segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Interesses

Na interessante troca de comentários (as usual) sobre prostituição no Quase em Português, o MS-S questiona-se sobre a alienação no trabalho. Primeiro, "a desvalorização do trabalho como uma actividade com valor intrínseco e a elevação da remuneração e da questão económica a valor determinante da organização da sociedade" é um facto. Mas a desvalorização do trabalho também tem muito que ver com a valorização do tempo livre, do lazer, que também é uma consequência da modernidade e das suas formas de organização da sociedade, a par do individualismo e do primado da economia.
As pessoas de hoje em dia são cada vez mais diferentes entre si. As realidades difusas da globalização e da sociedade de massas confundem, mas a tendência é para que os interesses de cada um de nós sejam cada vez mais individuais e menos de grupo.
Não só tem aumentado o leque das ofertas, como as possibilidades de lhes aceder. As combinações, assim, são infinitas. Os mil e um fóruns na net sobre tudo e mais alguma coisa são disso um bom exemplo.
Mas, sendo que todos precisamos de uma forma de sustento, e nem toda a gente tem a sorte de poder ser extremamente exigente no mercado de trabalho, é muito compreensível que exista um desfasamento. Obviamente, esta separação ou alienação do trabalhador deriva de determinadas condições, às quais eu mais facilmente chamaria sociais do que históricas. Independentemente disso, o que é preciso ter presente quando se pensa estas questões é que a alteração das condições acarreta igualmente a mudança das cargas simbólicas que atribuímos aos objectos, às actividades, às acções e a tudo o que nos rodeia - e vice-versa.
Investir afectivamente no trabalho e considerá-lo um valor maior da nossa vida, quando comparado com outros, já terá sido algo mais popular. Mas, por exemplo, os antigos gregos achavam que o trabalho era uma forma de servidão inaceitável para um homem de bem. Preferiam muitas vezes a penúria e a fome a terem de se sujeitar a trabalhar para outros, perdendo a sua liberdade, a sua senhoria de si mesmos.
Mesmo a propósito, o MP-S fala numa "relação individual e privada". O termo privado, que agora tem uma conotação positiva, tinha o sentido inverso para os antigos gregos, para quem o que dizia respeito a cada um – a casa, a família e o sustento – era privado precisamente porque privava o indivíduo da participação no que era comum a todos – a coisa pública, os assuntos da cidade, a política.
O divórcio entre o que as pessoas são e aquilo que fazem não é forçosamente negativo. Especialmente, se se relacionar com uma maior vontade de evoluir e diversificar o leque de interesses e com uma maior atenção ao indivíduo e às suas relações próximas. A importância que se dá a uma actividade talvez não seja aquilo em que nos devemos focar. O principal interesse do ser humano deve ser por si mesmo e pelos seus semelhantes. O resto, se vier em segundo plano, não vem mal.

1 comentário:

Miguel disse...

Excelente resposta!

Estou essencialmente de acordo com o que escreveste. A questao complicada torna-se
entao a de saber se a organizacao do trabalho concede o espaco e o tempo necessarios para as pessoas se dedicarem a outros interesses e aos seus proximos. Neste aspecto, os sinais dos tempos sao muito contraditorios...

MP-S