mesmo razões menos nobres podem conduzir a bons resultados.
Nada contra o coleccionismo privado. De resto, faz parte da história da arte moderna desde os primeiros dias. Mas, num país em que não abundam espaços culturais de renome, uma oportunidade destas não se pode enjeitar de ânimo leve. Os bons museus precisam de boas obras. E as boas obras custam bom dinheiro.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Voar baixinho

Se não me falha a memória, julgo que apenas por uma vez comentei a novela da Ota vs. Alcochete vs. Portela + 1. Nos blogues andamos todos a falar, muitas vezes, de assuntos que não dominamos, e é inevitável que assim tenha de ser, sob pena de a escrita e a interacção entre bloguistas ficar reduzida a serviços mínimos. Mas existem limites e, para mim, os campos da aeronáutica e das mega-obras de engenharia são dois deles.
Evidentemente, o assunto não é desprovido de interesse. Mas não abundam capacidades de entender e ajuizar todas as variáveis em questão, como também falta paciência para o enredo novelesco que cobre o desenrolar dos acontecimentos. A certa altura, o cidadão comum dá-se por contente que se encontre uma solução qualquer e que esta não passe por lhe construírem o aeroporto num dos canteiros do jardim do bairro.
Na impossibilidade de comentar as opções, resta a faculdade de comentar o processo. Não ficaria surpreendido se uma boa parte das pessoas que acompanham vagamente os avanços e retrocessos deste projecto manifestasse uma opinião negativa em relação ao processo de decisão em curso. Mais, não me surpreenderia que essas mesmas pessoas considerassem que por cada novo estudo que surge, mais do que uma avaliação técnica, surja um interesse oculto qualquer em arrastar a obra para determinado local.
Este tipo de opinião negativa em relação aos processos de avaliação e decisão é do pior que pode acontecer a um sistema político que se quer democrático. Verdade seja dita, muita responsabilidade se pode imputar aos principais actores – ao seu aparente ressentimento mútuo, à sua aparente falta de disponibilidade para ouvir, à sua aparente opacidade no momento de partilhar toda a informação de que dispõem – tal como muita responsabilidade se pode imputar à opinião pública – a sua falta de preparação, a sua falta de interesse, a sua falta de participação.
Mas o grau de desconfiança que atinge a opinião pública torna-se sobretudo preocupante porque se pode tornar sistémico e extravasar o caso concreto em apreciação para se generalizar a todos os processos de decisão política neste país. Não só não estamos longe desse dia, como talvez já estejamos a viver as suas primeiras horas. Se assim não fosse, a mudança de regime pela qual ciclicamente se clama em certos meios, assim como a simpatia e compreensão que as “lideranças musculadas” parecem recolher na nossa sociedade, não teriam lugar tão facilmente.
A nossa democracia é imperfeita, não existindo nenhum problema especial nisso. Todas as democracias são imperfeitas e é razoável duvidar que uma democracia perfeita continue ainda a ser uma democracia. A perfeição não é um dos atributos do ser humano. O que a humanidade tem buscado, nem sempre pelos melhores caminhos nem pelas melhores razões, é a melhoria da sua condição, a qual quase nunca ocorreu como resultado da força, mas antes da inteligência, da compreensão e do respeito mútuo. Um sistema político que se quer ver respeitado tem que se dar ao respeito. Obliterar esta regra não augura nada de bom para o futuro próximo.

Estudos meus

O Bios Politikos tem o prazer de informar que se encontra totalmente disponível para elaborar o seu próprio estudo sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa. Aceitam-se patrocínios.

Segunda vida

Há alguns meses, e com o atraso que me é próprio no que toca a estas coisas, alguém me chamou a atenção para esse fenómeno peculiar que é o Second Life. Ora, o primeiro post deste blogue alude a uma segunda vida e, nas mentes mais impressionáveis, pode surgir uma associação que quero desde já repudiar.

A segunda vida a que se alude neste blogue remete para aquilo que os antigos gregos consideravam ser uma condição especificamente humana: a organização política. As duas actividades que integravam o político eram a acção e o discurso, formando assim o bios politikos. Se o poder da acção nos blogues é muito limitado, embora não inexistente, o discurso parece ser, então, a actividade por excelência que este meio possibilita.

E embora os gregos considerassem a persuasão como a implicação lógica do discurso, afastando as formas de violência como meros modos pré-políticos de relacionamento, não se trata aqui, pelo menos neste blogue, de persuadir quem quer que seja. Apenas discorrer como forma de participação política, como actividade e condição exclusivamente humanas.

Lowered expectations

Agora que se iniciou um blogue com um título numa língua que o autor não fala, inspirado num livro que o autor não acabou de ler, é praticamente garantido que não se voltará a atingir tamanho grau de pesporrência nesta casa. O limite foi claramente traçado. Todos sabem com o que podem contar.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

O retrato

Para os mais interessados nessas coisas, o autor deste blogue encontra-se retratado no quadro reproduzido acima, sendo possível observá-lo em primeiro plano, de cabeça apoiada na mão esquerda, enquanto medita sobre o próximo post, os jogos do Benfica e o futuro da civilização.