sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Falhanço

Paul Krugman interroga-se como é que economistas reputados como ele próprio e Joseph Stiglitz foram olimpicamente ignorados ao defenderem que o principal problema era de crescimento e emprego e não de dívida pública. Há um trabalho interessantíssimo a realizar para compreender como é que, após a queda da AIG e do Lehman Brothers, as agendas políticas e mediáticas divergiram da crise económica para se concentrarem obstinadamente numa crise de dívida soberana. Uma coisa é certa, a comunicação social falhou miseravelmente a promoção do pluralismo e do debate informado.

O caminho alternativo

Do amor


Via French Kissin'

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Vazio histórico

Estou desde as cinco da tarde a ler as notícias que vão sendo publicadas online e ainda não percebi onde é que está o corte histórico de despesa que o governo prometia. Não devo estar a procurar nos sítios certos. Só pode.

Perguntas óbvias

A propósito das medidas de sobrelotação das creches (que a imprensa suave insiste em apelidar de aumento de vagas), duas perguntas óbvias:

a) Em que estudos, de que técnicos, feitos quando e onde se baseia este aumento do número de lugares por sala? O limite anterior revelou-se errado e está ultrapassado? Porquê? 

b) O co-financiamento do Estado às IPSS vai ser revisto para contemplar o facto de haver mais alunos por sala, logo por educador, auxiliar, etc. ou a capitação mantém-se aumentando assim em termos reais a receita das ditas instituições?

O grande embuste

A RTP é uma empresa cujo quadro financeiro pode ser resumido da seguinte forma: é subsidiada pelo Estado, tem dívidas de centenas de milhões de euros e dá prejuízo anualmente. Apesar dos subsídios, o resultado do exercício anual é negativo e para isso muito contribuem as avultadas dívidas. Ninguém, no seu perfeito juízo, considera que uma empresa nestas condições seja um bom investimento. Contudo, as movimentações para ganhar vantagem numa futura privatização são óbvias. 

As receitas dos operadores dos canais de televisão são escassas para garantir a sustentabilidade do negócio. Como é evidente, a privatização da RTP vai criar um terceiro operador a competir em força por receitas publicitárias, o que se traduz numa quebra de preços. A isto acresce que as despesas com publicidade têm a característica de não só acompanharem o ciclo económico como ultrapassarem em amplitude a variação do desempenho da economia. Ou seja, quando o PIB cai, as despesas com publicidade caem proporcionalmente ainda mais. 

Perante esta realidade, duas linhas de acção parecem ganhar forma. A primeira é o saneamento das dívidas da RTP, que tanto pesam no seu resultado negativo. O pagamento antecipado de centenas de milhões de euros da dívida, anunciado esta semana pelo governo, cumpre o desígnio de entregar ao sector privado uma empresa com outra folga financeira. A segunda é subsidiar um serviço público de televisão prestado por operadores privados, que tem como função adicional garantir a sustentabilidade do negócio desses operadores. As movimentações dos grupos económicos interessados na privatização da RTP compreendem-se melhor à luz destas preciosas ajudas. 

A privatização da RTP, a realizar-se, tem tudo para acabar sendo mais um dos negócios ruinosos em que o contribuinte deixa de subsidiar uma empresa pública para passar a subsidiar três empresas privadas. É o liberalismo versão PSD-PP no seu melhor.

terça-feira, 30 de agosto de 2011

Diz que são uma espécie de liberais

A notícia de que o governo PSD-PP quer criar uma base de dados com informações sobre a saúde dos portugueses tem tanto de rocambolesca como de assustadora. Tal como salienta a CNPD, a solicitação do parecer está tão mal formulada (quer seja por amadorismo ou por receio de abrir o jogo) que é preciso algum esforço interpretativo para se perceber onde quer o governo chegar. Para já, o que fica claro é que esta é uma das maiores ameaças à privacidade dos cidadãos que se possam imaginar. A saúde de cada um de nós é um dos recantos mais íntimos da vida pessoal. Saber que ela poderá ser transformada em base de dados, com todos os problemas de segurança e confidencialidade que isso levanta, é um pensamento arrepiante. Curiosamente, os liberais de pacotilha do governo de Passos Coelho não parecem muito incomodados com estas minudências.

Repúdio

Um mínimo de sentido de dignidade não pode conduzir a outro resultado que não ao repúdio público das excrescências deste indivíduo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O arquitecto no seu labirinto

Anda por aí uma petição para boicotar o semanário Sol. Tal como a Helena, não consigo boicotar um produto que não compro nem nunca comprei, embora compreenda bem a indignação dos signatários. Sobre o texto de José António Saraiva, a Helena já escreveu o essencial. Do seu texto, destaco o último parágrafo, por me parece que representa perfeitamente aquilo que sinto:

"(...) não é necessário pôr em causa as nossas referências nem baralhar os nossos pobres espíritos.
Nem – já agora – complicar a vida aos pobres jornalistas, pondo-os a pensar se estará certo dizer ‘o ex-marido de Jorge Nuno de Sá’.
"

"baralhar os nossos pobres espíritos" e "complicar a vida aos pobres jornalistas, pondo-os a pensar"
Homem, porque não avisou logo no princípio? Poupava-me o trabalho de o levar a sério!


Há uns anos, JAS escreveu um texto em que, a propósito de uma deslocação a Caxias, descrevia a freguesia como algo próximo de um inferno labiríntico esquecido por Deus. A verdade é que Caxias é uma localidade situada numa colina de onde se avistam o mar e o monte do Jamor, com uma dúzia de ruas, onde não é difícil perceber quais são as vias principais. De quem vive do jornalismo, parece-me, espera-se outro tipo de relação com a verdade. Deturpar deliberadamente factos para apimentar uma historieta devia ser motivo de repulsa para qualquer pessoa que preze a profissão e o seu próprio bom nome. Ao longo dos anos, tenho vindo a convencer-me que JAS não se encontra neste grupo de pessoas. Gastar dinheiro no que quer que seja que tenha a sua assinatura está completamente fora de questão.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Gostar de blogues

Uma contextualização simples e certeira.

A globalização é para todos

Fall in German business confidence stokes recession fears

A quebra de confiança na economia alemã é uma má notícia para toda a Europa, muito especialmente para a zona euro. O artigo do Guardian chama a atenção para o importante papel que o consumo alemão desempenha na recuperação das economias periféricas. Mas o reverso da medalha é que sendo a Alemanha um país fortemente exportador, depende do resto da Europa e do mundo para continuar a ser um caso de sucesso. Como já tem sido apontado muitas vezes, a crise das economias periféricas é, a prazo, a crise da economia alemã.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Políticos com humor

Encontraram 6,5 milhões de euros em facturas não contabilizadas. Bravo. Já só faltam 1.993,5 milhões para justificar o desvio colossal.

Entretando, todas as semanas surgem desculpas novas para o aumento do IVA no gás e na electricidade. Para o governo, parece que “'um dos problemas dos investidores em Portugal' se deve a 'um sistema que é volátil e diferente dos outros'". Portanto, os investidores não gostavam de ter uma taxa de IVA baixa. A RTP não esclarece se Carlos Moedas conseguiu dizer tudo sem se rir.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Six more years

O governo inglês, que tem vindo a aplicar a receita da direita europeia para a crise, cortando em tudo o que é apoio social, prepara-se para gastar um bilião de libras em 14 helicópteros de guerra. É sempre gratificante saber que os sacrifícios pedidos às classes médias são aplicados em tão nobres causas. A BBC adianta que o modelo Chinook é "vital" para as operações no Afeganistão, com as entregas a estenderem-se de 2013 a 2017. Para bons entendedores...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Défice

Merkel e Sarkozy propõem suspensão dos fundos estruturais aos países com défices elevados
A União Europeia tem sensivelmente 500 milhões de habitantes. Perto de 355 milhões não têm qualquer oportunidade eleitoral para expressarem o que pensam sobre as políticas de Sarkozy e Merkel. Por alguma estranha razão, há quem queira fingir que não existe um profundo défice democrático na UE.

Caminhos perigosos

Historians say Michael Gove risks turning history lessons into propaganda classes

Academics warn against education secretary's plan to celebrate Britain's 'distinguished' role in world affairs


A direita europeia continua a trilhar caminhos que não podem acabar bem. O isolacionismo, a deterioração das relações de trabalho, as desigualdades económicas e o chauvinismo ressentido, afundarão o projecto europeu muito antes da crise da dívida pública.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Neo-colonialismo

A receita da austeridade como resposta à crise económica não tem funcionado em nenhum país. Por isso, a forma como a inebriada direita europeia continua a insistir na mesma tecla começa a assumir contornos de desordem obsessiva-compulsiva. No seu delírio, o melhor que Berlim tem para oferecer a uma Europa a precisar desesperadamente de integração fiscal e orçamental e de reforço da sua base democrática é a criação de órgãos executivos cuja actuação está completamente fora do controlo dos eleitores europeus, subordinada a uma lógica de punição moralista. Parece cada vez mais evidente que o futuro da União Europeia passa pelas mãos dos eleitores alemães, que devem decidir se continuam a sancionar a visão neo-colonialista do governo de Angela Merkel.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Engenharia social

Durante anos, os blogues de direita irradiaram a sua aversão àquilo que pejorativamente apelidaram de engenharia social. Usaram o termo especialmente para lutar contra a lei do aborto e contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Mas foi preciso um governo de ultra-liberais para o país assistir a uma investida sem precedentes neste domínio. Apadrinhada pela Presidência da República, a coligação PSD-PP promete desmantelar o Estado Providência, retirar protecção legal a quem trabalha, criar um sistema de castas na saúde e na educação, colocar os pobres a depender da caridade e os desempregados a trabalhar de graça. Isto, sim, é todo um mundo novo, muito pouco admirável.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Intoxicação

O processo que culminou nas negociações em regime de exclusividade entre o governo PSD-PP e o BIC, para venda do BPN, tem tão pouco de transparente que custa a crer que se brinque assim com o dinheiro dos contribuintes. Contribuintes esses que, de resto, andam a pagar factura atrás de factura do desvario do sector financeiro, agora convertido, por milagre neo-liberal, em problemas de dívida pública.

Um dos exemplos desta conversão forçada pode ser lido nas recentes declarações de Miguel Cadilhe sobre o negócio BPN, nas quais o ex-ministro cavaquista afirma que o “Estado não encontrou solução nenhuma”. Mas, de facto, não foi o Estado a não encontrar soluções, foi o governo PSD-PP a ensaiar um negócio ruinoso para o Estado português. A transformação de uma gestão fraudulenta do banco e de uma decisão política pouco transparente do actual governo em mais um “problema” do Estado é todo um tratado de intoxicação ideológica.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Solidariedade aos milhões

Da próxima vez que Cavaco e o governo PSD-PP voltarem a louvar o sector privado de solidariedade social, em detrimento do Estado Providência, convém ter este artigo à mão:

Abused and Used: Reaping Millions in Nonprofit Care for Disabled

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sem lei

Uma das poucas vozes a denunciar os efeitos nefastos da precariedade laboral no jornalismo:

"O escândalo das escutas que levou à extinção do "News of the World" é a ponta do "iceberg" daquilo a que certos media estão dispostos na guerra pelas audiências e pelos recursos publicitários.

O NoW terá mantido sob escuta clandestina cerca de 4 000 telefones de gente da política, do espectáculo e dos negócios, usando as gravações como fonte de notícias, obviamente não citada ou citada sob os narizes-de-cera também comuns na imprensa portuguesa: "O NoW sabe que", "Segundo fontes próximas de", "Segundo fontes fidedignas"... Serviria ainda, sempre sob a capa das fontes anónimas, de caixa de correio a numerosos políticos para divulgar informações "quentes" sobre os adversários.

Nada que surpreenda quem conheça hoje a imprensa por dentro. Ao contrário do que pode julgar quem só vê o lado de cá das câmaras de TV e dos jornais, não somos todos, jornais e jornalistas, bons rapazes. Como no Reino Unido, também entre nós a concorrência, a cultura dominante do dinheiro e da competição sem regras, juntamente com a precariedade e vulnerabilidade profissionais em que se exerce hoje o jornalismo, constituem (já o tenho dito outras vezes) um caldo de cultura propício à delinquência deontológica. A condescendência corporativa e a inoperância da auto-regulação fazem o resto.

Talvez seja injusto, mas suspeito que, se estalasse entre nós um escândalo como o do NoW, dificilmente faria manchete nos outros jornais.
"

Liberdade para enganar

O trabalho das agências de rating transformou-se num esoterismo de tal ordem que, para defenderem a sua actividade recente, afirmam "que apenas emitem 'opiniões' amparadas pelo direito à 'liberdade de expressão'". Seria de esperar que entidades com a responsabilidade que as agências de rating assumem na economia mundial conseguissem suportar o seu trabalho em conhecimentos periciais. Ninguém imagina um gabinete de engenharia, uma firma de advogados ou uma clínica médica a invocarem a liberdade de expressão em defesa da avaliação de um projecto, de um parecer ou de um diagnóstico. Cada vez se torna mais claro que nas agências de rating parece haver de tudo, menos trabalho sério e honesto.

Espiral descendente

Um artigo de Joseph Stiglitz muito claro sobre o que nos espera se os políticos europeus mantiverem a sua passividade e o seu enviesamento neo-liberal. Excertos:

"As Greece and others face crises, the medicine du jour is simply timeworn austerity packages and privatization, which will merely leave the countries that embrace them poorer and more vulnerable. This medicine failed in East Asia, Latin America, and elsewhere, and it will fail in Europe this time around, too. Indeed, it has already failed in Ireland, Latvia, and Greece."

"[T]he financial markets and right-wing economists have gotten the problem exactly backwards: they believe that austerity produces confidence, and that confidence will produce growth. But austerity undermines growth, worsening the government’s fiscal position, or at least yielding less improvement than austerity’s advocates promise. On both counts, confidence is undermined, and a downward spiral is set in motion."

domingo, 3 de julho de 2011

(New) New Deal

Ex-chefes de Estado e de Governo, incluindo Sampaio, defendem “new deal” europeu

Se os actuais políticos europeus não conseguem ver para além da próxima eleição local, talvez tenham de ser os ex-políticos europeus a apontar o caminho para salvar a Europa.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Para mais tarde recordar

«Não vamos andar de três em três meses a apresentar novas medidas».

Why don't you do right


Dedicado, com muito carinho, a todos os eleitores que votaram PSD porque "cortar nos subsídios de férias ou de Natal era um disparate", ou porque "não se podia pedir mais sacrifícios aos portugueses", ou porque "o défice devia ser reduzido do lado da despesa e não da receita", ou porque...

sábado, 25 de junho de 2011

O trunfo

O i entrevistou Medina Carreira. A entrevista não varia o estilo a que o comentador nos habituou: frases bombásticas, ideias mal sustentadas, convicções apocalípticas. Por isso, não surpreende que raramente junte mais de três frases numa resposta. Para alguém que é frequentemente apresentado como especialista em finanças e fiscalidade, é pouco. Medina Carreira não faz um único diagnóstico nem avança uma única solução que um merceeiro de rua não seja igualmente capaz de vislumbrar.

A cereja no topo do bolo desta entrevista, e que o i vislumbrou claramente chamando-a à capa, é o elogio salazarista. Para Medina Carreira, Salazar era um bom gestor e precisávamos de outro homem assim. O que Medina Carreira não diz é que é fácil controlar o orçamento quando se tem o parlamento e as autarquias na rédea curta do partido único e quando se abdica de milhões de portugueses, abandonados ao analfabetismo, à fome, à mortalidade infantil, à falta de saneamento básico, à falta de transportes públicos e à falta de sistema nacional de saúde. É fácil controlar as contas quando não se ambiciona mais que o miserabilismo.

O que já surpreende nesta entrevista é que, num momento tão difícil para o país, estes obstinados críticos de tudo o que mexe e respira não se apresentem como alternativa política. Pois é na política que tudo se joga – não no conforto das páginas de jornal e dos estúdios de televisão. Mas quando questionado sobre uma candidatura à Presidência da República, a resposta é pronta: “isso ia dar grandes confusões na minha vida e o resultado não seria nenhum”. Ficar de fora à espera que os outros façam, convenhamos, é bastante mais fácil. E quando corre mal, pode sempre meter-se as culpas em alguém. É o trunfo dos cobardes.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Regressos

Percebi hoje que o Terapia Metatísica regressou há 3 meses. Já disse algures que o Terapia Metatísica é um blogue que faz apetecer escrever. Mas hoje não vou estar com muitos rodeios: o Terapia Metatísica é um dos melhores blogues escritos em português. Vão por mim.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Padrões elevados

A história é simples. Num curso ministrado pelo Centro de Estudos Judiciários apareceram testes com respostas muito semelhantes a indiciar "copianço generalizado". A solução encontrada pelos responsáveis do CEJ foi atribuir nota 10 a todos os formandos. O que significa que quem copiou não chumba e quem não copiou recebe uma nota que não leva em linha de conta o seu efectivo mérito. Diz que é uma escola de Justiça.

Leitura muito recomendável

Por que é que os economistas aparentam saber tão pouco sobre a economia?

Explica muita coisa. Explica mesmo muita coisa.

O amigo paquistanês

CIA's Osama bin Laden informants arrested by Pakistan – report

The detention of five informants involved in lead-up to Bin Laden killing is seen as sign of fresh US-Pakistan discord


O empenho do Paquistão na luta contra o terrorismo chega a ser comovente.

Sinais do que aí vem

O ataque ao sector público é uma realidade que apenas aguarda a tomada de posse do novo governo. Os sinais são claros e vêm de onde menos se espera. O presidente da Entidade Reguladora para a Saúde defende que existem unidades hospitalares a mais em Portugal. E em que é que o presidente da ERS se baseia para o afirmar? Na sua convicção: "Apesar de estar convencido que a rede hospitalar é excessiva, Jorge Simões diz que é ainda preciso fazer estudos técnicos caso a caso."

Não deixa de ser surpreendente que pessoas com responsabilidades a este nível no sector produzam afirmações sem sequer terem os dados para as suportar. O melhor que Jorge Simões consegue é dizer-nos que "Não faz sentido ter a 15 minutos de um hospital outro pequeno hospital com um ou dois pediatras ou com um ou dois obstetras e que não dê resposta com qualidade necessária e que crie despesa que não faz sentido". Ninguém discordará disto, mas existem de facto hospitais nessas condições? Ou estamos apenas a preparar as populações para a sangria que aí vem? Porque a impressão que fica é que se Jorge Simões quisesse iniciar aqui um debate esclarecedor ter-nos-ia fornecido casos concretos onde se duplicam valências e custos sem justificação para a dimensão das populações servidas.

A terminar, um sinal também para os profissionais do sector,propondo-se uma "utilização mais eficiente das profissões de saúde, alargando por exemplo as funções dos enfermeiros". Como o acordo com o FMI, UE e BCE não se compagina com o aumento do número de funcionários públicos ou com o aumento dos encargos salariais, os enfermeiros já sabem que podem contar com mais trabalho pelo mesmo dinheiro e com as mesmas (ou ainda menos) pessoas.

São as reformas estruturais. Habituem-se, porque é só o começo.

domingo, 12 de junho de 2011

Jornalismo de referência

O Público continua em grande forma. Esta manhã informava: "Policial da GNR baleado na cabeça em Quarteira". Duas horas depois, alguém terá feito o favor de explicar à redacção do jornal que a GNR é uma força de segurança de natureza militar. Agora só falta explicar à impaciente São José Almeida que Passos Coelho só será primeiro-ministro depois de tomar posse. Por incrível que pareça, a Constituição não prevê dois primeiros-ministros em funções simultaneamente. Mas não deixa de ser uma ideia engraçada que o PSD pode introduzir na famosíssima revisão constitucional pela qual tanto suspira.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Pois

A liberdade de expressão tem dias...

O abismo

De austeridade em austeridade, até à bancarrota final.

Não há coincidências

Desde que o PSD ganhou as eleições que o céu se cobriu de nuvens e as temperaturas baixaram drasticamente. Talvez esteja na altura de pensar se isto não será mais do que apenas uma coincidência. Just sayin'...

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Danos colaterais

Veinticinco mil noticias acusan a los productos españoles del E. Coli


As consequências deste tipo de cobertura mediática, num mundo que consome notícias, como quase tudo o resto, de uma forma globalizada, são incalculáveis. Reduzir esse impacto apenas à sua vertente económica é pecar, e muito, por defeito.

Validações legislativas


Uma manchete perfeitamente idiota.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Pedro Passos Coelho, em acção de campanha do PSD, visita uma feira

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Uma notícia muito interessante no Público Online, de 30 de Maio.

Uma notícia muito interessante no Guardian.co.uk, de 29 de Maio.

Excertos dos dois artigos, para quem se queira divertir a descobrir as diferenças:

Twitter has been forced to hand over the personal details of a British user in a libel battle that could have huge implications for free speech on the web.
The social network has passed the name, email address and telephone number of a south Tyneside councillor accused of libelling the local authority via a series of anonymous Twitter accounts. South Tyneside council took the legal fight to the superior court of California, which ordered Twitter, based in San Francisco, to hand over the user's private details.

A rede de microblogging viu-se obrigada a fornecer o nome, o e-mail e o número de telefone de um britânico acusado de ter publicado uma série de tweets - através de uma série de contas anónimas de Twitter - que difamavam as autoridades locais de South Tyneside.
A acção foi levada ao Supremo Tribunal da Califórnia pelas autoridades do município de South Tyneside. Por sua vez, o Supremo ordenou ao Twitter, com base em São Francisco, que divulgasse os dados privados do autor dos comentários difamatórios.

It is believed to be the first time Twitter has bowed to legal pressure to identify anonymous users and comes amid a huge row over privacy and free speech online.

Esta é a primeira vez que o Twitter se vergou à pressão legal para identificar utilizadores anónimos. Muitos analistas consideram que este é um perigoso antecedente para a liberdade de expressão online.

Ahmed Khan, the south Tyneside councillor accused of being the author of the pseudonymous Twitter accounts, described the council's move as "Orwellian". Khan received an email from Twitter earlier this month informing him that the site had handed over his personal information. He denies being the author of the allegedly defamatory material.

Ahmed Khan, suspeito de ser o autor dos comentários, descreveu esta medida como “orwelliana”. Khan - que também é membro do município - recebeu um e-mail do Twitter no início deste mês informando-o que o site tinha fornecido as suas informações pessoais. O homem nega que seja ele o autor das mensagens anónimas difamatórias sobre o município e sobre outros conselheiros locais.

"It is like something out of 1984," Khan told the Guardian. "If a council can take this kind of action against one of its own councillors simply because they don't like what I say, what hope is there for freedom of speech or privacy?"

“Se um município pode tomar este tipo de acção contra um dos seus conselheiros simplesmente porque não gosta dele, que tipo de esperança é que resta para a liberdade de expressão e para a privacidade?”, disse, citado pelo “The Guardian”.

Khan said the information Twitter handed over was "just a great long list of numbers". The subpoena ordered Twitter to hand over 30 pieces of information relating to several Twitter accounts, including @fatcouncillor and @ahmedkhan01.

Khan indicou ainda que a informação que o Twitter forneceu era apenas “uma longa lista de números”. A intimação ordenava ao Twitter a entrega de mais de 30 elementos informáticos relacionados com várias contas, incluindo estas duas: @fatcouncillor e @ahmedkhan01.

"I don't fully understand it but it all relates to my Twitter account and it not only breaches my human rights, but it potentially breaches the human rights of anyone who has ever sent me a message on Twitter.

“Eu não compreendo inteiramente o que se passa mas isto relaciona-se com a minha conta do Twitter e não só viola os meus direitos como ser humano, mas potencialmente viola os direitos de qualquer pessoa que alguma vez tenha enviado uma mensagem através do Twitter”, disse, igualmente citado pelo “The Guardian”.

"A number of whistleblowers have sent me private messages, exposing any wrongdoing in the council, and the authority knows this."

“Uma série de delatores enviaram-me mensagens privadas, expondo más práticas no município, e a autoridade sabe disto”. E acrescentou: “Nem sequer fui informado que o caso foi levado até um tribunal da Califórnia. A primeira vez que soube disto foi quando fui contactado pelo Twitter”

"Even if they unmask this blogger, what does the council hope to achieve? The person or persons concerned is simply likely to declare bankruptcy and the council won't recover any money it has spent."

“Mesmo que desmascarem o culpado, o que é que o município espera conseguir? A pessoa ou pessoas envolvidas declaram bancarrota e o município nunca irá recuperar nenhum do dinheiro que gastou com isto”, estimou.

A spokesman for south Tyneside council said the legal action was brought by the authority's previous chief executive, but has "continued with the full support" of the current head.

Um porta-voz do município de South Tyneside indicou que a acção legal foi iniciada pelos anteriores responsáveis pela autarquia, mas que ela continuou com “total apoio” do poder actual.

He added: "The council has a duty of care to protect its employees and as this blog contains damaging claims about council officers, legal action is being taken to identify those responsible."

“O município tem o dever de proteger os seus funcionários e uma vez que este blogue contém insinuações danosas acerca de membros do município, a acção legal serve para identificar os responsáveis”, indicou ainda o mesmo porta-voz.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

sexta-feira, 20 de maio de 2011

No Les Votes

Não concordo com algumas coisas que aqui são ditas, mas é uma conversa interessante para ajudar a perceber o dinamismo das redes sociais e o que aconteceu em Madrid.

Tempus Fugit

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Uma enciclopédia para o futuro

Um sítio interessante a explorar, para quem se interessa por jornalismo e media:

Encyclo is an encyclopedia of the future of news, produced by the Nieman Journalism Lab.

Desporto rei

Ontem à noite, dois clubes regionais de um país periférico e falido jogaram entre si uma partida de futebol na capital de outro país periférico e falido. O cenário alternativo seria um jogo entre o Villareal e o Benfica. O Villareal é um clube de uma cidade que ninguém sabe bem onde situar num mapa e o Benfica é um clube que perde com o Braga. O Braga, por amor de Deus, é um clube que perde com o Sporting (o Sporting!). Ao Sporting até o Benfica, a jogar com dez, consegue ganhar por dois a zero. Para a desgraça ser completa, só falta o Barcelona, um clube que vem de uma região com um número de habitantes quase igual ao número de adeptos benfiquistas, ganhar novamente a Liga dos Campeões.

sábado, 14 de maio de 2011

Já cá faltava

Agora, para explicar os maus resultados nas sondagens, é a estratégia de comunicação que não tem funcionado. É uma agradável ironia que uma apreciação desta natureza venha do incontinente verbal Eduardo Catroga.

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Crescimento sustentável

Portanto, ficámos a saber que com o PSD no governo vamos ser brindados com uma Segurança Social mais débil e descapitalizada (redução da TSU) e com um cabaz de compras mais caro (alterações no IVA). Cavaco já disse que assina em baixo. Dizem que assim é que nos tornamos competitivos e crescemos. O eleitor deve recordar-se disso quando o subsídio de desemprego ou a reforma não lhe chegarem para as compras da mercearia.

É basicamente isto (agora em poucas palavras)

"Pois eu, continuo a achar-lhe piada. Desculpem lá, mas, para mim, o objectivo do vídeo foi completamente cumprido; divertiu-me. Vou aprender história com aquilo? Não. Vou achar que os finlandeses vão, de repente, mudar de ideias por causa do vídeo? Não. Vou sentir-me mais portuguesa por causa do vídeo? Não. Vou preocupar-me por aquilo ter sido feito por betos, ou por gajos de direita, ou de esquerda, ou do centro? Who gives a shit. Sinto-me representada naquele vídeo? Em algumas coisas sim (as partes do Benfica, evidentemente), noutras nem por isso.

Andamo-nos a levar demasiado a sério. Para mim, aquilo não é uma mensagem política, ou uma tentativa de instrumentalização da massas. É um vídeo de 6 minutos e pouco, que me diverte.
"

Crítica ao bota-abaixismo

Algumas pessoas, provavelmente iludidas pela duração do filme Portugalnomics, não perceberam que estavam a olhar para uma publicidade longa e julgaram estar a olhar para um documentário curto. Enganaram-se. O ritmo, a linguagem e o estilo pertencem à publicidade e é a partir daqui que devemos encarar aqueles já célebres seis minutos e meio.

Do que tenho lido, as críticas passam por dois pontos principais. O primeiro é o dos erros factuais. Evidentemente, os erros históricos merecem reparo. Por um lado, mostram que ninguém se deu ao trabalho de validar a informação ali reproduzida ou que, se isso foi feito, escolheram mal as pessoas para o fazer. Por outro, a colecção de erros transporta o buzz mediático nas redes sociais para um aspecto que passa ao lado do objectivo primeiro que é o de ser um filme motivacional. Há muitas pessoas que encararam este filme como uma mensagem aos finlandeses. Novamente, estão enganados. É um filme promocional upbeat sobretudo para consumo interno.

A segunda crítica apontada ao filme é a sua suposta mensagem nacionalista. Só quem não percebe, ou teima em não perceber, o registo publicitário do filme é que pode tirar uma conclusão destas. No fundo, o que estão a fazer não é muito diferente de, perante um anúncio de uma marca de automóveis, dizer que a mensagem está enviesada. É claro que está. É publicidade e é suposto estar.

O problema que se levanta aqui é o das narrativas. Parece haver demasiadas pessoas habituadas a construir ou consumir narrativas de sinal negativo sobre Portugal. Quando alguém propõe uma narrativa diferente, mesmo que enquadrada num registo claramente promocional, os anti-corpos manifestam-se. Numa página do Facebook, alguém pergunta o que quer dizer que fomos nós que inventámos o pastel de nata, porque, obviamente, cada país inventa a sua própria pastelaria. Ora, se não me escapa nada, dizer que fomos nós que inventámos o pastel de nata quer apenas dizer que fomos nós que inventámos o pastel de nata. Outros povos terão inventado outras iguarias. Nós temos esta, melhor do que algumas, pior do que outras, mas, de uma forma geral, bastante apreciada por nativos e turistas. Frisar um leque de atributos eventualmente positivos – supostos feitos históricos, pretensos vedetismos internacionais, putativos traços culturais idiossincráticos – num registo desta natureza não pode ser equiparado a um exercício de chauvinismo. É apenas um dos lados do que pode ser dito. O facto de haver o reverso da medalha e de o mesmo não ter sido referido apenas seria relevante se estivéssemos a falar de um conteúdo com outras pretensões e com outro enquadramento, em que o rigor, a objectividade e o distanciamento constituíssem factores fundamentais da legitimação do discurso produzido. Não é esse o caso.

Em termos pessoais, não me podiam ser mais indiferentes os conceitos de nacionalismo ou patriotismo. Têm uma dimensão histórica e política que não pode ser ignorada, mas em momento algum senti que os termos nacionalista ou patriota fossem úteis para explicar a minha forma de estar. Nasci e cresci em Lisboa, frequentei o sistema de ensino português, recorro ao sistema de saúde português, sou contribuinte e beneficiário do Estado Providência da República Portuguesa. Tudo isto faz de mim português. Independentemente dos locais para onde o futuro me leve, este passado e presente estarão indelevelmente marcados na minha experiência e na minha forma de estar. Não tenho especial orgulho ou vergonha das acções e processos pelos quais não sou responsável directo. Parece-me estranho que a minha auto-representação passe por identificações com um determinado território geográfico ou com uma determinada entidade político-administrativa. Estou consciente de que sou sensível às suas influências, mas não considero que façam de mim uma tipificação. Interessa-me o bem-estar das entidades políticas que me representam, porque acredito que não se constrói uma sociedade justa e próspera sem esse bem-estar. É-me irrelevante o nível da entidade política (local, nacional, supra-nacional), tal como me é irrelevante a divisão territorial e o nome que decidimos dar a tudo isto. Interessa-me o bem-estar e a prosperidade de Lisboa, de Portugal e da União Europeia, independentemente de me sentir mais ou menos lisboeta, português ou europeu, apenas porque são os locais político-administrativos que me representam. Se um dia o meu percurso me levar a residir e trabalhar noutras realidades geográficas e políticas, embora mantendo os laços afectivos aos locais de origem e à qualidade de vida dos que cá estão, o meu compromisso mais imediato e mais empenhado será, na medida em que tal seja possível, com as novas entidades político-administrativas de referência. Não é preciso ser nacionalista ou patriota para estar interessado e empenhado no sucesso de uma determinada sociedade.

Entre as pérolas que enchem os blogues e o Facebook, pode ler-se de tudo. Há quem tenha vergonha de um filme destes, há quem tenha vergonha de viver num país que faz um filme destes e há quem pareça achar que somos todos parvos, tontos, bacocos, paroquiais, provincianos e perigosos nacionalistas. Não haja dúvida que é conceder uma dimensão a um produto que seguramente ultrapassa os mais alucinados sonhos dos seus criadores. Por norma, devem alimentar-se reservas perante consensos hegemónicos. Mas também merecem toda a desconfiança as teorias que postulam a iliteracia geral, de onde apenas se salva – surpresa! - o autor das iluminadas linhas que nos explicariam, se estivesse ao nosso alcance a capacidade de compreender o seu brilhantismo, como somos simplórios. Ironicamente, quem decreta a ignorância alheia não percebe que incorre na mesmíssima paroquialidade que tanto critica. É por aqui que alcançam a sua realização intelectual e mediática? É para o lado em que durmo melhor.

Existe ainda uma terceira crítica apontada ao filme das Conferências do Estoril e que é a de se estar a fazer chantagem emocional sobre os finlandeses: ajudem-nos, porque nós também vos ajudámos em 1940. Novamente, recordemos que o filme é manifestamente para consumo interno e que não serve para pedir nada a ninguém. Podemos assumir que o final do spot promocional instrumentaliza o valor da solidariedade e que tenta impor-se a uma hipotética consciência colectiva finlandesa. Ou podemos assumir que tenta apenas promover a ideia de que os portugueses foram e serão solidários quando necessário. Não sei quantas pessoas contribuíram nem com o que contribuíram em 1940 para o auxílio à Finlândia. Naturalmente, não se pode encarar aquela operação sem a contextualizar no regime político salazarista e nas suas relações com os fascismos europeus. Mas estou disposto a dar como garantido que a maior parte das pessoas terá contribuído sobretudo por generosidade e solidariedade. Da mesma forma que contribuímos em 2010 para as vítimas do temporal na Madeira, independentemente de uma parte dos nossos impostos ser transferida anualmente para o arquipélago ou do que possamos sentir em relação ao governo regional. Acredito que, até existirem razões em sentido contrário, devemos conceder o benefício da dúvida ao julgar as intenções de terceiros e que devemos ter sempre presente que todos somos o outro de alguém.

Para todos os que se revêem no discurso sobranceiro do bota-abaixismo – o Estado não funciona, os políticos são todos corruptos, o povo é estúpido, será sempre assim e não há salvação possível –, gostaria de terminar dando-lhes razão num aspecto: o país não os merece.

domingo, 8 de maio de 2011

Equívocos

Andam aí umas reacções algo adversas ao filme produzido para o encerramento das Conferências do Estoril. Aparentemente, há quem não perceba a diferença entre um spot promocional e um compêndio de história portuguesa.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

Novas tendências nos media

Pela primeira vez em 20 anos, o número de lares nos EUA com aparelho de televisão diminuiu. Os dados da Nielsen Company apontam dois grupos relevantes para este facto: os mais pobres e os mais jovens. Embora a taxa de lares com televisão se mantenha próxima dos 100%, o interessante é saber se estamos a assistir a apenas uma flutuação natural ou ao início de uma nova tendência.

A redução de aparelhos de TV em casa dos mais pobres tem uma explicação óbvia que passa pela crise económica. A preocupação, neste caso, é que, tratando-se dos mais desfavorecidos, estamos a falar de pessoas sem a possibilidade de substituir a TV por outros meios de informação. A crise económica cria assim uma nova classe de desinformados. Embora ainda muito marginal, um acontecimento desta natureza deveria ser alvo de reflexão em qualquer sociedade democrática.

Por outro lado, no caso dos mais jovens a situação é bastante diferente. Aqui trata-se essencialmente de uma opção voluntária por parte de quem estará mais habituado a sentar-se em frente ao computador do que em frente à televisão. De tal forma que a Nielsen pondera alterar as suas metodologias de trabalho para reflectir estas novas realidades. A pergunta que fica é: se a tecnologia permite dispor de internet na televisão e de televisão na internet, como é que se distingue a televisão da internet?

Elogio merecido

Por aqui também se elogia o PSD quando este mostra mérito no que faz. Sejamos francos, "está na hora de mudar o Passos Coelho" é um verso que fica no ouvido.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

Contas simples

Se o governo e o PS não estiverem a dormir - e não devem estar - não será muito difícil fazer passar a ideia, junto da opinião pública, de que o pedido de ajuda externa apenas se tornou necessário depois do chumbo do PEC ter atirado os juros da dívida portuguesa para níveis incomportáveis. Independentemente de como uma pessoa encare o PEC IV ou as medidas preconizadas pelo acordo com FMI, quanto mais as segundas se aproximarem do primeiro maior será a dimensão da inépcia política do PSD percebida pelo eleitorado. É muito pouco provável que as próximas sondagens não apontem uma nova descida nas intenções de voto para os lados da Lapa.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Uma perguntinha

O governo, o FMI, o BCE e a CE chegaram a acordo sobre as condições para o empréstimo financeiro. O PSD já pode fazer o favor de dizer quando é que pensa poder apresentar um programa eleitoral?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Memória

Berlim está cheia de evocações do Holocausto. Uma delas é um Memorial que ocupa um quarteirão inteiro, no centro da cidade.



Mas são uns quadrados com menos de um palmo de lado que doem mais fundo.



A Helena Araújo, num texto tão belo quanto triste, capta com a sua sensibilidade única o retrato de uma sociedade que se recusa a perder a memória.

Uma rede de um

Os algoritmos fazem da internet uma experiência cada vez mais personalizada. À partida, parece uma excelente ideia. Mas...



Via Ponto Media

domingo, 1 de maio de 2011

Os consórcios alemães, os lenhadores especializados em sobreiros e a Xerox apoiam

Paulo Portas diz que é candidato a primeiro-ministro.

Menos Sociedade

Há tanta gente disposta a dar ideias para o programa eleitoral do PSD, partindo do princípio de que vai ser apresentado algum, que se torna difícil acompanhar as movimentações. Uns indivíduos que se reúnem debaixo da chancela "Mais Sociedade" avançaram com a ideia de descontar nas reformas o subsídio recebido pelos trabalhadores em caso de desemprego. Para além do facto óbvio de penalizar duplamente quem trabalha e paga impostos e taxas sociais, deve salientar-se a estranha justificação para esta proposta. Segundo os seus autores, desta forma estar-se-ia a incentivar um rápido regresso ao mercado de trabalho. Não deixa de ser curiosa a forma como esta direita aninhada no PSD pensa a natureza humana. Para eles, o ser humano é naturalmente preguiçoso e trapaceiro. Como o enviesamento ideológico subjacente não se encontra suportado por nenhuma evidência empírica, talvez seja de questionar em que exemplos se apoiam estes senhores. E sabendo o que se sabe hoje sobre o sector financeiro, em geral, sobre o BPN, o BPP e o BCP, em particular, e sobre as práticas de gestão que levaram a economia mundial ao colapso, talvez a resposta seja óbvia.

A Feira do Livro, a cada ano que passa, está pior porque...

a) o mercado editorial português, a cada ano que passa, também piora.
b) a APEL, a cada ano que passa, parece que desaprende.
c) a cada ano que passa, eu vou ficando mais velho.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Palavra mágica

Da próxima vez que um político do PSD ou do CDS venha falar de despesismo do Estado ou insinuar que é preciso baixar os salários dos funcionários públicos e as prestações sociais para equilibrar as contas públicas, o eleitor sensato e informado deve manter no seu pensamento uma palavrinha mágica: submarinos.

Lideranças

A extrema-direita finlandesa acaba de tornar-se o terceiro partido mais votado nas eleições legislativas realizadas este domingo. Os resultados apurados até ao momento colocam os extremistas a pouco mais de 1% do partido mais votado e com apenas menos 5 deputados num total de 200.

A Finlândia está longe de ser um caso isolado. Em Itália, as coligações de Berlusconi há muito que acolhem a extrema-direita. Na Áustria, o partido de Jörg Haider também já integrou um executivo. Em França, as intenções de voto atribuídas pelas sondagens a Marie Le Pen são assustadoras e em Inglaterra, nas últimas eleições, os nacionalistas cativaram atenção mediática como nunca antes tinha sido visto. A UE, incapaz de reagir convenientemente à crise económica e financeira, tem um monstro a crescer no seu seio.

É muito difícil acreditar que serão políticos como Barroso, Merkel e Sarkozy que conseguirão contornar esta ameaça. Nenhum tem a visão, a coragem e o carisma para rechaçar os fantasmas que se erguem. E, contudo, qualquer um deles mantém-se firme na rota para o abismo. A Europa atravessa tempos agitados e perigosos e o seu maior problema não é não ter quem a lidere, mas ter quem ache que a sabe liderar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Algo muito errado

Começa a ser notório que algo de muito errado se passa com os argumentos de Passos Coelho para ter chumbado o PEC IV. O líder do PSD já apresentou várias razões para tal, todas diferentes e muitas contraditórias. Confirmando-se que afinal Passos Coelho e Sócrates reuniram para discutir a apresentação das linhas orientadoras do PEC IV à UE, cai por terra mais um dos motivos anteriormente invocados.

Ao contrário do que o líder do PSD e a sua direcção repetiram incessantemente nestas semanas, Passos Coelho tinha conhecimento do pacote de medidas proposto pelo governo. Existem aqui três problemas. O primeiro, obviamente, é a mentira que o PSD quis fazer passar como trunfo eleitoral. O segundo é a quantidade de vezes que o PSD de Passos Coelho repetiu a mentira num tão curto intervalo de tempo. O terceiro problema é que não se imagina como pretendia o PSD não ser apanhado neste ardil.

Os dois primeiros, apontam para o facto de, tal como Graeme Souness dizia de Vale e Azevedo, a direcção do PSD ser capaz de olhar os portugueses nos olhos e lhes mentir sucessivamente. O terceiro demonstra que nem sequer isso são capazes de fazer com competência. Quase um mês depois de ter tirado o tapete ao país, não surpreende que o PSD não tenha sido capaz de apresentar uma única ideia sobre o que vai fazer se chegar ao governo. Não é estratégia política, é uma limitação cognitiva.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ajuda interna


Em caso algum deve o Benfica aceitar um valor abaixo de 90 mil milhões de euros por este jogador.

FMI, FEEF, whatever...

Os resultados da "ajuda" externa em todo o seu esplendor.

O espelho do neo-liberalismo

Nas primeiras páginas da obra Os Americanos, Daniel J. Boorstin descreve como a religião, o social e o político se intersectaram nas primeiras décadas de colonização da Nova Inglaterra e como o sermão dos ministros do puritanismo protestante se tornou o ponto central da comunidade. Um ministro encarregava-se de uma mesma congregação, em princípio, para toda a sua vida. As comunidades eram homogéneas e unidas. A dissensão era punida com a expulsão. Sem estradas e sem verdadeiras alternativas de vida comunal, a mobilidade geográfica não era algo a que o indivíduo comum aspirasse sem desânimo.

Neste cenário de notória ausência de diversidade, os ministros compreenderam a importância acrescida do sermão e desenvolveram um estilo próprio, intelectualmente trabalhado e distintamente americano. Fizeram-no não porque sentissem uma ameaça ao seu lugar na comunidade ou à influência exercida sobre esta, mas antes por uma questão de ética: o fazer bem feito como um mérito em si mesmo.

O actual discurso neo-liberal dominante substituiu a ética pelo utilitarismo. Cada um cuida dos seus interesses, num ambiente de concorrência implacável, e é suposto que a sociedade saia beneficiada com esta atitude. Não se trata, como o exemplo relatado por Boorstin demonstra, de uma caracterização empírica da natureza humana, mas apenas de uma ideologia que tem pretendido mascarar-se de ciência social. O facto de se trocar a ética pelo interesse e pela utilidade não diz muito sobre a natureza humana, se houver algo que assim possa ser chamado, mas diz muito sobre o que nos tem sido imposto como modelo de sociedade e sobre a mentalidade dos seus agentes. Infelizmente, nos próximos anos os portugueses vão sentir na pele, ainda mais, as consequências do dogma neo-liberal.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Revisão da matéria

A democracia moderna nasceu da aliança, no século XVIII, entre a burguesia e o povo. Detentora de enorme poder económico, mas sem acesso ao poder político, a burguesia pediu apoio na sua luta contra a aristocracia. Como recompensa do apoio recebido nas ruas, garantiu direitos políticos à populaça. Em quatro linhas, é esta a génese da democracia representativa que conhecemos.

No final da II Guerra Mundial, os líderes europeus compreenderam bem as origens da catástrofe. A sua resposta foi a criação de um contrato social que conferisse segurança e distribuição de riqueza pelas sociedades. A Europa que resultou desse contrato estabilizou, uniu-se e cresceu - e talvez tenha sido um lugar feliz. Durou até aos anos 80, quando o liberalismo de Margaret Thatcher rasgou o modelo e ganhou a guerra contra os sindicatos.

No início do século XX, quando uma boa parte dos europeus ainda trabalhava em condições que nada deviam aos relatos de Engels sobre as fábricas inglesas em 1845, muito boa gente acreditava que o mundo não conheceria mais guerras. Os custos políticos, sociais e económicos seriam incomportáveis. Em 1914 vieram as trincheiras, em 1929 a crise financeira e em 1933 um demagogo austríaco foi nomeado chanceler de uma Alemanha ainda humilhada por Versalhes.

O exemplo

Na Islândia houve quem recusasse legitimidade a um sistema financeiro obsceno, imoral e fora de controlo.

Via Der Terrorist

terça-feira, 5 de abril de 2011

Reforma fiscal

Há uns dias, o New York Times lançou uma reportagem na qual acusava a General Electric de, apesar de apresentar lucros na ordem dos biliões de dólares, não pagar um cêntimo de impostos. Uma investigação posterior veio esclarecer que a GE, na realidade, ainda não apresentou contas relativas a 2010, de forma a apurar um montante a pagar. Mas, mais do que isso, veio demonstrar como as excepções e os buracos na fiscalidade americana permitem às empresas poupar milhões em impostos.

O caso dá que pensar, por comparação com a realidade portuguesa. A fiscalidade portuguesa é prolixa, labiríntica e, por vezes, indecifrável. Uma reforma que procurasse introduzir justiça, racionalidade e intelegibilidade no sistema fiscal seria, porventura, um dos mais significativos passos para uma economia e para umas contas públicas mais saudáveis.

Não se trata de pagar mais impostos. Trata-se de pagar o que realmente é devido. Não se pede mais do que isso.

sábado, 2 de abril de 2011

Uma perigosa mascarada



A UMP, de Nicolas Sarkozy, pretende lançar um debate sobre o islamismo em França. A mascarada dá pelo nome de "A Laicidade, o Lugar das Religiões e em Particular do Islão" (Público, 1 de Abril de 2011, pág. 19). O título diz tudo - aglutinam-se as variantes do islamismo num conceito único e particulariza-se o islamismo no seio das outras religiões. Na realidade, a referência a outras religiões e à laicidade apenas consta para que o ultraje não seja maior. A iniciativa, num momento pouco favorável para o partido de Sarkozy, destina-se apenas a capitalizar eleitoralmente o ressentimento e o pânico.

Este exemplo de mesquinhez e preconceito, no meio de uma crise financeira, económica e social sem paralelo, ajuda a compreender bem o que é a Europa neste início de século: um espaço político liderado sem visão, sem estratégia e sem memória.

A imagem que ilustra o post é da exposição O Eterno Judeu, inaugurada a 8 de Novembro de 1937, em Munique, e, mais tarde, a 12 de Novembro de 1938, em Berlim, dois dias depois da Kristalnacht.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Temas que não farão parte da campanha

Não é preciso ser possuidor de uma memória invejável para recordar os tempos em que a crise financeira e económica levava os governos ocidentais a prometerem a introdução de alterações no sistema financeiro mundial. Uma boa parte do desequilíbrio das contas públicas por essa Europa fora deve-se às medidas adoptadas para salvar o sistema financeiro do colapso iminente, numa altura em que o termo "activo tóxico" fazia entrada no léxico do cidadão comum. Formidavelmente, essa oportunidade gorou-se. Pior ainda, na realidade, os intrépidos investidores e empreendedores que no passado recente lançaram o mundo no caos estão hoje mais fortes do que nunca, com o apoio ideológico e político da direita europeia. Nestas condições, discutir a imoralidade dos off-shores, como é o caso da Zona Franca da Madeira, onde em 2981 empresas registadas, 2435 declaram não ter qualquer trabalhador, está fora de questão.

Blame Canada

Céline Dion, Bryan Adams, Justin Bieber... Alguém tem de dizer ao Canadá para deixar de fazer isto ao resto do mundo.

Uma estratégia furada

Como "o PSD não está a governar", não se sente na obrigação de apresentar propostas alternativas de governo do país. É o desprezo pelo parlamentarismo, pela democracia e pela política em si. Esta estratégia, no entanto, tem duas desvantagens consideráveis. Em primeiro lugar, os políticos que desprezam a política apenas mobilizam eleitores que igualmente desprezam a política. No momento actual que o país vive, não parece que sejam estas as pessoas que mais falta fazem à esfera pública. Em segundo lugar, quando não se definem linhas orientadoras e medidas concretas, cada eleitor constrói a sua expectativa baseado nas suas conjecturas pessoais. Alarga-se assim a possibilidade de se defraudar as expectativas de toda a gente. Nenhum destes cenários promete estabilidade política e social. Mas cada um colhe aquilo que semeia.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O tecto

À medida que a data das eleições se for aproximando vai crescer a pressão para o PSD avançar uma estratégia, um plano, uma ideia que seja, para tirar o país da crise. É certo que Cavaco Silva acabou de ganhar as presidenciais com uma campanha que foi sobretudo uma gestão de silêncios. Mas as diferenças são consideráveis. Umas legislativas não se comparam com umas presidenciais e o eleitorado espera que os candidatos à governação do país consigam produzir algo palpável, coerente e compreensível sobre o que se propõem fazer. Para além disto, não se deve menosprezar o facto de Cavaco se ter apresentado como incumbente, enquanto de Passos Coelho, politicamente, a maior parte das pessoas guardar sobretudo a memória de umas golas altas dos tempos da jota social-democrata. Neste contexto, para uma liderança que sempre que é obrigada a juntar duas frases seguidas desce nas intenções de voto, os 40 e tal por cento que as sondagens lhe atribuem são certamente um tecto. Daqui para a frente, pode ser sempre a perder.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Diz que não disse

Enquanto Passos Coelho vai admitindo uma subida do IVA, Miguel Relvas não só diz que o caminho não deve ser por aí, como assegura que o líder não anda a admitir uma subida do IVA. Relvas só não explica se o 13º mês é "despesa inútil do Estado". António Carrapatoso aguarda esclarecimentos. Os funcionários públicos também.

Dúvidas existenciais

Manuela Ferreira Leite marcou o dia do debate parlamentar que levou ao chumbo do PEC IV por ter declarado que não discutia medidas concretas por não querer "entrar em politiquices". Quem anda há décadas na política, tendo passado por cargos executivos, e compara o discurso sobre medidas concretas a politiquices, anda na política a fazer e a falar de quê?

Um aspecto a ter em consideração nas próximas eleições autárquicas

Japão reconstrói rodovia destruída em seis dias

quinta-feira, 24 de março de 2011

Quinze dias passam num instante

"Foi o primeiro líder político a acelerar uma crise política que estava ainda no horizonte: há 15 dias, Paulo Portas disse que avançaria com um projecto de resolução contra o PEC (...)."

Público, edição impressa de 24 de Março


Ao certo, de quanto tempo precisava Cavaco Silva para não ser apanhado de surpresa?

Broad coalition for change

Uma coligação tão grande que inclui o passismo e o cavaquismo.

Gostar de blogues

"Incrivelmente, a apresentação do PEC 4, o debate que se seguiu e o desfecho de ontem ocorreram sem que tivesse sido, que eu saiba, conduzida uma única sondagem sobre o tema para divulgação pública. Pelos vistos, as empresas e os órgãos de comunicação social andaram entretidos, respectivamente, a fazer e encomendar sondagens sobre o Sporting. São opções."

Pedro Magalhães, no Margens de Erro.

Bios Politikos

Resumidamente: é isto.

domingo, 31 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gostar de blogues

Apesar de citar apenas as respectivas punch lines, obviamente, para ler tudo:

"O mais curioso é que hoje li blogues portugueses onde se falava sobre a Alemanha e os alemães no mesmo tom em que o Sarrazin fala contra os turcos e os árabes..."
Helena Araújo, no 2 Dedos de Conversa

"Por estranho que pareça, aqui instalada no epicentro da xenofobia, não tenho nenhuma vontade de voltar para o vosso paraíso dos brandos costumes."
Rita Maria, no Boas Intenções

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Lamento informar

Esta iniciativa pode ser realmente uma boa ideia. Não se tratando de tomar os contributos como decisões, mas sim como ideias para discussão, o princípio é conhecido há bastante tempo como uma técnica com muito potencial para gerar soluções inovadoras. Se as pessoas que convivem diariamente com os problemas puderem participar, oferecendo a sua experiência e visão de proximidade, às muitas ideias irrealistas poderão corresponder algumas bastante interessantes.

Se o PSD é um partido sem ideias e se desespera por algo a que se agarrar para contrapor ao plano do governo, é uma história completamente diferente.

Na era em que vivemos, com as tecnologias que temos ao nosso dispor, não devemos menosprezar os processos que apelam à participação e envolvimento dos cidadãos e que permitem, de uma forma rápida e pouco dispendiosa, reunir uma quantidade muito considerável de contributos.Passar anos a escrever num blogue e não perceber isto é uma incoerência que me ultrapassa.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Escrúpulos

Por estes dias, assiste-se a uma batalha ideológica épica sobre o modelo de sociedade que vamos ter nos próximos anos. O que começou como um golpe para a desregulação dos mercados, rapidamente se transformou num contra-ataque fortíssimo ao Estado Providência. Da condenação da ganância e da ausência de regras e de escrúpulos passámos à condenação da despesa do Estado, mesmo que muita dessa despesa tenha sido feita para salvar o sistema financeiro e tentar travar um colapso económico. No turbilhão dos acontecimentos, a memória não é a capacidade que mais se destaca. E do triângulo formado entre ganância, desregulação e falta de escrúpulos, parece ser a última aquela a que se devia ter dado mais atenção.

Mitologia da beleza

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Eclipse

As políticas de austeridade propostas pelos paladinos do liberalismo não trarão outra coisa que não um efeito recessivo na economia. Este facto é uma evidência tão forte que não era necessário ver a Irlanda entrar em espiral descendente para o perceber. Mas existem dois aspectos importantíssimos e menos falados que são os efeitos sociais e políticos do liberalismo económico e financeiro.

Quando se facilitam os despedimentos, quando os salários baixos não permitem um nível de vida satisfatório e impedem que os assalariados participem da criação de riqueza na economia, transformando a mobilidade social e económica numa miragem, não se pode esperar um compromisso forte das massas com os projectos políticos. Nestas situações, quando não se tem nada a ganhar e pouco se tem a perder, as fontes de ignição aproximam-se perigosamente do barril de pólvora. Os adeptos do liberalismo económico e financeiro não contam com nada disto. Ou contam, mas optam por resolver estes problemas construindo mais prisões e agravando as penas previstas na lei.

Este liberalismo, tomado por aquilo que nos querem vender, subordina as pessoas aos números, o social e o político ao económico, o económico ao financeiro e a realidade à doutrina. Não garante estabilidade, não garante crescimento e não garante redistribuição da riqueza. Encerra em si os fundamentos para eclipsar em poucos meses o que precisou de 100 anos e duas guerras mundiais para poder ser construído.

Isto pode não ser um regresso