terça-feira, 3 de maio de 2011

Uma perguntinha

O governo, o FMI, o BCE e a CE chegaram a acordo sobre as condições para o empréstimo financeiro. O PSD já pode fazer o favor de dizer quando é que pensa poder apresentar um programa eleitoral?

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Memória

Berlim está cheia de evocações do Holocausto. Uma delas é um Memorial que ocupa um quarteirão inteiro, no centro da cidade.



Mas são uns quadrados com menos de um palmo de lado que doem mais fundo.



A Helena Araújo, num texto tão belo quanto triste, capta com a sua sensibilidade única o retrato de uma sociedade que se recusa a perder a memória.

Uma rede de um

Os algoritmos fazem da internet uma experiência cada vez mais personalizada. À partida, parece uma excelente ideia. Mas...



Via Ponto Media

domingo, 1 de maio de 2011

Os consórcios alemães, os lenhadores especializados em sobreiros e a Xerox apoiam

Paulo Portas diz que é candidato a primeiro-ministro.

Menos Sociedade

Há tanta gente disposta a dar ideias para o programa eleitoral do PSD, partindo do princípio de que vai ser apresentado algum, que se torna difícil acompanhar as movimentações. Uns indivíduos que se reúnem debaixo da chancela "Mais Sociedade" avançaram com a ideia de descontar nas reformas o subsídio recebido pelos trabalhadores em caso de desemprego. Para além do facto óbvio de penalizar duplamente quem trabalha e paga impostos e taxas sociais, deve salientar-se a estranha justificação para esta proposta. Segundo os seus autores, desta forma estar-se-ia a incentivar um rápido regresso ao mercado de trabalho. Não deixa de ser curiosa a forma como esta direita aninhada no PSD pensa a natureza humana. Para eles, o ser humano é naturalmente preguiçoso e trapaceiro. Como o enviesamento ideológico subjacente não se encontra suportado por nenhuma evidência empírica, talvez seja de questionar em que exemplos se apoiam estes senhores. E sabendo o que se sabe hoje sobre o sector financeiro, em geral, sobre o BPN, o BPP e o BCP, em particular, e sobre as práticas de gestão que levaram a economia mundial ao colapso, talvez a resposta seja óbvia.

A Feira do Livro, a cada ano que passa, está pior porque...

a) o mercado editorial português, a cada ano que passa, também piora.
b) a APEL, a cada ano que passa, parece que desaprende.
c) a cada ano que passa, eu vou ficando mais velho.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Palavra mágica

Da próxima vez que um político do PSD ou do CDS venha falar de despesismo do Estado ou insinuar que é preciso baixar os salários dos funcionários públicos e as prestações sociais para equilibrar as contas públicas, o eleitor sensato e informado deve manter no seu pensamento uma palavrinha mágica: submarinos.

Lideranças

A extrema-direita finlandesa acaba de tornar-se o terceiro partido mais votado nas eleições legislativas realizadas este domingo. Os resultados apurados até ao momento colocam os extremistas a pouco mais de 1% do partido mais votado e com apenas menos 5 deputados num total de 200.

A Finlândia está longe de ser um caso isolado. Em Itália, as coligações de Berlusconi há muito que acolhem a extrema-direita. Na Áustria, o partido de Jörg Haider também já integrou um executivo. Em França, as intenções de voto atribuídas pelas sondagens a Marie Le Pen são assustadoras e em Inglaterra, nas últimas eleições, os nacionalistas cativaram atenção mediática como nunca antes tinha sido visto. A UE, incapaz de reagir convenientemente à crise económica e financeira, tem um monstro a crescer no seu seio.

É muito difícil acreditar que serão políticos como Barroso, Merkel e Sarkozy que conseguirão contornar esta ameaça. Nenhum tem a visão, a coragem e o carisma para rechaçar os fantasmas que se erguem. E, contudo, qualquer um deles mantém-se firme na rota para o abismo. A Europa atravessa tempos agitados e perigosos e o seu maior problema não é não ter quem a lidere, mas ter quem ache que a sabe liderar.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Algo muito errado

Começa a ser notório que algo de muito errado se passa com os argumentos de Passos Coelho para ter chumbado o PEC IV. O líder do PSD já apresentou várias razões para tal, todas diferentes e muitas contraditórias. Confirmando-se que afinal Passos Coelho e Sócrates reuniram para discutir a apresentação das linhas orientadoras do PEC IV à UE, cai por terra mais um dos motivos anteriormente invocados.

Ao contrário do que o líder do PSD e a sua direcção repetiram incessantemente nestas semanas, Passos Coelho tinha conhecimento do pacote de medidas proposto pelo governo. Existem aqui três problemas. O primeiro, obviamente, é a mentira que o PSD quis fazer passar como trunfo eleitoral. O segundo é a quantidade de vezes que o PSD de Passos Coelho repetiu a mentira num tão curto intervalo de tempo. O terceiro problema é que não se imagina como pretendia o PSD não ser apanhado neste ardil.

Os dois primeiros, apontam para o facto de, tal como Graeme Souness dizia de Vale e Azevedo, a direcção do PSD ser capaz de olhar os portugueses nos olhos e lhes mentir sucessivamente. O terceiro demonstra que nem sequer isso são capazes de fazer com competência. Quase um mês depois de ter tirado o tapete ao país, não surpreende que o PSD não tenha sido capaz de apresentar uma única ideia sobre o que vai fazer se chegar ao governo. Não é estratégia política, é uma limitação cognitiva.

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Ajuda interna


Em caso algum deve o Benfica aceitar um valor abaixo de 90 mil milhões de euros por este jogador.

FMI, FEEF, whatever...

Os resultados da "ajuda" externa em todo o seu esplendor.

O espelho do neo-liberalismo

Nas primeiras páginas da obra Os Americanos, Daniel J. Boorstin descreve como a religião, o social e o político se intersectaram nas primeiras décadas de colonização da Nova Inglaterra e como o sermão dos ministros do puritanismo protestante se tornou o ponto central da comunidade. Um ministro encarregava-se de uma mesma congregação, em princípio, para toda a sua vida. As comunidades eram homogéneas e unidas. A dissensão era punida com a expulsão. Sem estradas e sem verdadeiras alternativas de vida comunal, a mobilidade geográfica não era algo a que o indivíduo comum aspirasse sem desânimo.

Neste cenário de notória ausência de diversidade, os ministros compreenderam a importância acrescida do sermão e desenvolveram um estilo próprio, intelectualmente trabalhado e distintamente americano. Fizeram-no não porque sentissem uma ameaça ao seu lugar na comunidade ou à influência exercida sobre esta, mas antes por uma questão de ética: o fazer bem feito como um mérito em si mesmo.

O actual discurso neo-liberal dominante substituiu a ética pelo utilitarismo. Cada um cuida dos seus interesses, num ambiente de concorrência implacável, e é suposto que a sociedade saia beneficiada com esta atitude. Não se trata, como o exemplo relatado por Boorstin demonstra, de uma caracterização empírica da natureza humana, mas apenas de uma ideologia que tem pretendido mascarar-se de ciência social. O facto de se trocar a ética pelo interesse e pela utilidade não diz muito sobre a natureza humana, se houver algo que assim possa ser chamado, mas diz muito sobre o que nos tem sido imposto como modelo de sociedade e sobre a mentalidade dos seus agentes. Infelizmente, nos próximos anos os portugueses vão sentir na pele, ainda mais, as consequências do dogma neo-liberal.

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Revisão da matéria

A democracia moderna nasceu da aliança, no século XVIII, entre a burguesia e o povo. Detentora de enorme poder económico, mas sem acesso ao poder político, a burguesia pediu apoio na sua luta contra a aristocracia. Como recompensa do apoio recebido nas ruas, garantiu direitos políticos à populaça. Em quatro linhas, é esta a génese da democracia representativa que conhecemos.

No final da II Guerra Mundial, os líderes europeus compreenderam bem as origens da catástrofe. A sua resposta foi a criação de um contrato social que conferisse segurança e distribuição de riqueza pelas sociedades. A Europa que resultou desse contrato estabilizou, uniu-se e cresceu - e talvez tenha sido um lugar feliz. Durou até aos anos 80, quando o liberalismo de Margaret Thatcher rasgou o modelo e ganhou a guerra contra os sindicatos.

No início do século XX, quando uma boa parte dos europeus ainda trabalhava em condições que nada deviam aos relatos de Engels sobre as fábricas inglesas em 1845, muito boa gente acreditava que o mundo não conheceria mais guerras. Os custos políticos, sociais e económicos seriam incomportáveis. Em 1914 vieram as trincheiras, em 1929 a crise financeira e em 1933 um demagogo austríaco foi nomeado chanceler de uma Alemanha ainda humilhada por Versalhes.

O exemplo

Na Islândia houve quem recusasse legitimidade a um sistema financeiro obsceno, imoral e fora de controlo.

Via Der Terrorist

terça-feira, 5 de abril de 2011

Reforma fiscal

Há uns dias, o New York Times lançou uma reportagem na qual acusava a General Electric de, apesar de apresentar lucros na ordem dos biliões de dólares, não pagar um cêntimo de impostos. Uma investigação posterior veio esclarecer que a GE, na realidade, ainda não apresentou contas relativas a 2010, de forma a apurar um montante a pagar. Mas, mais do que isso, veio demonstrar como as excepções e os buracos na fiscalidade americana permitem às empresas poupar milhões em impostos.

O caso dá que pensar, por comparação com a realidade portuguesa. A fiscalidade portuguesa é prolixa, labiríntica e, por vezes, indecifrável. Uma reforma que procurasse introduzir justiça, racionalidade e intelegibilidade no sistema fiscal seria, porventura, um dos mais significativos passos para uma economia e para umas contas públicas mais saudáveis.

Não se trata de pagar mais impostos. Trata-se de pagar o que realmente é devido. Não se pede mais do que isso.

sábado, 2 de abril de 2011

Uma perigosa mascarada



A UMP, de Nicolas Sarkozy, pretende lançar um debate sobre o islamismo em França. A mascarada dá pelo nome de "A Laicidade, o Lugar das Religiões e em Particular do Islão" (Público, 1 de Abril de 2011, pág. 19). O título diz tudo - aglutinam-se as variantes do islamismo num conceito único e particulariza-se o islamismo no seio das outras religiões. Na realidade, a referência a outras religiões e à laicidade apenas consta para que o ultraje não seja maior. A iniciativa, num momento pouco favorável para o partido de Sarkozy, destina-se apenas a capitalizar eleitoralmente o ressentimento e o pânico.

Este exemplo de mesquinhez e preconceito, no meio de uma crise financeira, económica e social sem paralelo, ajuda a compreender bem o que é a Europa neste início de século: um espaço político liderado sem visão, sem estratégia e sem memória.

A imagem que ilustra o post é da exposição O Eterno Judeu, inaugurada a 8 de Novembro de 1937, em Munique, e, mais tarde, a 12 de Novembro de 1938, em Berlim, dois dias depois da Kristalnacht.

quarta-feira, 30 de março de 2011

Temas que não farão parte da campanha

Não é preciso ser possuidor de uma memória invejável para recordar os tempos em que a crise financeira e económica levava os governos ocidentais a prometerem a introdução de alterações no sistema financeiro mundial. Uma boa parte do desequilíbrio das contas públicas por essa Europa fora deve-se às medidas adoptadas para salvar o sistema financeiro do colapso iminente, numa altura em que o termo "activo tóxico" fazia entrada no léxico do cidadão comum. Formidavelmente, essa oportunidade gorou-se. Pior ainda, na realidade, os intrépidos investidores e empreendedores que no passado recente lançaram o mundo no caos estão hoje mais fortes do que nunca, com o apoio ideológico e político da direita europeia. Nestas condições, discutir a imoralidade dos off-shores, como é o caso da Zona Franca da Madeira, onde em 2981 empresas registadas, 2435 declaram não ter qualquer trabalhador, está fora de questão.

Blame Canada

Céline Dion, Bryan Adams, Justin Bieber... Alguém tem de dizer ao Canadá para deixar de fazer isto ao resto do mundo.

Uma estratégia furada

Como "o PSD não está a governar", não se sente na obrigação de apresentar propostas alternativas de governo do país. É o desprezo pelo parlamentarismo, pela democracia e pela política em si. Esta estratégia, no entanto, tem duas desvantagens consideráveis. Em primeiro lugar, os políticos que desprezam a política apenas mobilizam eleitores que igualmente desprezam a política. No momento actual que o país vive, não parece que sejam estas as pessoas que mais falta fazem à esfera pública. Em segundo lugar, quando não se definem linhas orientadoras e medidas concretas, cada eleitor constrói a sua expectativa baseado nas suas conjecturas pessoais. Alarga-se assim a possibilidade de se defraudar as expectativas de toda a gente. Nenhum destes cenários promete estabilidade política e social. Mas cada um colhe aquilo que semeia.

segunda-feira, 28 de março de 2011

O tecto

À medida que a data das eleições se for aproximando vai crescer a pressão para o PSD avançar uma estratégia, um plano, uma ideia que seja, para tirar o país da crise. É certo que Cavaco Silva acabou de ganhar as presidenciais com uma campanha que foi sobretudo uma gestão de silêncios. Mas as diferenças são consideráveis. Umas legislativas não se comparam com umas presidenciais e o eleitorado espera que os candidatos à governação do país consigam produzir algo palpável, coerente e compreensível sobre o que se propõem fazer. Para além disto, não se deve menosprezar o facto de Cavaco se ter apresentado como incumbente, enquanto de Passos Coelho, politicamente, a maior parte das pessoas guardar sobretudo a memória de umas golas altas dos tempos da jota social-democrata. Neste contexto, para uma liderança que sempre que é obrigada a juntar duas frases seguidas desce nas intenções de voto, os 40 e tal por cento que as sondagens lhe atribuem são certamente um tecto. Daqui para a frente, pode ser sempre a perder.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Diz que não disse

Enquanto Passos Coelho vai admitindo uma subida do IVA, Miguel Relvas não só diz que o caminho não deve ser por aí, como assegura que o líder não anda a admitir uma subida do IVA. Relvas só não explica se o 13º mês é "despesa inútil do Estado". António Carrapatoso aguarda esclarecimentos. Os funcionários públicos também.

Dúvidas existenciais

Manuela Ferreira Leite marcou o dia do debate parlamentar que levou ao chumbo do PEC IV por ter declarado que não discutia medidas concretas por não querer "entrar em politiquices". Quem anda há décadas na política, tendo passado por cargos executivos, e compara o discurso sobre medidas concretas a politiquices, anda na política a fazer e a falar de quê?

Um aspecto a ter em consideração nas próximas eleições autárquicas

Japão reconstrói rodovia destruída em seis dias

quinta-feira, 24 de março de 2011

Quinze dias passam num instante

"Foi o primeiro líder político a acelerar uma crise política que estava ainda no horizonte: há 15 dias, Paulo Portas disse que avançaria com um projecto de resolução contra o PEC (...)."

Público, edição impressa de 24 de Março


Ao certo, de quanto tempo precisava Cavaco Silva para não ser apanhado de surpresa?

Broad coalition for change

Uma coligação tão grande que inclui o passismo e o cavaquismo.

Gostar de blogues

"Incrivelmente, a apresentação do PEC 4, o debate que se seguiu e o desfecho de ontem ocorreram sem que tivesse sido, que eu saiba, conduzida uma única sondagem sobre o tema para divulgação pública. Pelos vistos, as empresas e os órgãos de comunicação social andaram entretidos, respectivamente, a fazer e encomendar sondagens sobre o Sporting. São opções."

Pedro Magalhães, no Margens de Erro.

Bios Politikos

Resumidamente: é isto.

domingo, 31 de outubro de 2010

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Gostar de blogues

Apesar de citar apenas as respectivas punch lines, obviamente, para ler tudo:

"O mais curioso é que hoje li blogues portugueses onde se falava sobre a Alemanha e os alemães no mesmo tom em que o Sarrazin fala contra os turcos e os árabes..."
Helena Araújo, no 2 Dedos de Conversa

"Por estranho que pareça, aqui instalada no epicentro da xenofobia, não tenho nenhuma vontade de voltar para o vosso paraíso dos brandos costumes."
Rita Maria, no Boas Intenções

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Lamento informar

Esta iniciativa pode ser realmente uma boa ideia. Não se tratando de tomar os contributos como decisões, mas sim como ideias para discussão, o princípio é conhecido há bastante tempo como uma técnica com muito potencial para gerar soluções inovadoras. Se as pessoas que convivem diariamente com os problemas puderem participar, oferecendo a sua experiência e visão de proximidade, às muitas ideias irrealistas poderão corresponder algumas bastante interessantes.

Se o PSD é um partido sem ideias e se desespera por algo a que se agarrar para contrapor ao plano do governo, é uma história completamente diferente.

Na era em que vivemos, com as tecnologias que temos ao nosso dispor, não devemos menosprezar os processos que apelam à participação e envolvimento dos cidadãos e que permitem, de uma forma rápida e pouco dispendiosa, reunir uma quantidade muito considerável de contributos.Passar anos a escrever num blogue e não perceber isto é uma incoerência que me ultrapassa.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Escrúpulos

Por estes dias, assiste-se a uma batalha ideológica épica sobre o modelo de sociedade que vamos ter nos próximos anos. O que começou como um golpe para a desregulação dos mercados, rapidamente se transformou num contra-ataque fortíssimo ao Estado Providência. Da condenação da ganância e da ausência de regras e de escrúpulos passámos à condenação da despesa do Estado, mesmo que muita dessa despesa tenha sido feita para salvar o sistema financeiro e tentar travar um colapso económico. No turbilhão dos acontecimentos, a memória não é a capacidade que mais se destaca. E do triângulo formado entre ganância, desregulação e falta de escrúpulos, parece ser a última aquela a que se devia ter dado mais atenção.

Mitologia da beleza

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

Eclipse

As políticas de austeridade propostas pelos paladinos do liberalismo não trarão outra coisa que não um efeito recessivo na economia. Este facto é uma evidência tão forte que não era necessário ver a Irlanda entrar em espiral descendente para o perceber. Mas existem dois aspectos importantíssimos e menos falados que são os efeitos sociais e políticos do liberalismo económico e financeiro.

Quando se facilitam os despedimentos, quando os salários baixos não permitem um nível de vida satisfatório e impedem que os assalariados participem da criação de riqueza na economia, transformando a mobilidade social e económica numa miragem, não se pode esperar um compromisso forte das massas com os projectos políticos. Nestas situações, quando não se tem nada a ganhar e pouco se tem a perder, as fontes de ignição aproximam-se perigosamente do barril de pólvora. Os adeptos do liberalismo económico e financeiro não contam com nada disto. Ou contam, mas optam por resolver estes problemas construindo mais prisões e agravando as penas previstas na lei.

Este liberalismo, tomado por aquilo que nos querem vender, subordina as pessoas aos números, o social e o político ao económico, o económico ao financeiro e a realidade à doutrina. Não garante estabilidade, não garante crescimento e não garante redistribuição da riqueza. Encerra em si os fundamentos para eclipsar em poucos meses o que precisou de 100 anos e duas guerras mundiais para poder ser construído.

Isto pode não ser um regresso

terça-feira, 1 de junho de 2010

Legitimar o lixo

Ainda há quem tenha paciêcia para desmontar os textos de João César das Neves. Ainda há quem tenha paciência para ler o DN. Há gente para tudo. Mas desmontar os textos de JCN, actividade à qual me dediquei vezes mais que suficientes, incorpora um equívoco. JCN não opera no mercado da produção intelectual de textos para o DN. O seu negócio é o do entretenimento puro e simples. Mais não faz, e disso terá toda a consciência, que ninguém duvide, do que ocupar o lugar do número de circo, do maluquinho da aldeia, do bobo da corte. Desmontar os textos de JCN representa, sobretudo, elevá-los a uma categoria da qual a sua substância argumentativa não os torna merecedores e coloca-os num patamar onde obviamente não pertencem.

Os temas de JCN não mudam e o efeito sobre o leitor apenas surge pelo choque. Como a repetição esbate a novidade e instaura a rotina e o desinteresse, torna-se necessário, para continuar a prender leitores, aumentar a parada. O problema é que neste registo a parada só aumenta com uma radicalização permanente das ideias e do discurso. E é esta a principal razão, se não a única, pela qual JCN escreve textos cada vez mais desligados da realidade e do bom senso.

É perfeitamente irrelevante tentar perceber o pseudo-conceito "totalitarismo do orgasmo", cunhado esta segunda-feira. E não vale sequer o esforço de tentar explicar as mil e uma razões que fazem dos textos de JCN um poço de falácias. Existe talvez a responsabilidade de alertar para os perigos de se tomar uma coisa escrita pelo que ela não é, mas isso faz parte do trabalho de educação para a literacia e não precisa certamente dos textos de JCN como ilustração ou case study. Arranjam-se melhores desafios com facilidade.

De facto, o problema dos textos de JCN não reside tanto nas falácias e mentiras que encerram. O maior problema com os textos de JCN é que um jornal que se diz de referência não pode dar-se ao luxo de publicar o lixo do maluquinho da aldeia ou do bobo da corte. Não se empresta legitimidade ao lixo a troco de mais uns exemplares vendidos. Aliás, é muito duvidoso que JCN traga leitores ao DN. A maior parte das pessoas que se dedicam a ler os seus textos fazem-no por curiosidade mórbida e não pelo prazer da leitura ou pelo estímulo intelectual. Se o DN substituir JCN e entregar o seu espaço a alguém que, independentemente de se posicionar à esquerda ou à direita e de ser católico ou ateu, respeite o princípio elementar da honestidade intelectual, todos saem a ganhar.

segunda-feira, 31 de maio de 2010

Ética: modo de não usar

O jornalista que o Público escolheu para comentar o apoio do PS à candidatura presidencial de Manuel Alegre é o mesmo homem que os assessores de Cavaco usaram para plantar o caso das escutas em Belém. O Público, após José Manuel Fernandes, continua a não querer perceber que para ser respeitado tem que se dar ao respeito.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Esclarecimento

Eu se não apareço por aqui com mais frequência é porque ando demasiado ocupado a tentar impedir que o país vá pelo cano.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Santa ignorância

Um texto escrito por uma pessoa que não percebe nada do que está a dizer.

Outro texto escrito por uma pessoa que não percebe nada do que está a dizer.

Frasquilhices

Ficámos a saber que o BES emprega um funcionário com um sentido patriótico muito apurado. Miguel Frasquilho coloca o interesse patriótico à frente de tudo o resto e não hesita em fornecer informações adulteradas em nome da instituição para a qual trabalha de forma a não prejudicar o fluxo de investimentos em solo português. Isto porque as convicções de Miguel Frasquilho são, como ele disse, as que expressa como deputado na AR, que se afastam diametralmente do que subscreveu no BES. Aguarda-se para breve o mais que justo inquérito disciplinar promovido pela entidade patronal.

A realidade será, obviamente, outra. O BES não vai preocupar-se em apurar a fiabilidade das informações assinadas por Frasquilho - os patrões de Frasquilho terão as informações e garantias necessárias para aferir que não são eles que estão a ser enganados. OS eleitores, pelo seu lado, desconfiam bem que não deve ser nos trabalhos que assina pelo BES, e pelos quais aufere o seu vencimento, que Frasquilho mente. E, não podendo proceder a inquéritos, não deixam de ter nas suas mãos a sanção disciplinar adequada sempre e de cada vez que Miguel Frasquilho se apresente a votos.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Cavadela, minhoca

Chamar discurso às verbalizações de Cavaco é um manifesto exagero. A propósito da promulgação do casamento entre pessoas do mesmo sexo, o actual inquilino de Belém presenteou-nos com mais um hino à ausência de discernimento e de cultura, actividade na qual é prolífico como em nenhuma outra.

Hoje

Hoje há portugueses com muito boas razões para se sentirem felizes. É um dia bom.

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Fórmula de sucesso

Para alguns especialistas de café, a solução milagrosa para os males do país passa sempre pela redução de salários. O Estado gasta muito? Corta-se nos salários. O país não é economicamente competitivo? Corta-se nos salários. Era importante que alguém explicasse devagarinho a estas pessoas que, se a ideia é concorrer pela óptica dos salários baixos, é preciso reduzir até aos níveis pagos na Índia e na China ou, para ficarmos mais perto, na Europa de Leste. Aí sim, teríamos empresas verdadeiramente competitivas que comercializariam produtos e serviços que as famílias não teriam dinheiro para comprar. Um sucesso...

O alvo

Existe uma grande diferença entre reconhecer que o Estado gasta muito dinheiro com as remunerações dos seus funcionários e, dessa constatação, concluir que o Estado gasta demasiado dinheiro com remunerações. Portugal não é um país de salários elevados para o trabalhador médio. Aliás, onde o país se destaca com remunerações acima da média europeia é nos altos cargos dirigentes e nos altos cargos de gestão. É verdade que o vencimento médio dos funcionários públicos é superior ao vencimento médio nacional, mas é preciso ter em conta que o salário médio nacional faz corar de vergonha qualquer cidadão da Europa central. Para se aceitar que o Estado gasta demasiado dinheiro com remunerações torna-se necessário que fique demonstrado que paga demasiado, ou que paga a demasiados, e que poderia fazer o mesmo, com a mesma eficácia, por menos dinheiro. Lamentavelmente para os arautos do corte a direito na função pública, um funcionalismo público bem pago e qualificado sempre foi um dos sinais de um Estado forte e desenvolvido. Ou, vistas bem as coisas, talvez seja precisamente esse o alvo a atacar.

Embirrar

Há quem embirre com a Administração Pública e com os seus funcionários. E há quem leve essa embirração a níveis irracionais. Só assim se entende que se defenda que os funcionários públicos são as únicas pessoas na Europa que "vivem à margem da crise que varre o país e a Europa". Isto seria verdade se os funcionários públicos não descontassem para o IRS, como toda a gente, e não fossem também eles afectados pelas alterações anunciadas ontem. As medidas anunciadas por Sócrates são duríssimas, injustas e, até certo ponto, eventualmente contraproducentes. Mas, tirando as PME, tocam a quase todos. Reduzir os salários da função pública prejudicaria um único grupo de profissionais, sem quaisquer critérios de rigor e justiça social.

Não perceber

O que Mário Soares disse ao El País foi que a melhor arma para combater o terrorismo é o humanismo e o diálogo possível. Ou seja, uma política externa que respeite a dignidade do ser humano e os seus direitos e um diálogo com os sectores sociais e políticos como forma de diminuir ou erradicar as bases de apoio popular do terrorismo. Não falou em dialogar com terroristas, muito menos em negociar o que quer que seja. Pode ser que o Jorge Costa não perceba a língua dos nossos vizinhos. Ou pode ser que, simplesmente, não perceba.

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Para começo de discussão

Dois posts absolutamente imperdíveis sobre o 1º de Maio em Berlim:

Notícias ao fim da tarde

Ontem em Berlim

Às perguntas que a Helena já levantou, eu juntaria mais duas. Deve a democracia acolher no seu seio as mais reaccionárias e violentas forças anti-democráticas? Devem a cidade de Berlim, a Alemanha e a Europa assistir impávidas enquanto o neo-nazismo se passeia pelas suas ruas?

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Admirável Mundo Novo (3)

Mapa da Feira - Disponível brevemente.

O não-caso

Os únicos pontos que merecem discussão naquilo a que os jornais ingleses decidiram baptizar como Bigotgate são a legitimidade - ou falta dela, para ser mais correcto - e a impunidade dos órgãos de comunicação social no tratamento da conversa particular mantida entre Gordon Brown e um elemento da sua equipa de campanha. Muito mais importante do que discutir se a eleitora que interpelou Brown tem razão no que disse ou se o comentário do primeiro-ministro pode ser considerado ofensivo, é reflectir sobre os limites que todos os dias são ultrapassados por uma comunicação social ávida de sangue para as manchetes e para o horário nobre, indiferente ao mau serviço que presta ao jornalismo e à democracia.

Helen Keller School of Economics

Vão-se multiplicando os conselhos que, para vencer a crise, propõem cortes ou congelamentos salariais e redução dos apoios sociais. Apesar do contentamento demonstrado pelas associações patronais, não é preciso um mestrado em Economia para perceber os efeitos nefastos que estas medidas trazem para as famílias. Quando o consumo se retrair brutalmente e as pessoas deixarem de ser capazes de pagar os créditos que contraíram, é todo o sistema económico português que entra em colapso. Enganam-se todos os que pensam o contrário ou que acreditam que uma sociedade pobre e sem esperança é solo propício para consolidação orçamental e uma economia forte.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

How to lose friends and alienate people

Este post parece ter despertado algumas invejas. Não é caso para tanto. Já se sabe, uns dias correm melhor do que outros. Hoje, por exemplo, a água do mar não estava tão boa como ontem.

Demagogia por demagogia

Uma União Europeia a duas velocidades e que fragilize a moeda única é inaceitável. A Alemanha deve abandonar o Euro.

Admirável Mundo Novo (2)

"(O)s Livros do Dia são da responsabilidade das editoras, pelo que só poderemos divulgar a informação que nos for transmitida pelas mesmas."

Nada a que o frequentador do site da Feira nos últimos anos não esteja já tristemente habituado. Por muito que se goste de livros e da sua Feira e se queira elogiar, organização e editoras não tornam a tarefa fácil.

Admirável Mundo Novo

O site oficial da 80ª Feira do Livro de Lisboa informa que "brevemente" estará disponível. Como estamos a menos de 24 horas da abertura, calcula-se que o "brevemente", de facto, queira dizer "amanhã". Mas nem tudo está perdido. A Feira do Livro tem página no Facebook. E aí o Sherlock Holmes que habita em cada um de nós rejubila ao confirmar que "o site da Feira do Livro estará online a partir de amanhã".

Alguém explique a esta gente que o século XXI começou há quase uma década e que não é para isto que servem a internet e as redes sociais.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Dúvidas diplomáticas

É natural e comum um chefe de Estado enxovalhar os órgãos de soberania de outro país enquanto recebe o chefe de Estado desse mesmo país? É natural e comum que o segundo reaja com silêncio e depois candura e compreensão aos ataques do primeiro?

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Um duplo erro

No mercado de trabalho, a relação de poder pende favoravelmente para as entidades empregadoras. Se não fosse por outras razões, o simples facto de haver mais procura do que oferta de empregos chegaria para compreender o que se passa. A isto junta-se uma realidade económica e social que penaliza fortemente o desemprego. O desempregado sofre um estigma social enorme, perde poder de compra e vê piorar, com o passar do tempo, as probabilidades de conseguir outro emprego.

Muito embora a retórica demagógica de direita equipare o desemprego subsidiado à preguiça, a verdade é que a maior parte das pessoas nessa situação preferiria encontrar um emprego decente e dignamente remunerado a passar os seus dias a olhar para as paredes do quarto. Como quanto mais tempo se passa desempregado mais baixa é a probabilidade de se ultrapassar essa situação, com o passar dos meses - por vezes, com o passar dos anos -, o desespero e a desmotivação aumentam exponencialmente. O subsídio de desemprego pode durar, no máximo, sensivelmente três anos, mas um crédito automóvel chega facilmente aos cinco ou seis anos e um crédito habitação pode ir até aos quarenta anos. A prazo, a verdade é que as necessidades financeiras pressionam qualquer desempregado.

Há uma razão social e moral para existirem protecções como o subsídio de desemprego, o rendimento social de inserção, o salário mínimo e as cargas horárias máximas de trabalho. Sem este tipo de bases mínimas, as pressões sobre todos os que procuram emprego conduziriam a uma espiral descendente da oferta de condições pelos empregadores. Medidas como estas destinam-se a introduzir patamares de justiça e dignidade abaixo dos quais a sociedade não reconhece legitimidade moral às condições de vida proporcionadas aos seus membros.

A liderança de Pedro Passos Coelho escolheu, simbólica e sintomaticamente, começar por atacar os mais fracos. Por uma questão de justiça e de modelo social e cultural, nunca deveria ganhar a oportunidade de implementar as violentas medidas que preconiza. Neste momento, com 10% de taxa de desemprego e com muitos mais portugueses que não sabem o dia de amanhã, são pelo menos 500.000 eleitores com boas razões para não votarem PSD. O tiro de partida de Passos Coelho revela, afinal, não ser mais do que um erro social e político.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

Tão simples como isto

Quem quer acompanhar a visita de Bento XVI a Portugal devia tirar dias de férias para fazê-lo.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Lógica social

Que o PSD de Passos Coelho queira cortar nos apoios sociais do Estado, é uma questão ideológica. Que não perceba que as pessoas acedem aos apoios sociais como o subsídio de desemprego porque têm carreira contributiva, já é uma questão de lógica. Ou da falta dela. Quando se desconta para a Segurança Social ganha-se o direito de ser assistido num momento de necessidade. A contribuição está feita. Não há nada a devolver. De quem não percebe este princípio simples do funcionamento do Estado social não se pode esperar boa coisa.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Violento e destrutivo

Pedro Arroja, pessoa para a qual parecem sempre faltar adjectivos adequados, conseguiu a proeza de colocar meia blogosfera a reagir a mais uma das suas inanidades. Num post que é todo ele uma falácia, merecem especial atenção estes dois parágrafos:

"Um homem que seja verdadeiramente um homem, um homem heterossexual, nunca deseja que o mundo morra consigo. Esse homem deixa, em princípio, filhos e aquilo que ele deseja é que, à sua morte, o mundo seja pacífico e próspero, porque esse é o seu desejo para os seus filhos.
É diferente com um homossexual. Depois dele, não há nada. Não faz diferença nenhuma que o mundo morra com ele. Os homossexuais são, por isso, pessoas potencialmente violentas, os destruidores por excelência.
"

O principal aspecto que sobressai nestas frases é a instrumentalização utilitarista da reprodução sexual como factor gerador de interesse pelo futuro do mundo. Arroja não reconhece, ou recusa reconhecer, o homossexual como um ser dotado de capacidade moral. Na realidade, dentro do seu raciocínio, ou da forma tosca como o expõe, nem aos heterossexuais reconhece essa capacidade.

Por um lado, ao ligar o interesse pelo futuro do mundo ao interesse imediato com o futuro dos filhos, apaga-se toda a riquíssima teia de relacionamentos humanos e afectos gerados pela proximidade. Mas quem não deixa filhos pode deixar pais, irmãos, cônjuges, amantes e amigos. O interesse pelo futuro destas pessoas é, obviamente, também o interesse pelo futuro do mundo. Negar ou não reconhecer esta realidade é negar a humanidade destas relações.

Mas ainda que uma pessoa não deixe família ou amigos, é preciso recusar-lhe toda e qualquer capacidade de julgamento moral, de distinção entre o bem e o mal, para não lhe atribuir nenhum interesse pelo futuro do mundo. Para Pedro Arroja, o homossexual e o heterossexual sem filhos são pessoas sem capacidade para se relacionarem com a restante humanidade. O sofrimento alheio não lhes diria nada, uma vez que tudo se resume ao interesse utilitarista com a prole.

Ao negar-se a uma pessoa a capacidade de relacionamento com a humanidade, nega-se a própria humanidade dessa pessoa e, acto contínuo, decreta-se a sua exclusão dessa comunidade. Temos, assim, um mundo de pessoas de primeira e pessoas de segunda - semi-pessoas ou mesmo não-pessoas.

O palavreado de Pedro Arroja faz as delícias de fanáticos e fundamentalistas e encerra em si tudo o que pretende atacar. É violento e destrutivo, preconceituoso, segregacionista e, haja coragem para o afirmar, potencialmente genocida. Os grandes massacres do século XX não começaram de forma muito diferente.

domingo, 4 de abril de 2010

Spin

Há uns anos, o Bloguítica era um blogue que se dedicava a fazer análise política. Hoje em dia é um blogue se dedica a fazer combate político. Opção perfeitamente legítima, claro, e que nem sequer merece comentário adicional, mas que ajuda a enquadrar o último post do Paulo Gorjão. As declarações de Francisco Assis referem-se a um determinado contexto e as de Ricardo Rodrigues referem-se a outro completamente distinto. Algo razoavelmente simples de entender e que, com toda a certeza, não baralha ninguém. A pergunta que deve ser feita é se as notícias que têm vindo a público sobre o negócio dos submarinos, adquiridos no tempo do governo Durão/Portas, justificam, ou podem vir a justificar, uma comissão parlamentar de inquérito. O resto é spin.

quarta-feira, 31 de março de 2010

Certo, certíssimo

A polémica aquisição dos submarinos foi levada a cabo, em 2004, pela coligação PSD-PP. O Bloco de Esquerda, que "sempre alertou para a necessidade de 'transparência' em relação a este negócio" e se mostra "muito preocupado" e interessado na "busca da verdade", pede esclarecimentos rápidos ao governo PS. Faz todo o sentido.

Responsabilidade

Regressando aos temas da actualidade, um dos incontornáveis é o da pedofilia. A Igreja Católica, a este propósito, tem sido atacada por muitos lados, mas convém dizer claramente que, igualmente muitas vezes, de forma injusta. O problema que se coloca à Igreja não é o dos casos de padres pedófilos, da mesma forma que o problema que se coloca à política não é o dos políticos corruptos. Tanto a uma como a outra, as questões maiores que enfrentam são a do encobrimento e da impunidade.

Não é fácil conceber como um Estado de direito democrático pode, de forma aceitável, erradicar o crime - assuma ele a forma de pedofilia, tráfico de droga, homicídio, ou outra qualquer. Evidentemente, o sofrimento de uma só criança que seja é intolerável. Na ausência de informação que corrobore a ideia (com quase toda a probabilidade, errada) de que o celibato contribui de alguma forma para a pedofilia, importa compreender que esta última surge essencialmente ligada à figura da autoridade. Quer seja no meio familiar, quer seja em meios de socialização secundária, como escolas, orfanatos ou grupos religiosos, o que está em causa é a relação que se constitui entre os abusadores e as suas vítimas, uma relação de poder em que os primeiros o exercem quase na exclusividade. Podemos, eventualmente, discutir os méritos e deméritos deste tipo de relação para a formação da personalidade de uma criança. Mas isso, no âmbito do tema dos escândalos de pedofilia que têm visto a luz do dia, é iludir o principal. O que deve, em primeiro lugar, merecer atenção não é como foi isto acontecer, mas como foi possível conservar o silêncio tanto tempo.

Como foi possível encobrir e proteger crimes desta natureza? Como foi possível que ninguém tivesse sido responsabilizado judicialmente? Discutir a existência de uma crime numa sociedade livre é, muitas vezes, discutir o sexo dos anjos. O que se espera de uma democracia é o debate permanente e sem preconceitos dos seus processos de responsabilidade e responsabilização individual.

Das férias 2

Porque um blogue também serve para estas coisas, seria uma enorme injustiça se não aproveitasse este espaço para o elogio dos anfitriões. Podia dizer que já não há pessoas assim, mas não estaria a ser sério. Os membros mais novos da família provam não só que continua e continuará a haver pessoas assim, como que quem sai aos seus não degenera. Onde vai aquela gente buscar a energia para levar a vida preenchida que tem e ainda acomodar e apaparicar três hóspedes durante quase duas semanas é algo que ainda me escapa. Suspeito que tenha algo a ver com muesli e comida biológica. Isso e o coração desmesurado que têm no meio do peito a bombear-lhes, em doses iguais, oxigénio e carinho.

Das férias

Há dois tipos de férias. Aquelas em que vamos para locais um bocadinho piores que o nosso e aquelas em que vamos para locais um bocadinho melhores que o nosso. Nestas duas semanas de ausência, optei pelo segundo tipo. E cunhei um novo termo para uso pessoal: turismo político. Visitar cidades e países onde as instituições sociais e políticas funcionam de uma forma que suscita uma certa inveja.

domingo, 14 de março de 2010

Um partido com humor, mesmo que involuntário

O PSD, que anda há ano e meio com a "asfixia democrática" na boca, aprovou uma alteração de estatutos que impede a crítica política interna. Faltar à lealdade para com o programa, estatutos, directrizes e regulamentos do partido pode dar direito a suspensão ou expulsão. A proposta, que já de si é bastante ridícula, surge num timing perfeitamente anedótico.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Coisas que me escapam

O celibato potencia a pedofilia porque...?

Uma reflexão e uma pergunta

Para reflectir: este pequeno texto de João Lopes.

A pergunta: as lógicas que presidem ao debate político nos blogues são muito diferentes do que está a acontecer ao debate político nas televisões?

Trade-off

Foi lançada uma petição pelo cinema português. Do diagnóstico ali feito ao estado do cinema em Portugal, parecem-me faltar dois pontos bastante relevantes. Mesmo dando por garantido que sem dinheiro dificilmente há milagres (com honrosas excepções), faltou dizer que há projectos de qualidade abaixo de sofrível nos quais é obsceno injectar dinheiro de quem quer que seja sem serem os próprios promotores. E faltou equacionar o espectador como fonte de receitas que viabilizem os projectos para lá dos apoios públicos.

Isto dito, e concordando com as boas intenções expressas, gostaria de ver satisfeito apenas um desejo antes de juntar o meu nome ao das quase 850 pessoas que assinaram a petição até este momento. Como é de dinheiros públicos que falamos, gostaria que os promotores desta petição abrissem as portas das suas produtoras, já na próxima segunda-feira, às inspecções das Finanças, da Segurança Social e da ACT. Façam-me esta gentileza e eu assino na própria hora.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Género

Porque ainda há muito quem não saiba a diferença entre as duas coisas, e porque hoje o dia se proporciona a isso, aqui fica uma pequena clarificação. As diferenças de sexo são biologicamente determinadas. As diferenças de género são socialmente definidas. O género é um conceito empregue pelas ciências sociais, não é um tique linguístico desprovido de conteúdo, como por vezes se quer fazer passar. Desvalorizar ou ridicularizar o uso do termo revela apenas ignorância e preconceitos.

Manifesto político

Cavaco? Sou contra.

Declaração de voto

Cavaco quer recandidatar-se a Belém? Sou contra.

domingo, 7 de março de 2010

Apostas arriscadas

"(O) Público distinguiu-se por ser um jornal com alma, com emoção, por fazer um jornalismo frontal, mesmo quando para isso passou por apostas editoriais e informativas arriscadas."

José Manuel Fernandes, condensando 11 anos à frente do Público num fantástico eufemismo.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Nos 20 anos do Público

Três perguntas:

- É muito difícil garantir regularmente um jornal com o nível de conteúdos da edição de hoje?

- Luciano Alvarez ainda é editor de política do jornal?

- Quanto tempo se pode ser editor no Público sem saber escrever português?

quarta-feira, 3 de março de 2010

Sexismo explícito é isto

Segundo o Público, a Apple acaba de lançar uma aplicação para o iPhone que pode ser usada por "todos os maridos que enganam as mulheres". Ficamos ansiosamente à espera do dia em que o Público noticie uma aplicação concebida para mulheres que enganam os maridos.

terça-feira, 2 de março de 2010

Estado de direito

O ataque aos direitos, liberdades e garantias, por natureza, mina os fundamentos do estado de direito. Quando não se respeita a fronteira entre o domínio público e o domínio privado, quando é a intolerância política a pautar a agenda, quando se reduz o outro a uma caricatura maniqueísta, quando se incentiva e premeia a delação, a sociedade que daí resulta vê destruída a rede que confere a cada um dos seus membros a segurança básica para participar na vida cívica. Há quem alimente este estado de coisas por interesses políticos, há quem o faça por interesses económicos e há quem o faça por manifesta falta de inteligência para perceber uns e outros. No meio da histeria, fala-se em sistemas de videovigilância, em acabar com sigilos profissionais e em tornar públicos os rendimentos privados. Viola-se grosseiramente a presunção de inocência e o direito à privacidade em troca de algo que até pode ser a justiça das milícias, mas nunca a justiça de um estado de direito democrático. É mais saudável a sociedade que aceita os preços da liberdade do que aquela na qual ninguém está a salvo da espionagem e da coacção.

Sarjeta

Um dos meus professores na faculdade, para ilustrar a importância do sentimento de proximidade social como factor de percepção do conteúdo das notícias, costumava dizer que lhe passavam sempre ao lado as notícias sobre crimes de sangue, excepto se a vítima fosse docente do ensino superior. Dentro desta lógica, a manchete de hoje do jornal i tem tudo para captar a atenção de quem escreve e acompanha blogues.

Rapidamente se percebe, lendo o Jumento, mas também o Eduardo Pitta e o Tomás Vasques, entre outros, que o texto assinado por Paulo Pinto Mascarenhas é tudo menos trabalho de jornalismo. São sonegados e deturpados factos relevantes e atenta-se contra o direito à privacidade a troco de umas letras gordas para vender papel.

Há dias, o jornal Metro avançou com uma capa que é outro marco histórico da degradação da objectividade e sentido crítico no meio jornalístico. Tanto no caso do Metro como no do i, temos artigos com direito a manchete na capa do jornal, o que implica o compromisso de muito mais do que o autor da peça. Uma capa não se define à revelia dos editores e do director da publicação. Num e noutro caso, foi toda uma equipa que contribuiu de forma activa e consciente para um resultado que serve apenas o propósito de desinformação que tem vindo a instalar-se na comunicação social.

A ética e o profissionalismo das redacções estão na sarjeta.

segunda-feira, 1 de março de 2010

Esguichos de Miguel Silva

Concluindo, a emancipação da mulher e o planeamento familiar dão cabo da natalidade (os baixos salários e a precariedade laboral são conceitos estranhos ao senhor tenente-coronel piloto aviador). A imigrantada vem dar-nos cabo do país. Gastamos dinheiro estupidamente com desempregados, toxicodependentes e presidiários e ainda queremos impor a educação sexual nas escolas. Mas, acima de tudo, o que indigna o senhor tenente-coronel piloto aviador é que se tenha mandado tirar os crucifixos das escolas e que se tenha aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O senhor tenente-coronel piloto aviador escreveu muito no seu delírio, mas o seu texto pode resumir-se numa única palavra: foda-se. Um longo, arrastado e estupefacto foda-se.

Os meus emigrantes são melhores que os teus

"A tudo isto é necessário juntar os fluxos emigratórios e imigratórios. Isto é, por um lado os países ocidentais vêem chegar ao seu território milhões de seres de outros continentes que estão a desfigurar as suas nações e vêem partir, por outro lado, os seus melhores cérebros, que procuram realizações pessoais em países mais avançados, ou de oportunidade."

Portanto, os seres de outros continentes vêm desfigurar as nações ocidentais. Já os nossos emigrantes partem em busca de realizações pessoais ou de oportunidades. Ora, assim de repente, o que é que diferencia facilmente os seres de outros continentes do pessoal que habita os países que eles estão a desfigurar? Caramba, será a cor da pele? Olha, tu queres ver que o senhor tenente-coronel piloto aviador afinal é mesmo racista?

Um pequena diferença

"A demografia tem sido escamoteada com os nascimentos de filhos de emigrantes o que não é propriamente a mesma coisa que nascerem nacionais. A propaganda que favorece e escamoteia tudo isto tomou o nome de “multiculturalismo”. Não estamos a defender ideias racistas (...)."

Não, de facto, o senhor tenente-coronel piloto aviador Brandão Ferreira não está a defender ideias racistas. A isto chama-se xenofobia.

Grandes mistérios do Universo

Onde foi o Público desencantar o senhor tenente-coronel piloto aviador João José Brandão Ferreira?

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Um Presidente da República monárquico?

Talvez o único lugar para o qual um monárquico não deva candidatar-se seja o de Presidente da República. Pode fazê-lo, mas a sua consciência devia ditar-lhe que não o fizesse. Se Fernando Nobre simpatiza com o regime monárquico e, mesmo assim, decide avançar para a corrida a Belém, o mínimo que se lhe pede é que explique cabalmente o seu pensamento sobre os dois regimes e que se comprometa, desde já, com uma linha de acção tão clara quanto possível. As meias-tintas, neste caso, não são uma opção.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Portugueses vêem filmes de acção a mais

Segundo um estudo encomendado pela Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, a maioria dos entrevistados gostaria de ver a polícia usar a força com maior regularidade. As forças policiais são um instrumento de manutenção de ordem e segurança pública. Não são uma instância de aplicação de justiça. Para isso temos tribunais e códigos específicos. A diferença entre um filme de acção de Hollywood e o que é a actuação dentro dos limites da lei e da razoabilidade do uso da força devia ser evidente para a maior parte das pessoas e reside nos fundamentos do Estado de Direito. Mas talvez o mais espantoso desta atitude seja a confiança maniqueísta dos entrevistados. Uma boa razão para não enveredar por soluções de força e que limitam os direitos e garantias dos indivíduos é saber que quanto maior é o grau de arbitrariedade no uso da força, menor é a garantia que temos de não sermos nós as vítimas desse poder em tão má hora delegado.

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Maus caminhos

O CDS quer sistemas de videovigilância e reforço policial em Torres Vedras. A proposta esbarra em critérios de eficácia e eficiência, mas isso não detém um partido que tem feito da paranóia securitária um tema permanente de campanha.

A ideia de que podemos ter sociedades sem crime, ou sem corrupção, ou sem vícios, foi e continua a ser uma das ideias mais perigosas em termos políticos. Não há, não pode haver, sociedades sem crimes. Podemos apenas ter sociedades totalitárias e sociedades sem liberdade de informação. E é só.

Parecendo que não

Obviamente, o casamento de pessoas do mesmo sexo não é um ataque nem prejudica de forma alguma a família. As famílias - todas - continuarão a viver as suas vidas independentemente de quem casa com quem. O “ataque à família” é apenas um slogan vazio e populista ao qual ninguém foi ainda capaz de conferir substância. Quando convidados a explicarem-se, os pretensos defensores da família caem constantemente na cartilha do "tratar de forma diferente o que é diferente", dos "apoios às famílias numerosas" e da "tradição". Sobre o que significa o "ataque à família" não foram nunca capazes de produzir um argumento, ainda que estéril. O que, parecendo que não, ajuda a perceber muita coisa.

Diz-me com quem andas

Os cartazes que ilustraram a manifestação contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo falam por si. Aquela não foi uma manifestação pelo referendo, foi uma manifestação contra a lei recentemente aprovada. Não havia ali ninguém que, no caso de vir a existir um referendo, defenda o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esse, mais do que os eufemismos e subterfúgios de retórica, é o ponto que os une. Pela Avenida da Liberdade, triste ironia toponímica, desfilaram monárquicos, católicos, conservadores, reaccionários e fascistas. Ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo não funde todos estes grupos sociais, embora os tenha unido. Mais, ninguém pode impedir pessoas e grupos de se manifestarem livremente. Mas também ninguém impede ninguém de se ir embora se não gostar das companhias. Este sábado, pessoas como Maria José Nogueira Pinto e José Ribeiro e Castro decidiram caminhar lado a lado com neo-nazis. Enquanto não se demarcarem das alarvidades a que emprestaram a cara e o nome, manterão uma nódoa iniludível na sua figura pública.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Um mau começo é apenas um mau começo

Mal se soube da candidatura de Fernando Nobre para a PR, surgiram rumores que a davam como não mais que um instrumento de vingança da ala soarista do PS contra Manuel Alegre. Os apoios já comprometidos com Alegre, sobretudo na área do BE, para além de questionarem o perigo de haver duas candidaturas a disputar o mesmo espectro eleitoral, logo criticaram a ingenuidade ou os propósitos de Fernando Nobre, reduzindo-o a um testa-de-ferro.

A ser verdade que a candidatura de Fernando Nobre tem na sua origem a ala soarista (o que ainda não ficou demonstrado - rumores são rumores), ninguém sai bem nesta fotografia. Mário Soares e os soaristas ficam mal na vingançazinha cometida. Alegre fica mal por nem sequer ser capaz de unir o partido. E Fernando Nobre, a quem se deve reconhecer a experiência e a inteligência para saber perfeitamente ao que ia numa candidatura promovida pelos soaristas, fica mal por escolher lançar-se nesta aventura com estas condicionantes.

Quanto ao resto, dizer, numa eleição de carácter pessoal, que determinada pessoa não devia avançar é completamente absurdo. Ainda mais absurdo se torna se essa afirmação vier de apoiantes de Alegre, sabendo o que aconteceu há cinco anos. Estas são as regras do jogo e ninguém disse que eram fáceis. Em segundo lugar, nem sequer é líquido que a candidatura de Nobre arrume com as hipóteses da esquerda. Não é só ao campo eleitoral de Alegre que Fernando Nobre pode ir buscar votos. E basta que uma destas candidaturas desista e mobilize os seus apoiantes para a outra para que os problemas de Cavaco ganhem toda uma outra dimensão.

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Downhill

Portugal está transformado num país de desconfiados. Por princípio, desconfia-se. E parecem ser ainda poucos os que percebem o salto qualitativo descendente, em termos civilizacionais, que esta forma de estar prenuncia.

Campo minado

A comunicação social é o principal mediador entre o indivíduo e a realidade social e política que o rodeia. O país enfrenta numerosos problemas e um dos maiores é o de, para se inteirar dos numerosos problemas que enfrenta, depender de uma corporação minada por incompetência em doses catastróficas.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

O falso moralista

Um político a faltar à sua palavra não constitui propriamente uma novidade. Os problemas para Paulo Rangel, de um ponto de vista muito pragmático, não deveriam começar aí. A maior ameaça que Rangel enfrenta não é, então, a de estar disponível para a liderança do PSD, depois de ter "peremptoriamente" colocado de parte essa hipótese, mas a de ter ocupado uma boa parte da sua campanha para as europeias, no Verão do ano passado, a exigir a outros um compromisso que ele próprio quebrou ao fim de pouco mais de seis meses. O eleitorado suporta melhor os mentirosos do que os falsos moralistas e o PSD tem o dever de perceber isto. Se não o fizer antes, os eleitores certamente não terão pruridos em explicar-lho nas urnas.

Do regresso

Não se deve regressar aos locais onde se foi feliz, dizem. Enganam-se. Deve-se sempre regressar aos locais onde se foi feliz.

Bios Politikos

Agora também com posts!

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Pessoas, plantas, animais e coisas

Compreende-se que uma pessoa que construiu para si um determinado significado do casamento tenha dificuldades em aceitar que se ponha isso em causa. Compreende-se, mas não é procedente. O casamento, destituído dos seus significados simbólicos, que devem ficar com cada um, deve ser, sobretudo, uma união administrativa e económica. Se se pretende que o casamento consagre um enquadramento legal que beneficie a constituição de família numa óptica de progenitura, por muito que se lamente, não passa, então, de um conceito ultrapassado e que deve ser abandonado. O casamento deve ser uma forma legal de duas pessoas dizerem que querem partilhar uma vida e uma economia familiar. Não é um papel, que agora nem sequer se assina, que confere estabilidade a uma relação para a manter de pé ou para gerar filhos num ambiente favorável.

A protecção à família não se faz com papéis. Faz-se com medidas concretas, como taxas de IRS mais baixas para casais e ainda mais baixas para casais com filhos; faz-se com uma rede de creches e infantários com cobertura nacional e para a qual não seja preciso inscrever as crianças com um ano de antecedência; faz-se com horários de trabalho mais flexíveis para pais e mães; faz-se com uma licença parental partilhada discricionariamente pelos pais (para acabar com a discriminação laboral das mulheres pelos meses que vão passar em casa); faz-se construindo ginásios e centros de actividades extra-curriculares nas escolas públicas (para que os pais deixem de andar a fazer sprints pelo trânsito das cidades de casa para a escola e da escola para a piscina e da piscina para a equitação e da equitação para a aula de música). Faz-se com medidas concretas que têm efeitos práticos na vida das pessoas e não se limitam a ser um manifesto de boas intenções.

Aceita-se que o casamento integre uma dimensão afectiva e reconheça um contrato de fidelidade mútua, tal como acontece actualmente, embora também não deva repugnar que isso pudessem ser adendas ao contrato celebrado, do mesmo modo que o regime de comunhão de bens é decisão dos nubentes. Duas pessoas podem considerar que a fidelidade conjugal não é um factor de peso na sua relação e não parece que não devam casar-se por causa disso. A forma como cada casal decide viver a sua intimidade não deve ser objecto de interferência do Estado, a menos que estes assim o desejem, e o expressem manifestamente, integrando-o no contrato celebrado. Deve ser esse o papel desempenhado pelo Estado na instituição do casamento: reconhecer publicamente uma forma de relação, funcionando como instância de apelo em caso de quebra do acordado.

Para fim de argumentação, a estabilidade familiar, uma noção tão cara aos sectores mais conservadores da sociedade, não se garante pela heterossexualidade dos membros do casal, mas pela opção de vida que estes tomam. Não se definem direitos, ou ausência deles, em função da suposta pertença a um determinado grupo. A unidade relevante perante a lei deve ser sempre o indivíduo e não se lhe podem definir atributos a priori, independentemente da relação concreta com a realidade de vida dessa mesma pessoa. Se duas pessoas - um homem e uma mulher, dois homens, ou duas mulheres - querem assumir os compromissos que o casamento confere e aceder aos direitos que consagra, não se percebe como a orientação sexual deva ser um entrave. Quanto às plantas, aos animais e às coisa, segundo consta, ainda não são sujeitos passíveis de IRS e, uns mais que outros, denotam alguma dificuldade em manifestar o seu consentimento em relação aos contratos a celebrar, pelo que podemos, para já, deixá-los de lado nesta equação.

Adenda: Este post nasceu inspirado por esta troca de comentários.

terça-feira, 3 de novembro de 2009

Recomendação

Já recomendados pela Helena, três posts excelentes da Rita Dantas (1, 2, 3).

Um mau profissional

Como seria de esperar, a direita estrebuchou com a saída de José Manuel Fernandes do Público. Caiu-lhe mal uma declaração de intenções, em forma de editorial, a constatar o óbvio: que o Público se afastou demasiado do jornal de referência que já foi e que é necessário arrepiar caminho se pretende voltar a sê-lo.

Durante a direcção de JMF, o Público perdeu leitores, perdeu colaboradores, perdeu o rigor, perdeu qualidade, perdeu credibilidade e perdeu a vergonha. Dizer que, para os que celebram a saída de JMF, o problema era o seu alinhamento político à direita é um equívoco, ou uma falácia. O problema de JMF, como qualquer pessoa provida de equilíbrio e bom senso atestará, foi o hipotecar um património jornalístico rico e reconhecido em troca de um projecto político (mal) encapotado. O problema de JMF nunca foram os editoriais que escreveu, mas a cultura de subalternização dos princípios deontológicos e éticos do jornalismo em função dos seus interesses ideológicos que implementou.

Para além de tudo o que de mau aconteceu ao Público sob a batuta de JMF, convém relembrar, por exemplo, que, com ele, este foi um jornal onde saber escrever não era um requisito para chegar a editor e onde a fabricação de contextos falsos para encobrir fontes não suscitou quaisquer pudores.

Ninguém aponta o dedo a JMF por ser de direita. Aponta-se-lhe o dedo por ser mau profissional. Somente.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Mudar de ares

O primeiro editorial da nova era do Público não hesita em, descaradamente, terminar com uma dose muito generosa de graxa aos seus leitores. Faz bem. Os leitores do Público foram tomados por parvos demasiadas vezes nos últimos tempos. Sabe-lhes bem a mudança.