segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Parecendo que não

Obviamente, o casamento de pessoas do mesmo sexo não é um ataque nem prejudica de forma alguma a família. As famílias - todas - continuarão a viver as suas vidas independentemente de quem casa com quem. O “ataque à família” é apenas um slogan vazio e populista ao qual ninguém foi ainda capaz de conferir substância. Quando convidados a explicarem-se, os pretensos defensores da família caem constantemente na cartilha do "tratar de forma diferente o que é diferente", dos "apoios às famílias numerosas" e da "tradição". Sobre o que significa o "ataque à família" não foram nunca capazes de produzir um argumento, ainda que estéril. O que, parecendo que não, ajuda a perceber muita coisa.

1 comentário:

Helena disse...

Pergunta-me que eu respondo, Miguel.
Embora não ache que o CPMS seja um ataque à família, percebo porque é que há pessoas que possam ver a coisa assim.

Assumir o compromisso de casar, ter filhos e permanecer juntos apesar das dificuldades, "nos bons e nos maus momentos", é um modelo que exige disciplina e convicções muito fortes. No centro não está o amor, mas o respeito pelo compromisso que permite aos filhos crescerem num lar estável, onde as regras do jogo são claras e o mais possível imutáveis.
O CPMS não tem no seu centro a criação de um lar estável para criar os filhos, mas o amor. É outra concepção do casamento e da família.

Vais-me dizer agora que o teu entendimento sobre o casamento e a família se baseia sobretudo na relação afectiva. E talvez até acrescentes - e também aí concordarei - que há uma componente de compromisso que também é muito importante.

No fundo, é a questão "de que falamos quando falamos de família e casamento". Todos têm razão, cada um no seu gueto.

Para complicar, há a questão do medo. Muitas pessoas temem que, pelo facto de se considerar a homossexualidade algo natural, os seus próprios filhos comecem a colocar essa hipótese durante a adolescência. Ora, se "eles" começam a "contaminar" as nossas crias, vai passar a haver cada vez menos famílias "normais".

Concordo que é mais fácil aguentar os combates durante a adolescência dos filhos num mundo em que os valores e as fronteiras são extremamente claras. O caminho que se pretende para eles é uma auto-estrada de contornos claros: estudar, arranjar namorado/namorada de jeito, arranjar trabalho, fundar uma família.
Mas se, com a complacência do Estado, nos aparecem estes "diferentes" a abrir brechas naquela auto-estrada dos nossos filhos, mostrando que há outros modelos possíveis, não dá jeito nenhum.

Compreendo este tipo de argumentação. Mas estou como aquele porta-voz das Testemunhas de Jeová, quando lhe perguntaram o que achava de distribuirem preservativos nas escolas: "a Escola e o Estado podem fazer o que quiserem - nós sabemos muito bem a educação que damos aos nossos filhos."
Não podemos obrigar outras pessoas a viver em situação de negação só porque é mais fácil para nós dizer aos filhos que o nosso modelo é o único. O resto da sociedade não está ao serviço dos nossos interesses.
Mas também é verdade que do outro lado às vezes acontecem excessos, como a professora que leu a miúdos de cinco anos a história do princípe que queria casar com um princípe. Uma coisa é encarar naturalmente, outra coisa é começar a missionar os miúdos nestas idades.

Também há a questão do "sacramento" e da "santidade", como aparecia em alguns cartazes da manifestação. Mas isso é claramente uma confusão entre Deus e César, nem vale a pena perder tempo com ela.