sexta-feira, 14 de maio de 2010
O alvo
Existe uma grande diferença entre reconhecer que o Estado gasta muito dinheiro com as remunerações dos seus funcionários e, dessa constatação, concluir que o Estado gasta demasiado dinheiro com remunerações. Portugal não é um país de salários elevados para o trabalhador médio. Aliás, onde o país se destaca com remunerações acima da média europeia é nos altos cargos dirigentes e nos altos cargos de gestão. É verdade que o vencimento médio dos funcionários públicos é superior ao vencimento médio nacional, mas é preciso ter em conta que o salário médio nacional faz corar de vergonha qualquer cidadão da Europa central. Para se aceitar que o Estado gasta demasiado dinheiro com remunerações torna-se necessário que fique demonstrado que paga demasiado, ou que paga a demasiados, e que poderia fazer o mesmo, com a mesma eficácia, por menos dinheiro. Lamentavelmente para os arautos do corte a direito na função pública, um funcionalismo público bem pago e qualificado sempre foi um dos sinais de um Estado forte e desenvolvido. Ou, vistas bem as coisas, talvez seja precisamente esse o alvo a atacar.
Embirrar
Há quem embirre com a Administração Pública e com os seus funcionários. E há quem leve essa embirração a níveis irracionais. Só assim se entende que se defenda que os funcionários públicos são as únicas pessoas na Europa que "vivem à margem da crise que varre o país e a Europa". Isto seria verdade se os funcionários públicos não descontassem para o IRS, como toda a gente, e não fossem também eles afectados pelas alterações anunciadas ontem. As medidas anunciadas por Sócrates são duríssimas, injustas e, até certo ponto, eventualmente contraproducentes. Mas, tirando as PME, tocam a quase todos. Reduzir os salários da função pública prejudicaria um único grupo de profissionais, sem quaisquer critérios de rigor e justiça social.
Não perceber
O que Mário Soares disse ao El País foi que a melhor arma para combater o terrorismo é o humanismo e o diálogo possível. Ou seja, uma política externa que respeite a dignidade do ser humano e os seus direitos e um diálogo com os sectores sociais e políticos como forma de diminuir ou erradicar as bases de apoio popular do terrorismo. Não falou em dialogar com terroristas, muito menos em negociar o que quer que seja. Pode ser que o Jorge Costa não perceba a língua dos nossos vizinhos. Ou pode ser que, simplesmente, não perceba.
segunda-feira, 3 de maio de 2010
Para começo de discussão
Dois posts absolutamente imperdíveis sobre o 1º de Maio em Berlim:
Notícias ao fim da tarde
Ontem em Berlim
Às perguntas que a Helena já levantou, eu juntaria mais duas. Deve a democracia acolher no seu seio as mais reaccionárias e violentas forças anti-democráticas? Devem a cidade de Berlim, a Alemanha e a Europa assistir impávidas enquanto o neo-nazismo se passeia pelas suas ruas?
Notícias ao fim da tarde
Ontem em Berlim
Às perguntas que a Helena já levantou, eu juntaria mais duas. Deve a democracia acolher no seu seio as mais reaccionárias e violentas forças anti-democráticas? Devem a cidade de Berlim, a Alemanha e a Europa assistir impávidas enquanto o neo-nazismo se passeia pelas suas ruas?
quinta-feira, 29 de abril de 2010
O não-caso
Os únicos pontos que merecem discussão naquilo a que os jornais ingleses decidiram baptizar como Bigotgate são a legitimidade - ou falta dela, para ser mais correcto - e a impunidade dos órgãos de comunicação social no tratamento da conversa particular mantida entre Gordon Brown e um elemento da sua equipa de campanha. Muito mais importante do que discutir se a eleitora que interpelou Brown tem razão no que disse ou se o comentário do primeiro-ministro pode ser considerado ofensivo, é reflectir sobre os limites que todos os dias são ultrapassados por uma comunicação social ávida de sangue para as manchetes e para o horário nobre, indiferente ao mau serviço que presta ao jornalismo e à democracia.
Helen Keller School of Economics
Vão-se multiplicando os conselhos que, para vencer a crise, propõem cortes ou congelamentos salariais e redução dos apoios sociais. Apesar do contentamento demonstrado pelas associações patronais, não é preciso um mestrado em Economia para perceber os efeitos nefastos que estas medidas trazem para as famílias. Quando o consumo se retrair brutalmente e as pessoas deixarem de ser capazes de pagar os créditos que contraíram, é todo o sistema económico português que entra em colapso. Enganam-se todos os que pensam o contrário ou que acreditam que uma sociedade pobre e sem esperança é solo propício para consolidação orçamental e uma economia forte.
quarta-feira, 28 de abril de 2010
How to lose friends and alienate people
Este post parece ter despertado algumas invejas. Não é caso para tanto. Já se sabe, uns dias correm melhor do que outros. Hoje, por exemplo, a água do mar não estava tão boa como ontem.
Demagogia por demagogia
Uma União Europeia a duas velocidades e que fragilize a moeda única é inaceitável. A Alemanha deve abandonar o Euro.
Admirável Mundo Novo (2)
"(O)s Livros do Dia são da responsabilidade das editoras, pelo que só poderemos divulgar a informação que nos for transmitida pelas mesmas."
Nada a que o frequentador do site da Feira nos últimos anos não esteja já tristemente habituado. Por muito que se goste de livros e da sua Feira e se queira elogiar, organização e editoras não tornam a tarefa fácil.
Nada a que o frequentador do site da Feira nos últimos anos não esteja já tristemente habituado. Por muito que se goste de livros e da sua Feira e se queira elogiar, organização e editoras não tornam a tarefa fácil.
Admirável Mundo Novo
O site oficial da 80ª Feira do Livro de Lisboa informa que "brevemente" estará disponível. Como estamos a menos de 24 horas da abertura, calcula-se que o "brevemente", de facto, queira dizer "amanhã". Mas nem tudo está perdido. A Feira do Livro tem página no Facebook. E aí o Sherlock Holmes que habita em cada um de nós rejubila ao confirmar que "o site da Feira do Livro estará online a partir de amanhã".
Alguém explique a esta gente que o século XXI começou há quase uma década e que não é para isto que servem a internet e as redes sociais.
Alguém explique a esta gente que o século XXI começou há quase uma década e que não é para isto que servem a internet e as redes sociais.
terça-feira, 27 de abril de 2010
sexta-feira, 16 de abril de 2010
Dúvidas diplomáticas
É natural e comum um chefe de Estado enxovalhar os órgãos de soberania de outro país enquanto recebe o chefe de Estado desse mesmo país? É natural e comum que o segundo reaja com silêncio e depois candura e compreensão aos ataques do primeiro?
quinta-feira, 15 de abril de 2010
Um duplo erro
No mercado de trabalho, a relação de poder pende favoravelmente para as entidades empregadoras. Se não fosse por outras razões, o simples facto de haver mais procura do que oferta de empregos chegaria para compreender o que se passa. A isto junta-se uma realidade económica e social que penaliza fortemente o desemprego. O desempregado sofre um estigma social enorme, perde poder de compra e vê piorar, com o passar do tempo, as probabilidades de conseguir outro emprego.
Muito embora a retórica demagógica de direita equipare o desemprego subsidiado à preguiça, a verdade é que a maior parte das pessoas nessa situação preferiria encontrar um emprego decente e dignamente remunerado a passar os seus dias a olhar para as paredes do quarto. Como quanto mais tempo se passa desempregado mais baixa é a probabilidade de se ultrapassar essa situação, com o passar dos meses - por vezes, com o passar dos anos -, o desespero e a desmotivação aumentam exponencialmente. O subsídio de desemprego pode durar, no máximo, sensivelmente três anos, mas um crédito automóvel chega facilmente aos cinco ou seis anos e um crédito habitação pode ir até aos quarenta anos. A prazo, a verdade é que as necessidades financeiras pressionam qualquer desempregado.
Há uma razão social e moral para existirem protecções como o subsídio de desemprego, o rendimento social de inserção, o salário mínimo e as cargas horárias máximas de trabalho. Sem este tipo de bases mínimas, as pressões sobre todos os que procuram emprego conduziriam a uma espiral descendente da oferta de condições pelos empregadores. Medidas como estas destinam-se a introduzir patamares de justiça e dignidade abaixo dos quais a sociedade não reconhece legitimidade moral às condições de vida proporcionadas aos seus membros.
A liderança de Pedro Passos Coelho escolheu, simbólica e sintomaticamente, começar por atacar os mais fracos. Por uma questão de justiça e de modelo social e cultural, nunca deveria ganhar a oportunidade de implementar as violentas medidas que preconiza. Neste momento, com 10% de taxa de desemprego e com muitos mais portugueses que não sabem o dia de amanhã, são pelo menos 500.000 eleitores com boas razões para não votarem PSD. O tiro de partida de Passos Coelho revela, afinal, não ser mais do que um erro social e político.
Muito embora a retórica demagógica de direita equipare o desemprego subsidiado à preguiça, a verdade é que a maior parte das pessoas nessa situação preferiria encontrar um emprego decente e dignamente remunerado a passar os seus dias a olhar para as paredes do quarto. Como quanto mais tempo se passa desempregado mais baixa é a probabilidade de se ultrapassar essa situação, com o passar dos meses - por vezes, com o passar dos anos -, o desespero e a desmotivação aumentam exponencialmente. O subsídio de desemprego pode durar, no máximo, sensivelmente três anos, mas um crédito automóvel chega facilmente aos cinco ou seis anos e um crédito habitação pode ir até aos quarenta anos. A prazo, a verdade é que as necessidades financeiras pressionam qualquer desempregado.
Há uma razão social e moral para existirem protecções como o subsídio de desemprego, o rendimento social de inserção, o salário mínimo e as cargas horárias máximas de trabalho. Sem este tipo de bases mínimas, as pressões sobre todos os que procuram emprego conduziriam a uma espiral descendente da oferta de condições pelos empregadores. Medidas como estas destinam-se a introduzir patamares de justiça e dignidade abaixo dos quais a sociedade não reconhece legitimidade moral às condições de vida proporcionadas aos seus membros.
A liderança de Pedro Passos Coelho escolheu, simbólica e sintomaticamente, começar por atacar os mais fracos. Por uma questão de justiça e de modelo social e cultural, nunca deveria ganhar a oportunidade de implementar as violentas medidas que preconiza. Neste momento, com 10% de taxa de desemprego e com muitos mais portugueses que não sabem o dia de amanhã, são pelo menos 500.000 eleitores com boas razões para não votarem PSD. O tiro de partida de Passos Coelho revela, afinal, não ser mais do que um erro social e político.
quarta-feira, 14 de abril de 2010
Tão simples como isto
Quem quer acompanhar a visita de Bento XVI a Portugal devia tirar dias de férias para fazê-lo.
terça-feira, 13 de abril de 2010
Lógica social
Que o PSD de Passos Coelho queira cortar nos apoios sociais do Estado, é uma questão ideológica. Que não perceba que as pessoas acedem aos apoios sociais como o subsídio de desemprego porque têm carreira contributiva, já é uma questão de lógica. Ou da falta dela. Quando se desconta para a Segurança Social ganha-se o direito de ser assistido num momento de necessidade. A contribuição está feita. Não há nada a devolver. De quem não percebe este princípio simples do funcionamento do Estado social não se pode esperar boa coisa.
segunda-feira, 12 de abril de 2010
Violento e destrutivo
Pedro Arroja, pessoa para a qual parecem sempre faltar adjectivos adequados, conseguiu a proeza de colocar meia blogosfera a reagir a mais uma das suas inanidades. Num post que é todo ele uma falácia, merecem especial atenção estes dois parágrafos:
"Um homem que seja verdadeiramente um homem, um homem heterossexual, nunca deseja que o mundo morra consigo. Esse homem deixa, em princípio, filhos e aquilo que ele deseja é que, à sua morte, o mundo seja pacífico e próspero, porque esse é o seu desejo para os seus filhos.
É diferente com um homossexual. Depois dele, não há nada. Não faz diferença nenhuma que o mundo morra com ele. Os homossexuais são, por isso, pessoas potencialmente violentas, os destruidores por excelência."
O principal aspecto que sobressai nestas frases é a instrumentalização utilitarista da reprodução sexual como factor gerador de interesse pelo futuro do mundo. Arroja não reconhece, ou recusa reconhecer, o homossexual como um ser dotado de capacidade moral. Na realidade, dentro do seu raciocínio, ou da forma tosca como o expõe, nem aos heterossexuais reconhece essa capacidade.
Por um lado, ao ligar o interesse pelo futuro do mundo ao interesse imediato com o futuro dos filhos, apaga-se toda a riquíssima teia de relacionamentos humanos e afectos gerados pela proximidade. Mas quem não deixa filhos pode deixar pais, irmãos, cônjuges, amantes e amigos. O interesse pelo futuro destas pessoas é, obviamente, também o interesse pelo futuro do mundo. Negar ou não reconhecer esta realidade é negar a humanidade destas relações.
Mas ainda que uma pessoa não deixe família ou amigos, é preciso recusar-lhe toda e qualquer capacidade de julgamento moral, de distinção entre o bem e o mal, para não lhe atribuir nenhum interesse pelo futuro do mundo. Para Pedro Arroja, o homossexual e o heterossexual sem filhos são pessoas sem capacidade para se relacionarem com a restante humanidade. O sofrimento alheio não lhes diria nada, uma vez que tudo se resume ao interesse utilitarista com a prole.
Ao negar-se a uma pessoa a capacidade de relacionamento com a humanidade, nega-se a própria humanidade dessa pessoa e, acto contínuo, decreta-se a sua exclusão dessa comunidade. Temos, assim, um mundo de pessoas de primeira e pessoas de segunda - semi-pessoas ou mesmo não-pessoas.
O palavreado de Pedro Arroja faz as delícias de fanáticos e fundamentalistas e encerra em si tudo o que pretende atacar. É violento e destrutivo, preconceituoso, segregacionista e, haja coragem para o afirmar, potencialmente genocida. Os grandes massacres do século XX não começaram de forma muito diferente.
"Um homem que seja verdadeiramente um homem, um homem heterossexual, nunca deseja que o mundo morra consigo. Esse homem deixa, em princípio, filhos e aquilo que ele deseja é que, à sua morte, o mundo seja pacífico e próspero, porque esse é o seu desejo para os seus filhos.
É diferente com um homossexual. Depois dele, não há nada. Não faz diferença nenhuma que o mundo morra com ele. Os homossexuais são, por isso, pessoas potencialmente violentas, os destruidores por excelência."
O principal aspecto que sobressai nestas frases é a instrumentalização utilitarista da reprodução sexual como factor gerador de interesse pelo futuro do mundo. Arroja não reconhece, ou recusa reconhecer, o homossexual como um ser dotado de capacidade moral. Na realidade, dentro do seu raciocínio, ou da forma tosca como o expõe, nem aos heterossexuais reconhece essa capacidade.
Por um lado, ao ligar o interesse pelo futuro do mundo ao interesse imediato com o futuro dos filhos, apaga-se toda a riquíssima teia de relacionamentos humanos e afectos gerados pela proximidade. Mas quem não deixa filhos pode deixar pais, irmãos, cônjuges, amantes e amigos. O interesse pelo futuro destas pessoas é, obviamente, também o interesse pelo futuro do mundo. Negar ou não reconhecer esta realidade é negar a humanidade destas relações.
Mas ainda que uma pessoa não deixe família ou amigos, é preciso recusar-lhe toda e qualquer capacidade de julgamento moral, de distinção entre o bem e o mal, para não lhe atribuir nenhum interesse pelo futuro do mundo. Para Pedro Arroja, o homossexual e o heterossexual sem filhos são pessoas sem capacidade para se relacionarem com a restante humanidade. O sofrimento alheio não lhes diria nada, uma vez que tudo se resume ao interesse utilitarista com a prole.
Ao negar-se a uma pessoa a capacidade de relacionamento com a humanidade, nega-se a própria humanidade dessa pessoa e, acto contínuo, decreta-se a sua exclusão dessa comunidade. Temos, assim, um mundo de pessoas de primeira e pessoas de segunda - semi-pessoas ou mesmo não-pessoas.
O palavreado de Pedro Arroja faz as delícias de fanáticos e fundamentalistas e encerra em si tudo o que pretende atacar. É violento e destrutivo, preconceituoso, segregacionista e, haja coragem para o afirmar, potencialmente genocida. Os grandes massacres do século XX não começaram de forma muito diferente.
domingo, 4 de abril de 2010
Spin
Há uns anos, o Bloguítica era um blogue que se dedicava a fazer análise política. Hoje em dia é um blogue se dedica a fazer combate político. Opção perfeitamente legítima, claro, e que nem sequer merece comentário adicional, mas que ajuda a enquadrar o último post do Paulo Gorjão. As declarações de Francisco Assis referem-se a um determinado contexto e as de Ricardo Rodrigues referem-se a outro completamente distinto. Algo razoavelmente simples de entender e que, com toda a certeza, não baralha ninguém. A pergunta que deve ser feita é se as notícias que têm vindo a público sobre o negócio dos submarinos, adquiridos no tempo do governo Durão/Portas, justificam, ou podem vir a justificar, uma comissão parlamentar de inquérito. O resto é spin.
quarta-feira, 31 de março de 2010
Certo, certíssimo
A polémica aquisição dos submarinos foi levada a cabo, em 2004, pela coligação PSD-PP. O Bloco de Esquerda, que "sempre alertou para a necessidade de 'transparência' em relação a este negócio" e se mostra "muito preocupado" e interessado na "busca da verdade", pede esclarecimentos rápidos ao governo PS. Faz todo o sentido.
Responsabilidade
Regressando aos temas da actualidade, um dos incontornáveis é o da pedofilia. A Igreja Católica, a este propósito, tem sido atacada por muitos lados, mas convém dizer claramente que, igualmente muitas vezes, de forma injusta. O problema que se coloca à Igreja não é o dos casos de padres pedófilos, da mesma forma que o problema que se coloca à política não é o dos políticos corruptos. Tanto a uma como a outra, as questões maiores que enfrentam são a do encobrimento e da impunidade.
Não é fácil conceber como um Estado de direito democrático pode, de forma aceitável, erradicar o crime - assuma ele a forma de pedofilia, tráfico de droga, homicídio, ou outra qualquer. Evidentemente, o sofrimento de uma só criança que seja é intolerável. Na ausência de informação que corrobore a ideia (com quase toda a probabilidade, errada) de que o celibato contribui de alguma forma para a pedofilia, importa compreender que esta última surge essencialmente ligada à figura da autoridade. Quer seja no meio familiar, quer seja em meios de socialização secundária, como escolas, orfanatos ou grupos religiosos, o que está em causa é a relação que se constitui entre os abusadores e as suas vítimas, uma relação de poder em que os primeiros o exercem quase na exclusividade. Podemos, eventualmente, discutir os méritos e deméritos deste tipo de relação para a formação da personalidade de uma criança. Mas isso, no âmbito do tema dos escândalos de pedofilia que têm visto a luz do dia, é iludir o principal. O que deve, em primeiro lugar, merecer atenção não é como foi isto acontecer, mas como foi possível conservar o silêncio tanto tempo.
Como foi possível encobrir e proteger crimes desta natureza? Como foi possível que ninguém tivesse sido responsabilizado judicialmente? Discutir a existência de uma crime numa sociedade livre é, muitas vezes, discutir o sexo dos anjos. O que se espera de uma democracia é o debate permanente e sem preconceitos dos seus processos de responsabilidade e responsabilização individual.
Não é fácil conceber como um Estado de direito democrático pode, de forma aceitável, erradicar o crime - assuma ele a forma de pedofilia, tráfico de droga, homicídio, ou outra qualquer. Evidentemente, o sofrimento de uma só criança que seja é intolerável. Na ausência de informação que corrobore a ideia (com quase toda a probabilidade, errada) de que o celibato contribui de alguma forma para a pedofilia, importa compreender que esta última surge essencialmente ligada à figura da autoridade. Quer seja no meio familiar, quer seja em meios de socialização secundária, como escolas, orfanatos ou grupos religiosos, o que está em causa é a relação que se constitui entre os abusadores e as suas vítimas, uma relação de poder em que os primeiros o exercem quase na exclusividade. Podemos, eventualmente, discutir os méritos e deméritos deste tipo de relação para a formação da personalidade de uma criança. Mas isso, no âmbito do tema dos escândalos de pedofilia que têm visto a luz do dia, é iludir o principal. O que deve, em primeiro lugar, merecer atenção não é como foi isto acontecer, mas como foi possível conservar o silêncio tanto tempo.
Como foi possível encobrir e proteger crimes desta natureza? Como foi possível que ninguém tivesse sido responsabilizado judicialmente? Discutir a existência de uma crime numa sociedade livre é, muitas vezes, discutir o sexo dos anjos. O que se espera de uma democracia é o debate permanente e sem preconceitos dos seus processos de responsabilidade e responsabilização individual.
Das férias 2
Porque um blogue também serve para estas coisas, seria uma enorme injustiça se não aproveitasse este espaço para o elogio dos anfitriões. Podia dizer que já não há pessoas assim, mas não estaria a ser sério. Os membros mais novos da família provam não só que continua e continuará a haver pessoas assim, como que quem sai aos seus não degenera. Onde vai aquela gente buscar a energia para levar a vida preenchida que tem e ainda acomodar e apaparicar três hóspedes durante quase duas semanas é algo que ainda me escapa. Suspeito que tenha algo a ver com muesli e comida biológica. Isso e o coração desmesurado que têm no meio do peito a bombear-lhes, em doses iguais, oxigénio e carinho.
Das férias
Há dois tipos de férias. Aquelas em que vamos para locais um bocadinho piores que o nosso e aquelas em que vamos para locais um bocadinho melhores que o nosso. Nestas duas semanas de ausência, optei pelo segundo tipo. E cunhei um novo termo para uso pessoal: turismo político. Visitar cidades e países onde as instituições sociais e políticas funcionam de uma forma que suscita uma certa inveja.
domingo, 14 de março de 2010
Um partido com humor, mesmo que involuntário
O PSD, que anda há ano e meio com a "asfixia democrática" na boca, aprovou uma alteração de estatutos que impede a crítica política interna. Faltar à lealdade para com o programa, estatutos, directrizes e regulamentos do partido pode dar direito a suspensão ou expulsão. A proposta, que já de si é bastante ridícula, surge num timing perfeitamente anedótico.
sexta-feira, 12 de março de 2010
Coisas que me escapam
O celibato potencia a pedofilia porque...?
Uma reflexão e uma pergunta
Para reflectir: este pequeno texto de João Lopes.
A pergunta: as lógicas que presidem ao debate político nos blogues são muito diferentes do que está a acontecer ao debate político nas televisões?
A pergunta: as lógicas que presidem ao debate político nos blogues são muito diferentes do que está a acontecer ao debate político nas televisões?
Trade-off
Foi lançada uma petição pelo cinema português. Do diagnóstico ali feito ao estado do cinema em Portugal, parecem-me faltar dois pontos bastante relevantes. Mesmo dando por garantido que sem dinheiro dificilmente há milagres (com honrosas excepções), faltou dizer que há projectos de qualidade abaixo de sofrível nos quais é obsceno injectar dinheiro de quem quer que seja sem serem os próprios promotores. E faltou equacionar o espectador como fonte de receitas que viabilizem os projectos para lá dos apoios públicos.
Isto dito, e concordando com as boas intenções expressas, gostaria de ver satisfeito apenas um desejo antes de juntar o meu nome ao das quase 850 pessoas que assinaram a petição até este momento. Como é de dinheiros públicos que falamos, gostaria que os promotores desta petição abrissem as portas das suas produtoras, já na próxima segunda-feira, às inspecções das Finanças, da Segurança Social e da ACT. Façam-me esta gentileza e eu assino na própria hora.
Isto dito, e concordando com as boas intenções expressas, gostaria de ver satisfeito apenas um desejo antes de juntar o meu nome ao das quase 850 pessoas que assinaram a petição até este momento. Como é de dinheiros públicos que falamos, gostaria que os promotores desta petição abrissem as portas das suas produtoras, já na próxima segunda-feira, às inspecções das Finanças, da Segurança Social e da ACT. Façam-me esta gentileza e eu assino na própria hora.
terça-feira, 9 de março de 2010
segunda-feira, 8 de março de 2010
Género
Porque ainda há muito quem não saiba a diferença entre as duas coisas, e porque hoje o dia se proporciona a isso, aqui fica uma pequena clarificação. As diferenças de sexo são biologicamente determinadas. As diferenças de género são socialmente definidas. O género é um conceito empregue pelas ciências sociais, não é um tique linguístico desprovido de conteúdo, como por vezes se quer fazer passar. Desvalorizar ou ridicularizar o uso do termo revela apenas ignorância e preconceitos.
Declaração de voto
Cavaco quer recandidatar-se a Belém? Sou contra.
domingo, 7 de março de 2010
Apostas arriscadas
"(O) Público distinguiu-se por ser um jornal com alma, com emoção, por fazer um jornalismo frontal, mesmo quando para isso passou por apostas editoriais e informativas arriscadas."
José Manuel Fernandes, condensando 11 anos à frente do Público num fantástico eufemismo.
José Manuel Fernandes, condensando 11 anos à frente do Público num fantástico eufemismo.
sábado, 6 de março de 2010
sexta-feira, 5 de março de 2010
Nos 20 anos do Público
Três perguntas:
- É muito difícil garantir regularmente um jornal com o nível de conteúdos da edição de hoje?
- Luciano Alvarez ainda é editor de política do jornal?
- Quanto tempo se pode ser editor no Público sem saber escrever português?
- É muito difícil garantir regularmente um jornal com o nível de conteúdos da edição de hoje?
- Luciano Alvarez ainda é editor de política do jornal?
- Quanto tempo se pode ser editor no Público sem saber escrever português?
quarta-feira, 3 de março de 2010
Sexismo explícito é isto
Segundo o Público, a Apple acaba de lançar uma aplicação para o iPhone que pode ser usada por "todos os maridos que enganam as mulheres". Ficamos ansiosamente à espera do dia em que o Público noticie uma aplicação concebida para mulheres que enganam os maridos.
terça-feira, 2 de março de 2010
Estado de direito
O ataque aos direitos, liberdades e garantias, por natureza, mina os fundamentos do estado de direito. Quando não se respeita a fronteira entre o domínio público e o domínio privado, quando é a intolerância política a pautar a agenda, quando se reduz o outro a uma caricatura maniqueísta, quando se incentiva e premeia a delação, a sociedade que daí resulta vê destruída a rede que confere a cada um dos seus membros a segurança básica para participar na vida cívica. Há quem alimente este estado de coisas por interesses políticos, há quem o faça por interesses económicos e há quem o faça por manifesta falta de inteligência para perceber uns e outros. No meio da histeria, fala-se em sistemas de videovigilância, em acabar com sigilos profissionais e em tornar públicos os rendimentos privados. Viola-se grosseiramente a presunção de inocência e o direito à privacidade em troca de algo que até pode ser a justiça das milícias, mas nunca a justiça de um estado de direito democrático. É mais saudável a sociedade que aceita os preços da liberdade do que aquela na qual ninguém está a salvo da espionagem e da coacção.
Sarjeta
Um dos meus professores na faculdade, para ilustrar a importância do sentimento de proximidade social como factor de percepção do conteúdo das notícias, costumava dizer que lhe passavam sempre ao lado as notícias sobre crimes de sangue, excepto se a vítima fosse docente do ensino superior. Dentro desta lógica, a manchete de hoje do jornal i tem tudo para captar a atenção de quem escreve e acompanha blogues.
Rapidamente se percebe, lendo o Jumento, mas também o Eduardo Pitta e o Tomás Vasques, entre outros, que o texto assinado por Paulo Pinto Mascarenhas é tudo menos trabalho de jornalismo. São sonegados e deturpados factos relevantes e atenta-se contra o direito à privacidade a troco de umas letras gordas para vender papel.
Há dias, o jornal Metro avançou com uma capa que é outro marco histórico da degradação da objectividade e sentido crítico no meio jornalístico. Tanto no caso do Metro como no do i, temos artigos com direito a manchete na capa do jornal, o que implica o compromisso de muito mais do que o autor da peça. Uma capa não se define à revelia dos editores e do director da publicação. Num e noutro caso, foi toda uma equipa que contribuiu de forma activa e consciente para um resultado que serve apenas o propósito de desinformação que tem vindo a instalar-se na comunicação social.
A ética e o profissionalismo das redacções estão na sarjeta.
Rapidamente se percebe, lendo o Jumento, mas também o Eduardo Pitta e o Tomás Vasques, entre outros, que o texto assinado por Paulo Pinto Mascarenhas é tudo menos trabalho de jornalismo. São sonegados e deturpados factos relevantes e atenta-se contra o direito à privacidade a troco de umas letras gordas para vender papel.
Há dias, o jornal Metro avançou com uma capa que é outro marco histórico da degradação da objectividade e sentido crítico no meio jornalístico. Tanto no caso do Metro como no do i, temos artigos com direito a manchete na capa do jornal, o que implica o compromisso de muito mais do que o autor da peça. Uma capa não se define à revelia dos editores e do director da publicação. Num e noutro caso, foi toda uma equipa que contribuiu de forma activa e consciente para um resultado que serve apenas o propósito de desinformação que tem vindo a instalar-se na comunicação social.
A ética e o profissionalismo das redacções estão na sarjeta.
segunda-feira, 1 de março de 2010
Esguichos de Miguel Silva
Concluindo, a emancipação da mulher e o planeamento familiar dão cabo da natalidade (os baixos salários e a precariedade laboral são conceitos estranhos ao senhor tenente-coronel piloto aviador). A imigrantada vem dar-nos cabo do país. Gastamos dinheiro estupidamente com desempregados, toxicodependentes e presidiários e ainda queremos impor a educação sexual nas escolas. Mas, acima de tudo, o que indigna o senhor tenente-coronel piloto aviador é que se tenha mandado tirar os crucifixos das escolas e que se tenha aprovado o casamento entre pessoas do mesmo sexo. O senhor tenente-coronel piloto aviador escreveu muito no seu delírio, mas o seu texto pode resumir-se numa única palavra: foda-se. Um longo, arrastado e estupefacto foda-se.
Os meus emigrantes são melhores que os teus
"A tudo isto é necessário juntar os fluxos emigratórios e imigratórios. Isto é, por um lado os países ocidentais vêem chegar ao seu território milhões de seres de outros continentes que estão a desfigurar as suas nações e vêem partir, por outro lado, os seus melhores cérebros, que procuram realizações pessoais em países mais avançados, ou de oportunidade."
Portanto, os seres de outros continentes vêm desfigurar as nações ocidentais. Já os nossos emigrantes partem em busca de realizações pessoais ou de oportunidades. Ora, assim de repente, o que é que diferencia facilmente os seres de outros continentes do pessoal que habita os países que eles estão a desfigurar? Caramba, será a cor da pele? Olha, tu queres ver que o senhor tenente-coronel piloto aviador afinal é mesmo racista?
Portanto, os seres de outros continentes vêm desfigurar as nações ocidentais. Já os nossos emigrantes partem em busca de realizações pessoais ou de oportunidades. Ora, assim de repente, o que é que diferencia facilmente os seres de outros continentes do pessoal que habita os países que eles estão a desfigurar? Caramba, será a cor da pele? Olha, tu queres ver que o senhor tenente-coronel piloto aviador afinal é mesmo racista?
Um pequena diferença
"A demografia tem sido escamoteada com os nascimentos de filhos de emigrantes o que não é propriamente a mesma coisa que nascerem nacionais. A propaganda que favorece e escamoteia tudo isto tomou o nome de “multiculturalismo”. Não estamos a defender ideias racistas (...)."
Não, de facto, o senhor tenente-coronel piloto aviador Brandão Ferreira não está a defender ideias racistas. A isto chama-se xenofobia.
Não, de facto, o senhor tenente-coronel piloto aviador Brandão Ferreira não está a defender ideias racistas. A isto chama-se xenofobia.
Grandes mistérios do Universo
Onde foi o Público desencantar o senhor tenente-coronel piloto aviador João José Brandão Ferreira?
sábado, 27 de fevereiro de 2010
Um Presidente da República monárquico?
Talvez o único lugar para o qual um monárquico não deva candidatar-se seja o de Presidente da República. Pode fazê-lo, mas a sua consciência devia ditar-lhe que não o fizesse. Se Fernando Nobre simpatiza com o regime monárquico e, mesmo assim, decide avançar para a corrida a Belém, o mínimo que se lhe pede é que explique cabalmente o seu pensamento sobre os dois regimes e que se comprometa, desde já, com uma linha de acção tão clara quanto possível. As meias-tintas, neste caso, não são uma opção.
quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010
Portugueses vêem filmes de acção a mais
Segundo um estudo encomendado pela Associação Sindical dos Profissionais da Polícia, a maioria dos entrevistados gostaria de ver a polícia usar a força com maior regularidade. As forças policiais são um instrumento de manutenção de ordem e segurança pública. Não são uma instância de aplicação de justiça. Para isso temos tribunais e códigos específicos. A diferença entre um filme de acção de Hollywood e o que é a actuação dentro dos limites da lei e da razoabilidade do uso da força devia ser evidente para a maior parte das pessoas e reside nos fundamentos do Estado de Direito. Mas talvez o mais espantoso desta atitude seja a confiança maniqueísta dos entrevistados. Uma boa razão para não enveredar por soluções de força e que limitam os direitos e garantias dos indivíduos é saber que quanto maior é o grau de arbitrariedade no uso da força, menor é a garantia que temos de não sermos nós as vítimas desse poder em tão má hora delegado.
segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010
Maus caminhos
O CDS quer sistemas de videovigilância e reforço policial em Torres Vedras. A proposta esbarra em critérios de eficácia e eficiência, mas isso não detém um partido que tem feito da paranóia securitária um tema permanente de campanha.
A ideia de que podemos ter sociedades sem crime, ou sem corrupção, ou sem vícios, foi e continua a ser uma das ideias mais perigosas em termos políticos. Não há, não pode haver, sociedades sem crimes. Podemos apenas ter sociedades totalitárias e sociedades sem liberdade de informação. E é só.
A ideia de que podemos ter sociedades sem crime, ou sem corrupção, ou sem vícios, foi e continua a ser uma das ideias mais perigosas em termos políticos. Não há, não pode haver, sociedades sem crimes. Podemos apenas ter sociedades totalitárias e sociedades sem liberdade de informação. E é só.
Parecendo que não
Obviamente, o casamento de pessoas do mesmo sexo não é um ataque nem prejudica de forma alguma a família. As famílias - todas - continuarão a viver as suas vidas independentemente de quem casa com quem. O “ataque à família” é apenas um slogan vazio e populista ao qual ninguém foi ainda capaz de conferir substância. Quando convidados a explicarem-se, os pretensos defensores da família caem constantemente na cartilha do "tratar de forma diferente o que é diferente", dos "apoios às famílias numerosas" e da "tradição". Sobre o que significa o "ataque à família" não foram nunca capazes de produzir um argumento, ainda que estéril. O que, parecendo que não, ajuda a perceber muita coisa.
Diz-me com quem andas
Os cartazes que ilustraram a manifestação contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo falam por si. Aquela não foi uma manifestação pelo referendo, foi uma manifestação contra a lei recentemente aprovada. Não havia ali ninguém que, no caso de vir a existir um referendo, defenda o casamento entre pessoas do mesmo sexo. Esse, mais do que os eufemismos e subterfúgios de retórica, é o ponto que os une. Pela Avenida da Liberdade, triste ironia toponímica, desfilaram monárquicos, católicos, conservadores, reaccionários e fascistas. Ser contra o casamento entre pessoas do mesmo sexo não funde todos estes grupos sociais, embora os tenha unido. Mais, ninguém pode impedir pessoas e grupos de se manifestarem livremente. Mas também ninguém impede ninguém de se ir embora se não gostar das companhias. Este sábado, pessoas como Maria José Nogueira Pinto e José Ribeiro e Castro decidiram caminhar lado a lado com neo-nazis. Enquanto não se demarcarem das alarvidades a que emprestaram a cara e o nome, manterão uma nódoa iniludível na sua figura pública.
domingo, 21 de fevereiro de 2010
Um mau começo é apenas um mau começo
Mal se soube da candidatura de Fernando Nobre para a PR, surgiram rumores que a davam como não mais que um instrumento de vingança da ala soarista do PS contra Manuel Alegre. Os apoios já comprometidos com Alegre, sobretudo na área do BE, para além de questionarem o perigo de haver duas candidaturas a disputar o mesmo espectro eleitoral, logo criticaram a ingenuidade ou os propósitos de Fernando Nobre, reduzindo-o a um testa-de-ferro.
A ser verdade que a candidatura de Fernando Nobre tem na sua origem a ala soarista (o que ainda não ficou demonstrado - rumores são rumores), ninguém sai bem nesta fotografia. Mário Soares e os soaristas ficam mal na vingançazinha cometida. Alegre fica mal por nem sequer ser capaz de unir o partido. E Fernando Nobre, a quem se deve reconhecer a experiência e a inteligência para saber perfeitamente ao que ia numa candidatura promovida pelos soaristas, fica mal por escolher lançar-se nesta aventura com estas condicionantes.
Quanto ao resto, dizer, numa eleição de carácter pessoal, que determinada pessoa não devia avançar é completamente absurdo. Ainda mais absurdo se torna se essa afirmação vier de apoiantes de Alegre, sabendo o que aconteceu há cinco anos. Estas são as regras do jogo e ninguém disse que eram fáceis. Em segundo lugar, nem sequer é líquido que a candidatura de Nobre arrume com as hipóteses da esquerda. Não é só ao campo eleitoral de Alegre que Fernando Nobre pode ir buscar votos. E basta que uma destas candidaturas desista e mobilize os seus apoiantes para a outra para que os problemas de Cavaco ganhem toda uma outra dimensão.
A ser verdade que a candidatura de Fernando Nobre tem na sua origem a ala soarista (o que ainda não ficou demonstrado - rumores são rumores), ninguém sai bem nesta fotografia. Mário Soares e os soaristas ficam mal na vingançazinha cometida. Alegre fica mal por nem sequer ser capaz de unir o partido. E Fernando Nobre, a quem se deve reconhecer a experiência e a inteligência para saber perfeitamente ao que ia numa candidatura promovida pelos soaristas, fica mal por escolher lançar-se nesta aventura com estas condicionantes.
Quanto ao resto, dizer, numa eleição de carácter pessoal, que determinada pessoa não devia avançar é completamente absurdo. Ainda mais absurdo se torna se essa afirmação vier de apoiantes de Alegre, sabendo o que aconteceu há cinco anos. Estas são as regras do jogo e ninguém disse que eram fáceis. Em segundo lugar, nem sequer é líquido que a candidatura de Nobre arrume com as hipóteses da esquerda. Não é só ao campo eleitoral de Alegre que Fernando Nobre pode ir buscar votos. E basta que uma destas candidaturas desista e mobilize os seus apoiantes para a outra para que os problemas de Cavaco ganhem toda uma outra dimensão.
quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010
Downhill
Portugal está transformado num país de desconfiados. Por princípio, desconfia-se. E parecem ser ainda poucos os que percebem o salto qualitativo descendente, em termos civilizacionais, que esta forma de estar prenuncia.
Campo minado
A comunicação social é o principal mediador entre o indivíduo e a realidade social e política que o rodeia. O país enfrenta numerosos problemas e um dos maiores é o de, para se inteirar dos numerosos problemas que enfrenta, depender de uma corporação minada por incompetência em doses catastróficas.
quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010
O falso moralista
Um político a faltar à sua palavra não constitui propriamente uma novidade. Os problemas para Paulo Rangel, de um ponto de vista muito pragmático, não deveriam começar aí. A maior ameaça que Rangel enfrenta não é, então, a de estar disponível para a liderança do PSD, depois de ter "peremptoriamente" colocado de parte essa hipótese, mas a de ter ocupado uma boa parte da sua campanha para as europeias, no Verão do ano passado, a exigir a outros um compromisso que ele próprio quebrou ao fim de pouco mais de seis meses. O eleitorado suporta melhor os mentirosos do que os falsos moralistas e o PSD tem o dever de perceber isto. Se não o fizer antes, os eleitores certamente não terão pruridos em explicar-lho nas urnas.
Do regresso
Não se deve regressar aos locais onde se foi feliz, dizem. Enganam-se. Deve-se sempre regressar aos locais onde se foi feliz.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Pessoas, plantas, animais e coisas
Compreende-se que uma pessoa que construiu para si um determinado significado do casamento tenha dificuldades em aceitar que se ponha isso em causa. Compreende-se, mas não é procedente. O casamento, destituído dos seus significados simbólicos, que devem ficar com cada um, deve ser, sobretudo, uma união administrativa e económica. Se se pretende que o casamento consagre um enquadramento legal que beneficie a constituição de família numa óptica de progenitura, por muito que se lamente, não passa, então, de um conceito ultrapassado e que deve ser abandonado. O casamento deve ser uma forma legal de duas pessoas dizerem que querem partilhar uma vida e uma economia familiar. Não é um papel, que agora nem sequer se assina, que confere estabilidade a uma relação para a manter de pé ou para gerar filhos num ambiente favorável.
A protecção à família não se faz com papéis. Faz-se com medidas concretas, como taxas de IRS mais baixas para casais e ainda mais baixas para casais com filhos; faz-se com uma rede de creches e infantários com cobertura nacional e para a qual não seja preciso inscrever as crianças com um ano de antecedência; faz-se com horários de trabalho mais flexíveis para pais e mães; faz-se com uma licença parental partilhada discricionariamente pelos pais (para acabar com a discriminação laboral das mulheres pelos meses que vão passar em casa); faz-se construindo ginásios e centros de actividades extra-curriculares nas escolas públicas (para que os pais deixem de andar a fazer sprints pelo trânsito das cidades de casa para a escola e da escola para a piscina e da piscina para a equitação e da equitação para a aula de música). Faz-se com medidas concretas que têm efeitos práticos na vida das pessoas e não se limitam a ser um manifesto de boas intenções.
Aceita-se que o casamento integre uma dimensão afectiva e reconheça um contrato de fidelidade mútua, tal como acontece actualmente, embora também não deva repugnar que isso pudessem ser adendas ao contrato celebrado, do mesmo modo que o regime de comunhão de bens é decisão dos nubentes. Duas pessoas podem considerar que a fidelidade conjugal não é um factor de peso na sua relação e não parece que não devam casar-se por causa disso. A forma como cada casal decide viver a sua intimidade não deve ser objecto de interferência do Estado, a menos que estes assim o desejem, e o expressem manifestamente, integrando-o no contrato celebrado. Deve ser esse o papel desempenhado pelo Estado na instituição do casamento: reconhecer publicamente uma forma de relação, funcionando como instância de apelo em caso de quebra do acordado.
Para fim de argumentação, a estabilidade familiar, uma noção tão cara aos sectores mais conservadores da sociedade, não se garante pela heterossexualidade dos membros do casal, mas pela opção de vida que estes tomam. Não se definem direitos, ou ausência deles, em função da suposta pertença a um determinado grupo. A unidade relevante perante a lei deve ser sempre o indivíduo e não se lhe podem definir atributos a priori, independentemente da relação concreta com a realidade de vida dessa mesma pessoa. Se duas pessoas - um homem e uma mulher, dois homens, ou duas mulheres - querem assumir os compromissos que o casamento confere e aceder aos direitos que consagra, não se percebe como a orientação sexual deva ser um entrave. Quanto às plantas, aos animais e às coisa, segundo consta, ainda não são sujeitos passíveis de IRS e, uns mais que outros, denotam alguma dificuldade em manifestar o seu consentimento em relação aos contratos a celebrar, pelo que podemos, para já, deixá-los de lado nesta equação.
Adenda: Este post nasceu inspirado por esta troca de comentários.
A protecção à família não se faz com papéis. Faz-se com medidas concretas, como taxas de IRS mais baixas para casais e ainda mais baixas para casais com filhos; faz-se com uma rede de creches e infantários com cobertura nacional e para a qual não seja preciso inscrever as crianças com um ano de antecedência; faz-se com horários de trabalho mais flexíveis para pais e mães; faz-se com uma licença parental partilhada discricionariamente pelos pais (para acabar com a discriminação laboral das mulheres pelos meses que vão passar em casa); faz-se construindo ginásios e centros de actividades extra-curriculares nas escolas públicas (para que os pais deixem de andar a fazer sprints pelo trânsito das cidades de casa para a escola e da escola para a piscina e da piscina para a equitação e da equitação para a aula de música). Faz-se com medidas concretas que têm efeitos práticos na vida das pessoas e não se limitam a ser um manifesto de boas intenções.
Aceita-se que o casamento integre uma dimensão afectiva e reconheça um contrato de fidelidade mútua, tal como acontece actualmente, embora também não deva repugnar que isso pudessem ser adendas ao contrato celebrado, do mesmo modo que o regime de comunhão de bens é decisão dos nubentes. Duas pessoas podem considerar que a fidelidade conjugal não é um factor de peso na sua relação e não parece que não devam casar-se por causa disso. A forma como cada casal decide viver a sua intimidade não deve ser objecto de interferência do Estado, a menos que estes assim o desejem, e o expressem manifestamente, integrando-o no contrato celebrado. Deve ser esse o papel desempenhado pelo Estado na instituição do casamento: reconhecer publicamente uma forma de relação, funcionando como instância de apelo em caso de quebra do acordado.
Para fim de argumentação, a estabilidade familiar, uma noção tão cara aos sectores mais conservadores da sociedade, não se garante pela heterossexualidade dos membros do casal, mas pela opção de vida que estes tomam. Não se definem direitos, ou ausência deles, em função da suposta pertença a um determinado grupo. A unidade relevante perante a lei deve ser sempre o indivíduo e não se lhe podem definir atributos a priori, independentemente da relação concreta com a realidade de vida dessa mesma pessoa. Se duas pessoas - um homem e uma mulher, dois homens, ou duas mulheres - querem assumir os compromissos que o casamento confere e aceder aos direitos que consagra, não se percebe como a orientação sexual deva ser um entrave. Quanto às plantas, aos animais e às coisa, segundo consta, ainda não são sujeitos passíveis de IRS e, uns mais que outros, denotam alguma dificuldade em manifestar o seu consentimento em relação aos contratos a celebrar, pelo que podemos, para já, deixá-los de lado nesta equação.
Adenda: Este post nasceu inspirado por esta troca de comentários.
terça-feira, 3 de novembro de 2009
Um mau profissional
Como seria de esperar, a direita estrebuchou com a saída de José Manuel Fernandes do Público. Caiu-lhe mal uma declaração de intenções, em forma de editorial, a constatar o óbvio: que o Público se afastou demasiado do jornal de referência que já foi e que é necessário arrepiar caminho se pretende voltar a sê-lo.
Durante a direcção de JMF, o Público perdeu leitores, perdeu colaboradores, perdeu o rigor, perdeu qualidade, perdeu credibilidade e perdeu a vergonha. Dizer que, para os que celebram a saída de JMF, o problema era o seu alinhamento político à direita é um equívoco, ou uma falácia. O problema de JMF, como qualquer pessoa provida de equilíbrio e bom senso atestará, foi o hipotecar um património jornalístico rico e reconhecido em troca de um projecto político (mal) encapotado. O problema de JMF nunca foram os editoriais que escreveu, mas a cultura de subalternização dos princípios deontológicos e éticos do jornalismo em função dos seus interesses ideológicos que implementou.
Para além de tudo o que de mau aconteceu ao Público sob a batuta de JMF, convém relembrar, por exemplo, que, com ele, este foi um jornal onde saber escrever não era um requisito para chegar a editor e onde a fabricação de contextos falsos para encobrir fontes não suscitou quaisquer pudores.
Ninguém aponta o dedo a JMF por ser de direita. Aponta-se-lhe o dedo por ser mau profissional. Somente.
Durante a direcção de JMF, o Público perdeu leitores, perdeu colaboradores, perdeu o rigor, perdeu qualidade, perdeu credibilidade e perdeu a vergonha. Dizer que, para os que celebram a saída de JMF, o problema era o seu alinhamento político à direita é um equívoco, ou uma falácia. O problema de JMF, como qualquer pessoa provida de equilíbrio e bom senso atestará, foi o hipotecar um património jornalístico rico e reconhecido em troca de um projecto político (mal) encapotado. O problema de JMF nunca foram os editoriais que escreveu, mas a cultura de subalternização dos princípios deontológicos e éticos do jornalismo em função dos seus interesses ideológicos que implementou.
Para além de tudo o que de mau aconteceu ao Público sob a batuta de JMF, convém relembrar, por exemplo, que, com ele, este foi um jornal onde saber escrever não era um requisito para chegar a editor e onde a fabricação de contextos falsos para encobrir fontes não suscitou quaisquer pudores.
Ninguém aponta o dedo a JMF por ser de direita. Aponta-se-lhe o dedo por ser mau profissional. Somente.
segunda-feira, 2 de novembro de 2009
Mudar de ares
O primeiro editorial da nova era do Público não hesita em, descaradamente, terminar com uma dose muito generosa de graxa aos seus leitores. Faz bem. Os leitores do Público foram tomados por parvos demasiadas vezes nos últimos tempos. Sabe-lhes bem a mudança.
quinta-feira, 29 de outubro de 2009
(Semi)autobiografias
Levantou-se alguma poeira depois de Andre Agassi ter admitido o consumo de drogas em determinado momento da sua carreira. Mais interessante do que entrar na polémica sobre o impacto das drogas no desporto e nas mitologias construídas em torno das suas vedetas, é perceber por que é que já ninguém espera por ser velho para escrever uma autobiografia.
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
Segunda Circular
Nunca o Sporting me tinha proporcionado tantas alegrias em tão pouco tempo.
Brincadeiras à parte, e num registo mais sério, nunca o Sporting me tinha proporcionado tantas alegrias em tão pouco tempo.
Brincadeiras à parte, e num registo mais sério, nunca o Sporting me tinha proporcionado tantas alegrias em tão pouco tempo.
sexta-feira, 16 de outubro de 2009
O último dia
Se apenas os resultados deste ano eleitoral contassem, Ferreira Leite teria toda a legitimidade para permanecer como líder do PSD até ao fim do mandato e, querendo, apresentar-se novamente como candidata. Mesmo a derrota expressiva nas legislativas e o recuo nas autárquicas permitem, pelo menos, o cumprimento integral do seu mandato. Mas não são apenas os resultados eleitorais que contam. As escolhas que a direcção do PSD impôs, especialmente João de Deus Pinheiro e António Preto, comprometem seriamente a liderança. Deus Pinheiro renunciou ao mandato de deputado e António Preto suspendeu-o, o primeiro alegando razões pessoais e o segundo para responder às acusações judiciais que sobre ele pendem. Se uma derrota eleitoral não é algo que, necessariamente, deva levar ao afastamento de um líder partidário, os casos de Deus Pinheiro e de António Preto resultam na negação de tudo o que o PSD pretendeu representar nestes últimos meses. Sendo nomes apontados e impostos por Ferreira Leite, a sua responsabilidade política sobre este desfecho é inquestionável. Um caso e outro fragilizam-na para lá do aceitável e demonstram uma incoerência com um preço muito alto. Porque há sempre quem tenha dificuldade em perceber, ou em aceitar a realidade, convém deixar clara a posição actual da liderança do PSD. Ontem foi o último dia com legitimidade política para se manter em funções.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
Mitologia da verdade
O cabeça-de-lista do PSD por Braga foi deputado durante uns estonteantes 30 minutos. O tempo que Deus Pinheiro, uma escolha de Ferreira Leite, dedicou ao cargo impressiona e deixa bem claro o respeito que a vida política, as instituições e os eleitores merecem ao agora ex-deputado e ao seu partido.
Percebe-se, assim, que a indignação do PSD pelas candidaturas duplas do PS era apenas um artifício eleitoralista. Como já se tinha percebido, com a imposição por Ferreira Leite de António Preto e Helena Lopes da Costa, que a seriedade era apenas uma palavra sem significado real. E como já se percebeu, pela forma abrupta como o PSD deixou cair o tema da "asfixia democrática", que teria o dever cívico e político de defender até à exaustão no interesse do país e dos eleitores, que tudo não passou de uma estratégia sem outro objectivo que não fosse o de angariar votos no dia 27 de Setembro.
Um a um, os mitos montados em torno da liderança de Manuela Ferreira Leite vão caindo sem apelo.
Percebe-se, assim, que a indignação do PSD pelas candidaturas duplas do PS era apenas um artifício eleitoralista. Como já se tinha percebido, com a imposição por Ferreira Leite de António Preto e Helena Lopes da Costa, que a seriedade era apenas uma palavra sem significado real. E como já se percebeu, pela forma abrupta como o PSD deixou cair o tema da "asfixia democrática", que teria o dever cívico e político de defender até à exaustão no interesse do país e dos eleitores, que tudo não passou de uma estratégia sem outro objectivo que não fosse o de angariar votos no dia 27 de Setembro.
Um a um, os mitos montados em torno da liderança de Manuela Ferreira Leite vão caindo sem apelo.
quarta-feira, 14 de outubro de 2009
Causa - efeito
Não deixa de ser curiosa esta forma de pretender desvalorizar alguém recorrendo ao nu. Não apenas pelo que revela das representações sobre o corpo, sobre a mulher e sobre a sexualidade, mas também porque, como parece ser evidente, neste caso concreto, não produzirá necessariamente o efeito desejado.
Acordar tarde
Subitamente, Portugal parece ter despertado para o facto de ser motivo de troça no Brasil. Subitamente também, a blogosfera parece ter despertado para os nus de Maitê Proença. Como os menos atentos poderão testemunhar, tanto um como a outra acordaram tarde.
sábado, 3 de outubro de 2009
O problema
Volta a surgir a tese, como já se tinha ouvido nos anos 90, que afirma que Cavaco é um poço de integridade. O problema está nas pessoas que o rodeiam. Percebe-se facilmente a tentativa de branqueamento e desculpabilização. Mas o problema não são as pessoas que o rodeiam - ainda que fosse, 25 anos rodeado das mesmas pessoas sem perceber o seu calibre teria muito que se lhe diga. O problema está mesmo no homem que as escolhe para o rodearem.
quinta-feira, 1 de outubro de 2009
O fim de uma era (espera-se)
José Manuel Fernandes deixa a direcção do Público a partir de 31 de Outubro. Será difícil, à sua sucessora, fazer pior do que os 11 anos de abastardamento daquele que já foi um dos melhores diários europeus.
Aftermath
Cavaco conseguiu transformar Sócrates numa referência de estabilidade e de sentido de estado.
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
Ilusões
Só de desilude quem um dia acalentou esperanças. Só se surpreende com o teor das declarações de Cavaco quem um dia confiou no seu discernimento e na sua sageza política. Cavaco é um homem sem visão, sem mérito profissional nem político. Os anos de desperdício de fundos comunitários aplicados em betão, em vez de apoiar uma reestruturação do tecido económico português, estão aí para o provar à saciedade.
A intervenção de Cavaco não possui coerência interna nem externa. Os argumentos utilizados não são coerentes entre si e não são coerente com a realidade a que deviam reportar. Existem erros e omissões que só serão possíveis da parte de quem tem um entendimento muito limitado das questões que aborda ou da parte de quem quer travestir a realidade em outra coisa que lhe convenha. Em qualquer dos casos, a Presidência da República está muito mal entregue.
A intervenção de Cavaco não possui coerência interna nem externa. Os argumentos utilizados não são coerentes entre si e não são coerente com a realidade a que deviam reportar. Existem erros e omissões que só serão possíveis da parte de quem tem um entendimento muito limitado das questões que aborda ou da parte de quem quer travestir a realidade em outra coisa que lhe convenha. Em qualquer dos casos, a Presidência da República está muito mal entregue.
terça-feira, 29 de setembro de 2009
Resumo
O melhor resumo do comportamento de Cavaco Silva nas últimas semanas, incluindo a triste prestação desta noite, foi apresentado pela Maria João Pires: um presidente institucionalmente anão.
quarta-feira, 23 de setembro de 2009
O que é que António Costa pretendia provar?
Simplesmente, isto. Ilustrado com fotografias e tudo, para ser mais fácil ao João Miranda perceber o que está em causa.
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Responsabilidade
A comunicação social detém o enormíssimo poder de ser o principal, e muitas vezes único, ponto de mediação entre o cidadão e a realidade política. Com o seu trabalho, a comunicação social permite o controlo sobre os agentes políticos que não está ao alcance do comum cidadão. A responsabilidade social e moral que se impõe perante tal poder é, igualmente, enorme. A conduta do Público na forma como optou por noticiar alegadas suspeitas da PR, com o patrocínio e cobertura do seu director, escapa a tudo o que é de mais elementar na ética e deontologia da profissão do jornalismo. As debilidades da democracia também passam - e se passam - por aqui.
Um mau prenúncio
Das próximas legislativas dificilmente sairá um governo estável. No momento em que o país mais precisava que da Presidência da República viessem sinais sólidos que ajudem a ultrapassar os obstáculos que as clivagens partidárias vão colocar à governabilidade, Cavaco decidiu hipotecar a sua eventual força e credibilidade para apostar tudo no apoio desesperado e muito pouco discreto ao PSD de Ferreira Leite. As decisões fazem os políticos. Se Cavaco não tiver a dignidade de se demitir, e não é de crer que a tenha, a vida não será fácil para os lados de Belém no tempo que sobra a esta presidência.
Cavaco I, o cínico
Como é fácil de entender, e já tem sido bastante repetido por diferentes sensibilidades, a decisão de afastar Fernando Lima chega tarde. Demasiado tarde. O afastamento do assessor, não tendo acontecido nos dias que se seguiram às notícias do Público, mas só quando o DN desmascarou a concertação, apenas se reveste de um cinismo preocupante numa figura política que devia ter melhor noção das exigências do cargo que desempenha.
Leitura política
Lendo o que os blogues politicamente alinhados à direita têm escrito sobre a articulação entre Belém e o Público para criar um pseudo-caso, fica-se com a impressão que esta gente ou ensandeceu ou acha que somos todos parvos. A PR monta um suposto "caso" para, conscientemente, minar a imagem do governo e do partido que o apoia e um jornal dito de referência presta-se a veículo de manipulação política grosseira, ignorando tudo o que é de mais elementar bom senso na prática jornalística - e tudo isto em tempo de eleições -, mas a preocupação desta gente é com o papel desempenhado pelo DN. O DN fez o trabalho que lhe competia. Perante acusações feitas em público, conseguiu indícios fortíssimos, os quais, após ausência de desmentido, podem ser considerados provas do envolvimento da PR num plano para influenciar o resultado das eleições que se avizinham. Investigou, confirmou, publicou.
Temos um órgão de soberania a violar dolosamente os seus deveres constitucionais, apoiado pelo frete de um jornal que prescindiu há muito da integridade e do brio profissional, e, pelo meio, um grupo de fanáticos que finge não perceber a gravidade da situação.
A partir do momento em que não há desmentido sobre a veracidade do email publicado pelo DN, a primeira leitura política a fazer é que Cavaco deixou de ter condições para continuar em Belém. Obviamente, é esta leitura que a direita vai tentar evitar a todo o custo. Muita poeira vai ser lançada para o ar nesta última semana de campanha.
Temos um órgão de soberania a violar dolosamente os seus deveres constitucionais, apoiado pelo frete de um jornal que prescindiu há muito da integridade e do brio profissional, e, pelo meio, um grupo de fanáticos que finge não perceber a gravidade da situação.
A partir do momento em que não há desmentido sobre a veracidade do email publicado pelo DN, a primeira leitura política a fazer é que Cavaco deixou de ter condições para continuar em Belém. Obviamente, é esta leitura que a direita vai tentar evitar a todo o custo. Muita poeira vai ser lançada para o ar nesta última semana de campanha.
quinta-feira, 10 de setembro de 2009
Não é por aí (2)
O post do João Miranda apoia-se em duas falácias. A primeira é que, tal como é formulada, a pergunta que o encerra leva a que se considere as opções apresentadas como mutuamente exclusivas. Em segundo lugar, enquanto a dívida pública é medida em percentagem do PIB, o desempenho a nível de infraestruturas é medido pela percepção que os respondentes têm da qualidade destas. Dificilmente podemos usar estes indicadores a não ser para criar cortinas de fumo.
Não é por aí
Há ideias, como este texto do João Miranda, que não devia ser preciso explicar muito melhor para se perceber as suas limitações. E não devia ser preciso explicar porque, mesmo sem ser economista, qualquer pessoa devia compreender a diferença entre valores relativos e valores absolutos.
Se Portugal, numa lista de competitividade global, ocupa o 23º lugar em vias ferroviárias e, por outro lado, o 117º em dívida pública, dificilmente daí se retira outra informação que não seja o facto de haver, respectivamente, 8 e 116 países melhor colocados que o nosso. Mas, com base exclusivamente nas posições ocupadas na lista, nada nos pode fazer avaliar o grau das diferenças que se verificam. Por exemplo, em termos de dívida pública, medida em percentagem do PIB, o 116º país da lista pode apresentar uma diferença em relação a Portugal de menos de metade ou de uns meros 0,2 pontos percentuais.
As estatísticas não se usam sem enquadramento. Os números, por si mesmos, valem pouco. Devem ser sempre contextualizados, comparados e interpretados. O resto é demagogia ou desinformação. Exemplificando, e para que fique mais claro qual o nível de demagogia ou de desinformação, o país que ocupa o primeiro lugar no ranking da competitividade em termos de dívida pública é Timor-Leste.
Se Portugal deve privilegiar a redução da sua dívida pública é uma discussão que, com toda a legitimidade, se pode e deve fazer. Mas não são os lugares relativos numa lista que nos permitem fazê-la com rigor e objectividade.
Se Portugal, numa lista de competitividade global, ocupa o 23º lugar em vias ferroviárias e, por outro lado, o 117º em dívida pública, dificilmente daí se retira outra informação que não seja o facto de haver, respectivamente, 8 e 116 países melhor colocados que o nosso. Mas, com base exclusivamente nas posições ocupadas na lista, nada nos pode fazer avaliar o grau das diferenças que se verificam. Por exemplo, em termos de dívida pública, medida em percentagem do PIB, o 116º país da lista pode apresentar uma diferença em relação a Portugal de menos de metade ou de uns meros 0,2 pontos percentuais.
As estatísticas não se usam sem enquadramento. Os números, por si mesmos, valem pouco. Devem ser sempre contextualizados, comparados e interpretados. O resto é demagogia ou desinformação. Exemplificando, e para que fique mais claro qual o nível de demagogia ou de desinformação, o país que ocupa o primeiro lugar no ranking da competitividade em termos de dívida pública é Timor-Leste.
Se Portugal deve privilegiar a redução da sua dívida pública é uma discussão que, com toda a legitimidade, se pode e deve fazer. Mas não são os lugares relativos numa lista que nos permitem fazê-la com rigor e objectividade.
Um Movimento sem mérito
A campanha mais visível do Movimento Mérito e Sociedade tem consistido numa crítica violenta ao sistema político-partidário. O MMS assume uma vontade de capitalizar o descontentamento e, para tal, não hesita em recorrer a uma estratégia que passa sobretudo por denegrir os restantes actores políticos.
Não é privilegiando a visibilidade dos ataques em detrimento da das propostas que se eleva o nível do debate político em Portugal. O MMS pode alegar que o dinheiro de que dispõe é pouco e obriga a alguma ginástica criativa. Mas também ninguém pode ignorar que quando o assunto é a política, os princípios devem figurar no topo das prioridades dos intervenientes. Para um partido que incluiu a palavra mérito na sua denominação, ironicamente trilha caminhos que se afastam bastante do que seria de esperar.
Os partidos e seus representantes que o MMS tem atacado são precisamente aqueles que têm recebido a confiança de quem se dá ao trabalho de ir votar. O MMS acaba, com a sua estratégia, quer o tenha percebido ou não, por atacar tanto os eleitos como os eleitores. Não é seguro que este posicionamento traga vantagens eleitorais, mas, em caso afirmativo, elas não poderão vir de outro lado que não seja o dos descontentes, dos ressentidos e dos desconfiados. O Movimento Mérito e Sociedade, que, como se viu, prescinde facilmente do mérito, privilegia e promove, assim, uma parte muito curiosa da sociedade. De um partido com esta linha de acção não se pode esperar nada de muito positivo.
Não é privilegiando a visibilidade dos ataques em detrimento da das propostas que se eleva o nível do debate político em Portugal. O MMS pode alegar que o dinheiro de que dispõe é pouco e obriga a alguma ginástica criativa. Mas também ninguém pode ignorar que quando o assunto é a política, os princípios devem figurar no topo das prioridades dos intervenientes. Para um partido que incluiu a palavra mérito na sua denominação, ironicamente trilha caminhos que se afastam bastante do que seria de esperar.
Os partidos e seus representantes que o MMS tem atacado são precisamente aqueles que têm recebido a confiança de quem se dá ao trabalho de ir votar. O MMS acaba, com a sua estratégia, quer o tenha percebido ou não, por atacar tanto os eleitos como os eleitores. Não é seguro que este posicionamento traga vantagens eleitorais, mas, em caso afirmativo, elas não poderão vir de outro lado que não seja o dos descontentes, dos ressentidos e dos desconfiados. O Movimento Mérito e Sociedade, que, como se viu, prescinde facilmente do mérito, privilegia e promove, assim, uma parte muito curiosa da sociedade. De um partido com esta linha de acção não se pode esperar nada de muito positivo.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
A Madeira como exemplo
Para quem tem feito do conceito de "asfixia democrática" uma bandeira de campanha, escolher a governação de Alberto João Jardim como exemplo do que o PSD tem para oferecer diz muito mais da postura política de Manuela Ferreira Leite do que as quarenta páginas de banalidades apresentadas como propostas eleitorais ou o matraquear exaurido sobre a "política de verdade".
Recordemos que a Madeira é um sítio onde se pode abater a tiro, impunemente, um balão de propaganda de um partido da oposição, ou onde se impede ilegalmente o acesso ao parlamento local de representantes eleitos. Sobre estas e outras situações exemplares, Manuela Ferreira Leite conserva um silêncio elucidativo.
Recordemos que a Madeira é um sítio onde se pode abater a tiro, impunemente, um balão de propaganda de um partido da oposição, ou onde se impede ilegalmente o acesso ao parlamento local de representantes eleitos. Sobre estas e outras situações exemplares, Manuela Ferreira Leite conserva um silêncio elucidativo.
quinta-feira, 3 de setembro de 2009
Ponto de partida
Não devia ser preciso recordá-lo, mas, nesta altura, todos os esclarecimentos sobre o cancelamento do Jornal Nacional cabem à TVI, à Media Capital e à Prisa. Julgo que é do mais elementar bom senso, seriedade e interesse público que se comece por aí. Depois, e consoante o grau de pertinência das justificações apresentadas, ou na sua ausência, podemos permitir-nos variados exercícios de especulação. Estamos a pouco mais de 3 semanas das eleições. Há tempo de sobra para fazer tombar primeiros-ministros. Ou líderes da oposição.
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Truques de campanha
No Largo do Rato, os responsáveis pela campanha do PS acreditaram durante muito tempo que a "marca" José Sócrates era uma mais valia. Os mais recentes outdoors do partido parecem inverter essa tendência, apostando antes nas políticas implementadas ao longo dos últimos quatro anos. Por seu lado, na Santana à Lapa, o trunfo de campanha assenta na repetidíssima tecla da "verdade" e numa gestão de silêncios que emula o truque que levou Cavaco Silva até Belém. Entretanto, a inclusão de António Preto e Helena Lopes da Costa nas listas das legislativas encarregou-se de mostrar, de forma rápida e inequívoca, os limites da "política de verdade" do PSD. Quanto à gestão de silêncios, por muito que Ferreira Leite queira colar a sua imagem à do Presidente, nada leva a crer que a estratégia volte a resultar. O contexto não podia ser mais diferente e o PSD engana-se se pensa que pode extrapolar o que aconteceu nas presidenciais para o cenário das legislativas.
Fraquinho, fraquinho
O programa eleitoral do PSD chega tarde e promete muito estudo e muita ponderação. Em si mesmos, são bons princípios políticos. Mas quando é preciso, mais do que nunca, uma posição enérgica dos governos, o que o PSD nos pede são mais uns meses para pensar melhor sobre o assunto. Ferreira Leite confirma, assim, caso os eleitores não tenham memória do que foi o seu desempenho como ministra da educação de Cavaco Silva e ministra das finanças de Durão Barroso, que a sua preparação para governar o país se encontra muito abaixo do limiar do aceitável. Se fosse verdade que a disputa eleitoral se resume a um confronto entre figuras políticas (basta a antevisão do desmantelar da função social e de providência do Estado no programa do PSD para deitar por terra essa falácia), Manuela Ferreira Leite dá um bom sinal da tibieza que grassa na liderança do PSD.
terça-feira, 25 de agosto de 2009
Política falhada
Nos anos 60 e 70, o estado da Califórnia podia orgulhosamente apresentar-se como possuindo um dos sistemas prisionais com melhor desempenho a nível nacional e mundial. A lotação dos estabelecimentos encontrava-se bem dimensionada, os programas de reinserção social funcionavam a bom ritmo e as taxas de reincidência estavam abaixo da média. Depois disso, veio a guerra contra a droga e uma série de medidas legislativas que endureceram a penalização dos condenados. As penas aumentaram, a elegibilidade para liberdade condicional ficou consideravelmente mais difícil de obter, os programas de reinserção deixaram de ser modelos a seguir, as taxas de reincidência aumentaram brutalmente e a sobrelotação dos establecimentos atingiu níveis que o Supremo Tribunal considerou abaixo do limiar da dignidade humana, levando-o a conceder um prazo à Califórnia para encontrar uma solução para o seu sistema prisional.
O líder do CDS-PP não foi o primeiro a preconizar "políticas muito mais firmes" no domínio da segurança. Já outros o fizeram antes dele, em variados contextos, mas sempre tendo o populismo como denominador comum. Ironicamente, como a Califórnia descobriu com amargura, "políticas mais firmes" não são sinónimo de sociedades mais seguras, muito pelo contrário. Pensar a segurança acreditando que a óptica penal deve ser a pedra de toque das estratégias adoptadas é uma miopia política que, a prazo, sai cara a todos os níveis.
O líder do CDS-PP não foi o primeiro a preconizar "políticas muito mais firmes" no domínio da segurança. Já outros o fizeram antes dele, em variados contextos, mas sempre tendo o populismo como denominador comum. Ironicamente, como a Califórnia descobriu com amargura, "políticas mais firmes" não são sinónimo de sociedades mais seguras, muito pelo contrário. Pensar a segurança acreditando que a óptica penal deve ser a pedra de toque das estratégias adoptadas é uma miopia política que, a prazo, sai cara a todos os níveis.
Uma estranha forma de ser
A inumeracia, como nos recordam vários estudos, é um dos problemas de défice de competências dos portugueses. Saber minimamente trabalhar com números não é apenas uma questão de saber fazer contas. É, sobretudo, uma questão de raciocínio lógico. No Margens de Erro, Pedro Magalhães recupera uma crónica de António Ribeiro Ferreira que ilustra bem este fenómeno. O "grande repórter" do Correio da Manhã, em poucas linhas, revelando toda a sua ignorância sobre o que é a estatística e como se elabora uma sondagem, considera desde já que é inadmissível que as próximas sondagens apresentem outra coisa que não sejam resultados conclusivos. No planeta em que ARF vive, margem de erro, nível de confiança, métodos de amostragem e de aplicação dos questionários são tudo pormenores que não devem interferir na obtenção dos resultados que os preconceitos deste candidato a iluminado da nação já estabeleceram como aceitáveis.
O resto da prosa de ARF é um tratado de pequenos ódios, ressentimentos e preconceitos difíceis de digerir. Que se possa chegar a "grande repórter", nem que seja do jornal da região, sem demonstrar a menor vontade de estudar e perceber do que se fala é um triste diagnóstico do estado da comunicação social portuguesa. São pessoas deste calibre que escolhem, editam e relatam a realidade económica, social e política do país.
O resto da prosa de ARF é um tratado de pequenos ódios, ressentimentos e preconceitos difíceis de digerir. Que se possa chegar a "grande repórter", nem que seja do jornal da região, sem demonstrar a menor vontade de estudar e perceber do que se fala é um triste diagnóstico do estado da comunicação social portuguesa. São pessoas deste calibre que escolhem, editam e relatam a realidade económica, social e política do país.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
Fazer juízos
Como Hannah Arendt fez notar, o juízo é uma capacidade humana por excelência. Abdicar de a usar é abdicar da própria centelha da humanidade que reside em cada um de nós.
Manual de más práticas
Perante as câmaras da RTP, Manuela Ferreira Leite deixou, ontem, mais uma pérola sobre o que não é fazer política. A líder do PSD não quer saber da veracidade das suspeitas lançadas pela Casa Civil da PR, basta-lhe o sentimento de desconfiança, neste caso alimentado artificialmente e à força pela comunicação social, que possa existir na sociedade. Para quem reclama por uma política de verdade, não está mau.
O aforismo "em política o que parece é", obviamente, não é política. É propaganda. Mas ainda que fosse aceitável, neste caso, o que parece é que a PR tem umas contas a ajustar com o governo, faltando-lhe o engenho e a subtileza para arquitectar uma história decente. Valha-lhes a boa vontade de José Manuel Fernandes, capaz de transformar um boato indigno d'O Crime em manchete do Público.
Não se acusa sem provas nem se faz pender sobre o acusado o ónus da prova. Deve repetir-se isto à exaustão, independentemente de simpatias políticas. Por honestidade, por decência e por utilitarismo. Um dia, pode ser connosco.
O aforismo "em política o que parece é", obviamente, não é política. É propaganda. Mas ainda que fosse aceitável, neste caso, o que parece é que a PR tem umas contas a ajustar com o governo, faltando-lhe o engenho e a subtileza para arquitectar uma história decente. Valha-lhes a boa vontade de José Manuel Fernandes, capaz de transformar um boato indigno d'O Crime em manchete do Público.
Não se acusa sem provas nem se faz pender sobre o acusado o ónus da prova. Deve repetir-se isto à exaustão, independentemente de simpatias políticas. Por honestidade, por decência e por utilitarismo. Um dia, pode ser connosco.
Quem escreve um conto acrescenta um ponto
A campanha de desinformação do Público continua em força. O que começou por uma "perplexidade" de um membro da Casa Civil da Presidência da República, que chega a admitir a hipótese de haver fugas de informação internas, embora isso nunca tenha sido valorizado na redacção de José Manuel Fernandes, e por um adjunto do governo sentado em mesas para as quais não foi convidado, passa, nesta quinta-feira, a "denúncia de escutas na Presidência e de assessores de Belém a serem vigiados pelo Governo ou PS". Com pequenas subtilezas se vai influenciando a percepção que os leitores têm de determinada situação. Depois torna-se mais fácil falar de asfixia democrática.
quarta-feira, 19 de agosto de 2009
Abaixo das exigências
Surpreendentemente, há muita gente, que devia ter mais juízo, a levar a sério a composição de Verão que o Público resolveu publicar. Mas, por outro lado, também houve muita gente a pensar que Cavaco Silva estaria à altura do cargo. Nunca esteve e continua a não estar.
A situação é simples: ou a Presidência, de forma oficial, concretiza as insinuações e age em conformidade, ou se distancia do comportamento irresponsável de um dos seus assessores, tirando igualmente as ilações que não pode deixar de tirar. O silêncio, neste caso, mais não é que cumplicidade com a lama.
A situação é simples: ou a Presidência, de forma oficial, concretiza as insinuações e age em conformidade, ou se distancia do comportamento irresponsável de um dos seus assessores, tirando igualmente as ilações que não pode deixar de tirar. O silêncio, neste caso, mais não é que cumplicidade com a lama.
A Presidência a quem parece que poderá ter acontecido não sei quê (2)
Na era do progresso incessante das novas tecnologias, na era dos computadores e dos softwares, da electrónica e da miniaturização, a Presidência da República suspeita que o governo terá recorrido ao sofisticadíssimo e muito subtil método de pedir a um adjunto que se sentasse na mesa dos assessores de Cavaco sem ser convidado. São estes os fundamentos que suportam uma das mais graves suspeições (a mais grave?) alguma vez lançada sobre um executivo no pós 25 de Abril. Se não fosse trágico, seria cómico.
Mesmo?
A sério: são estas as pessoas que queremos ter à frente do país nos próximos anos?
Ensaio sobre a cegueira
É preciso não esquecer que o Público é, hoje em dia, um jornal no qual retirar 200 mil idosos da pobreza dá direito a nota negativa para Vieira da Silva na última página da edição.
terça-feira, 18 de agosto de 2009
A Presidência a quem parece que poderá ter acontecido não sei quê
As declarações do anónimo membro da Casa Civil da Presidência da República são: "Como é que os dirigentes do PS sabem o que fazem ou não fazem os assessores do Presidente? Será que estão a ser observados, vigiados? Estamos sob escuta ou há alguém na Presidência a passar informações? Será que Belém está sob vigilância?"
Nas restantes duas páginas que o Público dedica à (não) notícia, nada - absolutamente nada - permite suportar estas gravíssimas insinuações. Qualquer político munido de um mínimo de bom senso ou e de um mínimo de entendimento sobre o que é o relacionamento entre instituições, e entre estas e os eleitores, não pode, em circunstância alguma, confundir as suas perplexidades com matérias passíveis de serem partilhadas com jornalistas. Mas, em Belém, esta foi a forma encontrada para atacar o governo e o PS em plena pré-campanha eleitoral. A mesma Presidência que pediu uma limitação à actividade legislativa, a propósito da discussão de temas que alguns gostam de apelidar de fracturantes, sanciona agora a lama como forma de fazer política.
Temos, então, uma instituição política com o peso da Presidência da República a recorrer à insinuação rasteira e à manipulação barata e um jornal, dito de referência, a prescindir da investigação, dos factos e do juízo crítico para se transformar em mera correia de transmissão dos interesses eleitoralistas de uma força partidária. Mas o problema, para estas almas caridosas, reside sempre nos outros.
Nas restantes duas páginas que o Público dedica à (não) notícia, nada - absolutamente nada - permite suportar estas gravíssimas insinuações. Qualquer político munido de um mínimo de bom senso ou e de um mínimo de entendimento sobre o que é o relacionamento entre instituições, e entre estas e os eleitores, não pode, em circunstância alguma, confundir as suas perplexidades com matérias passíveis de serem partilhadas com jornalistas. Mas, em Belém, esta foi a forma encontrada para atacar o governo e o PS em plena pré-campanha eleitoral. A mesma Presidência que pediu uma limitação à actividade legislativa, a propósito da discussão de temas que alguns gostam de apelidar de fracturantes, sanciona agora a lama como forma de fazer política.
Temos, então, uma instituição política com o peso da Presidência da República a recorrer à insinuação rasteira e à manipulação barata e um jornal, dito de referência, a prescindir da investigação, dos factos e do juízo crítico para se transformar em mera correia de transmissão dos interesses eleitoralistas de uma força partidária. Mas o problema, para estas almas caridosas, reside sempre nos outros.
Vergonha na cara
Se o PSD, pela voz de Aguiar Branco, desmente peremptoriamente a participação de quem quer que seja ligado à Presidência na elaboração do programa eleitoral do partido, então como é que alguém, ainda que de forma dissimulada, poderia escutar conversas nesse sentido?
Se o Público ainda fosse um jornal sério, a vergonha na cara nunca permitiria que uma capa como a do dia de hoje fosse publicada.
Se o Público ainda fosse um jornal sério, a vergonha na cara nunca permitiria que uma capa como a do dia de hoje fosse publicada.
segunda-feira, 17 de agosto de 2009
Os jovens
"Estou a apanhar o comboio para casa em Belém", disse, ao telefone, a rapariga que passeava na 24 de Julho.
Escolhas
A menos de 2 meses das eleições, com o país e o mundo ainda a viverem os efeitos da maior crise financeira e económica em muitas décadas, o PSD de Manuela Ferreira Leite, que não chegou ontem à liderança do partido, não consegue apresentar sequer as linhas gerais de um programa de governo. Os eleitores terão que perguntar a si próprios, dentro de poucas semanas, se são estas as pessoas que querem com a responsabilidade de responder a uma crise que, consensualmente, está longe de ter chegado ao fim.
quinta-feira, 13 de agosto de 2009
Da desconfiança (2)
No momento em que a desconfiança generalizada passa por opinião crítica informada sabemos que o mal da democracia neste país é ainda mais profundo. Desta confusão entre duas linhas de pensamento tão distante resultam dois fenómenos nefastos. O primeiro é o de tender a afastar os que prezam o seu bom nome e a sua honra. Se da participação cívica na política o que sobressai é a desconfiança infundamentada, então quem quererá submeter-se de ânimo leve a tal estigma? O segundo inconveniente é que, quando o que se espera dos políticos é que sejam interesseiros e corruptos, estamos a convidar muito boa gente a agir de acordo com as expectativas que foram traçadas. Se as pessoas esperam que fulano seja ladrão, não é certamente roubando que ele desiludirá a comunidade. Com esta atitude, a única coisa que se consegue é limitar a renovação da classe política e diminuir os constrangimentos sociais para o incumprimento das leis.
Da desconfiança
Medina Carreira, em entrevista à SICN, define o poder como um "lugar para tratar da vida e dos negócios (...) para empregar os primos, os tios, para fazer negócios de auto-estradas e outras coisas no genero." Que há quem aproveite o exercício do poder para seu ganho pessoal não merece grande contestação. Se não houvesse evidências, bastariam as leis da estatística para não nos permitir afastar peremptoriamente essa possibilidade. Mas que se reduza o exercício do poder ao nepotismo e ao amiguismo, que se imponha a desconfiança generalizada sobre todos os agentes do sistema político, não pode deixar de ser considerado como outra coisa que não uma afirmação que deve mais à desilusão do que à argumentação racional. Este é o tipo de insensatez e preconceito que se pode esperar ouvir pelos cafés e praças do país. Mas das elites responsáveis espera-se outra coisa. Espera-se, por exemplo, que compreendam que a promoção da desconfiança generalizada no sistema e nos seus agentes apenas contribui para diminuir a qualidade da democracia que temos.
terça-feira, 11 de agosto de 2009
Coisas graves
Lido. De fio a pavio, de um fôlego só, que é como se devem ler blogues, e com o mesmo prazer de sempre.
Isto não é um regresso (2)
Dentro de dois meses podemos ter Ferreira Leite no governo, Santana Lopes na CML e, obviamente, Cavaco Silva em Belém. Quem achar que estaremos melhor assim que mantenha o estupor.
Isto não é um regresso
Pode não chegar ao fim do ano. Pode não chegar ao fim do mês. Pode não chegar a amanhã.
terça-feira, 30 de junho de 2009
Love that dog
Love that dog,
like a bird loves to fly
I said I love that dog
like a bird loves to fly
Love to call him in the morning
love to call him
"Hey there, Sky!"
like a bird loves to fly
I said I love that dog
like a bird loves to fly
Love to call him in the morning
love to call him
"Hey there, Sky!"
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