terça-feira, 30 de agosto de 2011

Diz que são uma espécie de liberais

A notícia de que o governo PSD-PP quer criar uma base de dados com informações sobre a saúde dos portugueses tem tanto de rocambolesca como de assustadora. Tal como salienta a CNPD, a solicitação do parecer está tão mal formulada (quer seja por amadorismo ou por receio de abrir o jogo) que é preciso algum esforço interpretativo para se perceber onde quer o governo chegar. Para já, o que fica claro é que esta é uma das maiores ameaças à privacidade dos cidadãos que se possam imaginar. A saúde de cada um de nós é um dos recantos mais íntimos da vida pessoal. Saber que ela poderá ser transformada em base de dados, com todos os problemas de segurança e confidencialidade que isso levanta, é um pensamento arrepiante. Curiosamente, os liberais de pacotilha do governo de Passos Coelho não parecem muito incomodados com estas minudências.

Repúdio

Um mínimo de sentido de dignidade não pode conduzir a outro resultado que não ao repúdio público das excrescências deste indivíduo.

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

O arquitecto no seu labirinto

Anda por aí uma petição para boicotar o semanário Sol. Tal como a Helena, não consigo boicotar um produto que não compro nem nunca comprei, embora compreenda bem a indignação dos signatários. Sobre o texto de José António Saraiva, a Helena já escreveu o essencial. Do seu texto, destaco o último parágrafo, por me parece que representa perfeitamente aquilo que sinto:

"(...) não é necessário pôr em causa as nossas referências nem baralhar os nossos pobres espíritos.
Nem – já agora – complicar a vida aos pobres jornalistas, pondo-os a pensar se estará certo dizer ‘o ex-marido de Jorge Nuno de Sá’.
"

"baralhar os nossos pobres espíritos" e "complicar a vida aos pobres jornalistas, pondo-os a pensar"
Homem, porque não avisou logo no princípio? Poupava-me o trabalho de o levar a sério!


Há uns anos, JAS escreveu um texto em que, a propósito de uma deslocação a Caxias, descrevia a freguesia como algo próximo de um inferno labiríntico esquecido por Deus. A verdade é que Caxias é uma localidade situada numa colina de onde se avistam o mar e o monte do Jamor, com uma dúzia de ruas, onde não é difícil perceber quais são as vias principais. De quem vive do jornalismo, parece-me, espera-se outro tipo de relação com a verdade. Deturpar deliberadamente factos para apimentar uma historieta devia ser motivo de repulsa para qualquer pessoa que preze a profissão e o seu próprio bom nome. Ao longo dos anos, tenho vindo a convencer-me que JAS não se encontra neste grupo de pessoas. Gastar dinheiro no que quer que seja que tenha a sua assinatura está completamente fora de questão.

quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Gostar de blogues

Uma contextualização simples e certeira.

A globalização é para todos

Fall in German business confidence stokes recession fears

A quebra de confiança na economia alemã é uma má notícia para toda a Europa, muito especialmente para a zona euro. O artigo do Guardian chama a atenção para o importante papel que o consumo alemão desempenha na recuperação das economias periféricas. Mas o reverso da medalha é que sendo a Alemanha um país fortemente exportador, depende do resto da Europa e do mundo para continuar a ser um caso de sucesso. Como já tem sido apontado muitas vezes, a crise das economias periféricas é, a prazo, a crise da economia alemã.

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Políticos com humor

Encontraram 6,5 milhões de euros em facturas não contabilizadas. Bravo. Já só faltam 1.993,5 milhões para justificar o desvio colossal.

Entretando, todas as semanas surgem desculpas novas para o aumento do IVA no gás e na electricidade. Para o governo, parece que “'um dos problemas dos investidores em Portugal' se deve a 'um sistema que é volátil e diferente dos outros'". Portanto, os investidores não gostavam de ter uma taxa de IVA baixa. A RTP não esclarece se Carlos Moedas conseguiu dizer tudo sem se rir.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Six more years

O governo inglês, que tem vindo a aplicar a receita da direita europeia para a crise, cortando em tudo o que é apoio social, prepara-se para gastar um bilião de libras em 14 helicópteros de guerra. É sempre gratificante saber que os sacrifícios pedidos às classes médias são aplicados em tão nobres causas. A BBC adianta que o modelo Chinook é "vital" para as operações no Afeganistão, com as entregas a estenderem-se de 2013 a 2017. Para bons entendedores...

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Défice

Merkel e Sarkozy propõem suspensão dos fundos estruturais aos países com défices elevados
A União Europeia tem sensivelmente 500 milhões de habitantes. Perto de 355 milhões não têm qualquer oportunidade eleitoral para expressarem o que pensam sobre as políticas de Sarkozy e Merkel. Por alguma estranha razão, há quem queira fingir que não existe um profundo défice democrático na UE.

Caminhos perigosos

Historians say Michael Gove risks turning history lessons into propaganda classes

Academics warn against education secretary's plan to celebrate Britain's 'distinguished' role in world affairs


A direita europeia continua a trilhar caminhos que não podem acabar bem. O isolacionismo, a deterioração das relações de trabalho, as desigualdades económicas e o chauvinismo ressentido, afundarão o projecto europeu muito antes da crise da dívida pública.

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Neo-colonialismo

A receita da austeridade como resposta à crise económica não tem funcionado em nenhum país. Por isso, a forma como a inebriada direita europeia continua a insistir na mesma tecla começa a assumir contornos de desordem obsessiva-compulsiva. No seu delírio, o melhor que Berlim tem para oferecer a uma Europa a precisar desesperadamente de integração fiscal e orçamental e de reforço da sua base democrática é a criação de órgãos executivos cuja actuação está completamente fora do controlo dos eleitores europeus, subordinada a uma lógica de punição moralista. Parece cada vez mais evidente que o futuro da União Europeia passa pelas mãos dos eleitores alemães, que devem decidir se continuam a sancionar a visão neo-colonialista do governo de Angela Merkel.

segunda-feira, 8 de agosto de 2011

Engenharia social

Durante anos, os blogues de direita irradiaram a sua aversão àquilo que pejorativamente apelidaram de engenharia social. Usaram o termo especialmente para lutar contra a lei do aborto e contra o casamento de pessoas do mesmo sexo. Mas foi preciso um governo de ultra-liberais para o país assistir a uma investida sem precedentes neste domínio. Apadrinhada pela Presidência da República, a coligação PSD-PP promete desmantelar o Estado Providência, retirar protecção legal a quem trabalha, criar um sistema de castas na saúde e na educação, colocar os pobres a depender da caridade e os desempregados a trabalhar de graça. Isto, sim, é todo um mundo novo, muito pouco admirável.

quinta-feira, 4 de agosto de 2011

Intoxicação

O processo que culminou nas negociações em regime de exclusividade entre o governo PSD-PP e o BIC, para venda do BPN, tem tão pouco de transparente que custa a crer que se brinque assim com o dinheiro dos contribuintes. Contribuintes esses que, de resto, andam a pagar factura atrás de factura do desvario do sector financeiro, agora convertido, por milagre neo-liberal, em problemas de dívida pública.

Um dos exemplos desta conversão forçada pode ser lido nas recentes declarações de Miguel Cadilhe sobre o negócio BPN, nas quais o ex-ministro cavaquista afirma que o “Estado não encontrou solução nenhuma”. Mas, de facto, não foi o Estado a não encontrar soluções, foi o governo PSD-PP a ensaiar um negócio ruinoso para o Estado português. A transformação de uma gestão fraudulenta do banco e de uma decisão política pouco transparente do actual governo em mais um “problema” do Estado é todo um tratado de intoxicação ideológica.

quarta-feira, 3 de agosto de 2011

Solidariedade aos milhões

Da próxima vez que Cavaco e o governo PSD-PP voltarem a louvar o sector privado de solidariedade social, em detrimento do Estado Providência, convém ter este artigo à mão:

Abused and Used: Reaping Millions in Nonprofit Care for Disabled

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Sem lei

Uma das poucas vozes a denunciar os efeitos nefastos da precariedade laboral no jornalismo:

"O escândalo das escutas que levou à extinção do "News of the World" é a ponta do "iceberg" daquilo a que certos media estão dispostos na guerra pelas audiências e pelos recursos publicitários.

O NoW terá mantido sob escuta clandestina cerca de 4 000 telefones de gente da política, do espectáculo e dos negócios, usando as gravações como fonte de notícias, obviamente não citada ou citada sob os narizes-de-cera também comuns na imprensa portuguesa: "O NoW sabe que", "Segundo fontes próximas de", "Segundo fontes fidedignas"... Serviria ainda, sempre sob a capa das fontes anónimas, de caixa de correio a numerosos políticos para divulgar informações "quentes" sobre os adversários.

Nada que surpreenda quem conheça hoje a imprensa por dentro. Ao contrário do que pode julgar quem só vê o lado de cá das câmaras de TV e dos jornais, não somos todos, jornais e jornalistas, bons rapazes. Como no Reino Unido, também entre nós a concorrência, a cultura dominante do dinheiro e da competição sem regras, juntamente com a precariedade e vulnerabilidade profissionais em que se exerce hoje o jornalismo, constituem (já o tenho dito outras vezes) um caldo de cultura propício à delinquência deontológica. A condescendência corporativa e a inoperância da auto-regulação fazem o resto.

Talvez seja injusto, mas suspeito que, se estalasse entre nós um escândalo como o do NoW, dificilmente faria manchete nos outros jornais.
"

Liberdade para enganar

O trabalho das agências de rating transformou-se num esoterismo de tal ordem que, para defenderem a sua actividade recente, afirmam "que apenas emitem 'opiniões' amparadas pelo direito à 'liberdade de expressão'". Seria de esperar que entidades com a responsabilidade que as agências de rating assumem na economia mundial conseguissem suportar o seu trabalho em conhecimentos periciais. Ninguém imagina um gabinete de engenharia, uma firma de advogados ou uma clínica médica a invocarem a liberdade de expressão em defesa da avaliação de um projecto, de um parecer ou de um diagnóstico. Cada vez se torna mais claro que nas agências de rating parece haver de tudo, menos trabalho sério e honesto.

Espiral descendente

Um artigo de Joseph Stiglitz muito claro sobre o que nos espera se os políticos europeus mantiverem a sua passividade e o seu enviesamento neo-liberal. Excertos:

"As Greece and others face crises, the medicine du jour is simply timeworn austerity packages and privatization, which will merely leave the countries that embrace them poorer and more vulnerable. This medicine failed in East Asia, Latin America, and elsewhere, and it will fail in Europe this time around, too. Indeed, it has already failed in Ireland, Latvia, and Greece."

"[T]he financial markets and right-wing economists have gotten the problem exactly backwards: they believe that austerity produces confidence, and that confidence will produce growth. But austerity undermines growth, worsening the government’s fiscal position, or at least yielding less improvement than austerity’s advocates promise. On both counts, confidence is undermined, and a downward spiral is set in motion."

domingo, 3 de julho de 2011

(New) New Deal

Ex-chefes de Estado e de Governo, incluindo Sampaio, defendem “new deal” europeu

Se os actuais políticos europeus não conseguem ver para além da próxima eleição local, talvez tenham de ser os ex-políticos europeus a apontar o caminho para salvar a Europa.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Para mais tarde recordar

«Não vamos andar de três em três meses a apresentar novas medidas».

Why don't you do right


Dedicado, com muito carinho, a todos os eleitores que votaram PSD porque "cortar nos subsídios de férias ou de Natal era um disparate", ou porque "não se podia pedir mais sacrifícios aos portugueses", ou porque "o défice devia ser reduzido do lado da despesa e não da receita", ou porque...