quinta-feira, 14 de agosto de 2008
Partido Populista
Escapa-me por que é que há-de ser o governo a desenhar o plano de segurança dos bancos. O CDS-PP deve ter uma boa razão. Ou então não tem e apenas não consegue deixar escapar qualquer oportunidade para salivar a sua demagogia securitária.
Perspectivas
Enquanto a discussão sobre a criminalidade se centrar na nacionalidade de quem a comete, fala-se menos das condições sociais, económicas e demográficas dos criminosos. Mas que ninguém se preocupe. Quando lá chegarmos logo alguém virá falar em “sociologia desculpabilizadora”.
11 em 1000
Já o escrevi várias vezes: as estatísticas, em si mesmas, são muito pouco. Números são números e, se as coisas forem bem feitas, respondem a hipóteses construídas a partir de teorias. Andamos aqui a discutir se é mais rigoroso e objectivo dizer que a taxa de criminalidade dos estrangeiros é superior à dos portugueses ou se é igual. Questões de metodologia, portanto. O que ainda não se discutiu são as teorias que podem ajudar a interpretar os dados e que dão forma a todas as investigações. Existe alguma teoria que afirme que a nacionalidade influi na propensão para a criminalidade? Eu não conheço nenhuma. Nascer português, espanhol, brasileiro, angolano, ucraniano, etc. é relevante para a nossa relação com as leis? Certamente que sim, mas isso não se deve ao que está escrito no BI. Deve-se aos processos de socialização que cada sociedade proporciona aos seus membros, incluindo modelos culturais e estruturas sociais relevantes.
Mas, ainda que se recuse a adaptação metodológica do estudo, as taxas de criminalidade para portugueses e estrangeiros são, respectivamente, de 7 em mil e 11 em mil. É significativamente diferente. No pátio da penitenciária, os estrangeiros podem fazer um jogo de cinco para cinco, com um à baliza, e os portugueses só podem fazer um jogo de três para três, com um à baliza.
Mas, ainda que se recuse a adaptação metodológica do estudo, as taxas de criminalidade para portugueses e estrangeiros são, respectivamente, de 7 em mil e 11 em mil. É significativamente diferente. No pátio da penitenciária, os estrangeiros podem fazer um jogo de cinco para cinco, com um à baliza, e os portugueses só podem fazer um jogo de três para três, com um à baliza.
quarta-feira, 13 de agosto de 2008
Preconceituosos são os outros
Vamos supor que se pretende comparar o desempenho desportivo dos indivíduos de dois grupos distintos numa prova de resistência. Apura-se no final que os indivíduos do grupo A apresentam um desempenho notoriamente pior que os do grupo B. Contudo, sabe-se que mais de metade do grupo A é constituído por septuagenários e que no grupo B estes apenas ascendem a um quarto do total. Deve este dado ser ignorado na comparação que se pretende realizar? Não, não deve. A solução passa por ajustar as estruturas etárias dos dois grupos para que os dados sejam comparáveis, sob pena de se estar a desvirtuar as conclusões.
Foi isto que os autores do estudo comparado de taxas de criminalidade fizeram. O estudo não esconde que a taxa de criminalidade entre portugueses e estrangeiros em Portugal é distinta. Mas ajustada a estrutura da sociedade portuguesa à estrutura dos estrangeiros as diferenças desaparecem. Em condições semelhantes as taxas de criminalidade são semelhantes. Em condições diferentes as taxas são diferentes.
Comparar realidades diferentes dá trabalho e requer metodologias complexas e discutíveis. E pode ser sempre alvo de ataques por pessoas que usam como argumentos em seu favor a utilização de jargão científico por parte dos autores de um estudo que se quer científico.
Vamos repetir devagarinho para ver se o JCD percebe: “Em condições equivalentes de masculinidade, juventude e condição perante o trabalho” não é, nem pouco mais ou menos, o mesmo que dizer “Os portugueses que fazem parte do grupo dos que cometem crimes, têm tendência equivalente para cometer crimes aos imigrantes que cometem crimes.” A primeira é uma metodologia de comparação, a segunda é apenas uma algaraviada que em momento algum traduz fielmente o que se afirma no estudo.
Foi isto que os autores do estudo comparado de taxas de criminalidade fizeram. O estudo não esconde que a taxa de criminalidade entre portugueses e estrangeiros em Portugal é distinta. Mas ajustada a estrutura da sociedade portuguesa à estrutura dos estrangeiros as diferenças desaparecem. Em condições semelhantes as taxas de criminalidade são semelhantes. Em condições diferentes as taxas são diferentes.
Comparar realidades diferentes dá trabalho e requer metodologias complexas e discutíveis. E pode ser sempre alvo de ataques por pessoas que usam como argumentos em seu favor a utilização de jargão científico por parte dos autores de um estudo que se quer científico.
Vamos repetir devagarinho para ver se o JCD percebe: “Em condições equivalentes de masculinidade, juventude e condição perante o trabalho” não é, nem pouco mais ou menos, o mesmo que dizer “Os portugueses que fazem parte do grupo dos que cometem crimes, têm tendência equivalente para cometer crimes aos imigrantes que cometem crimes.” A primeira é uma metodologia de comparação, a segunda é apenas uma algaraviada que em momento algum traduz fielmente o que se afirma no estudo.
Desculpas
Na semana passada, ainda no rescaldo do assalto em Campolide, Ferreira Fernandes assinou um artigo de opinião fazendo referência ao documentário Ónibus 174 em jeito de alfinetada nos “sociólogos desculpadores”. Ferreira Fernandes faz parte desse interminável contingente de indivíduos que não percebem a diferença entre compreender ou explicar um comportamento e aceitá-lo ou desculpá-lo, para o qual já vai sobrando muito pouca paciência. Mas neste artigo vai mais longe e, traído pela memória ou pelo preconceito, confunde a interpretação sociológica da criminalidade avançada pelo “sociólogo desculpador”. Não é que a sociedade não ligue aos bandidos (embora, efectivamente, não ligue), mas sim que não liga aos marginais (conceito bastante diferente de bandido), os quais têm na criminalidade, e sobretudo na criminalidade violenta, uma saída que lhes confere visibilidade e uma sensação de poder que não experimentam em nenhuma outra situação. Não é uma desculpa, é uma explicação e nada descabida.
O espaço diário de Ferreira Fernandes no DN é pequeno e não chega para contar a história toda. Deve ser essa a explicação para deixar de fora aspectos importantes que o documentário explora e que definem o desfecho do sequestro do Rio de Janeiro (a má preparação das forças policiais, a sujeição do poder político às pressões mediáticas, a ausência de soluções de prevenção da marginalidade e de reinserção social, o nível abjecto dos estabelecimentos prisionais no Brasil e o racismo que impera em todo o sistema policial e judicial). Deve ser essa também a justificação para que Ferreira Fernandes sintetize o desfecho do sequestro com “a morte de Sandro, o bandido, e de uma refém”. Convinha ter referido que a refém morre depois de alvejada quatro vezes: um primeiro tiro da responsabilidade de um elemento da polícia, que falha, a um metro de distância, o sequestrador, e os restantes da autoria deste último. Quanto a Sandro Nascimento, que sai ileso desta trágica intervenção, morre “misteriosamente” no carro celular durante o trajecto para a esquadra.
Dos criminosos espera-se que quebrem a lei. Das forças da autoridade espera-se outra coisa.
O espaço diário de Ferreira Fernandes no DN é pequeno e não chega para contar a história toda. Deve ser essa a explicação para deixar de fora aspectos importantes que o documentário explora e que definem o desfecho do sequestro do Rio de Janeiro (a má preparação das forças policiais, a sujeição do poder político às pressões mediáticas, a ausência de soluções de prevenção da marginalidade e de reinserção social, o nível abjecto dos estabelecimentos prisionais no Brasil e o racismo que impera em todo o sistema policial e judicial). Deve ser essa também a justificação para que Ferreira Fernandes sintetize o desfecho do sequestro com “a morte de Sandro, o bandido, e de uma refém”. Convinha ter referido que a refém morre depois de alvejada quatro vezes: um primeiro tiro da responsabilidade de um elemento da polícia, que falha, a um metro de distância, o sequestrador, e os restantes da autoria deste último. Quanto a Sandro Nascimento, que sai ileso desta trágica intervenção, morre “misteriosamente” no carro celular durante o trajecto para a esquadra.
Dos criminosos espera-se que quebrem a lei. Das forças da autoridade espera-se outra coisa.
terça-feira, 12 de agosto de 2008
Criminalidade comparada
Citar notícias de jornais já foi chão mais seguro de pisar, mas o Público de hoje faz referência a um estudo que compara taxas de criminalidade cometida por portugueses e por estrangeiros em Portugal (disponível aqui). A conclusão é que, ajustada a estrutura social dos portugueses à dos estrangeiros, as diferenças desaparecem e a nacionalidade deixa de ser um factor de influência. O estudo permite ainda perceber que a nível concelhio não foi identificada qualquer relação entre presença de estrangeiros e criminalidade registada e que, afastada a variável nacionalidade, sobram as variáveis sociais e económicas como aquelas que possuem relevância estatística.
Ligeirezas
Nunca deixará de me surpreender a ligeireza com que algumas pessoas dispõem da vida e morte de outras.
sexta-feira, 8 de agosto de 2008
Racismo? Xenofobia? Nonsense...
Aliás, basta passar os olhos pelas caixas de comentários nos sites noticiosos ou no Youtube para o confirmar.
quinta-feira, 24 de julho de 2008
Injustiça para todos
Um momento de violência, grave mas altamente invulgar, envolvendo não mais que uma dúzia de pessoas, e é tudo o que o CDS de Paulo Portas precisa para atacar as medidas de apoio aos mais pobres. A luta do CDS contra o RMG e o RSI é antiga. Paulo Portas sabe que não é junto dos beneficiários destas ajudas que encontra o seu eleitorado mais fiel - reformados e pequenos proprietários, sobretudo fora das zonas mais densamente urbanas. Penalizar a larguíssima maioria de beneficiários do RMG ou do RSI que levam a sua vida de uma forma tão honesta quanto esforçada é tão inerentemente injusto que não há explicação possível que se lhe possa colar.
Mas o CDS não é contra os apoios do Estado, como não é contra a imigração. É contra alguns apoios do Estado e contra alguma imigração.
O que fica do discurso ambíguo do CDS é que os apoios não são para quem precisa, mas sim para quem merece. A diferença entre uns e outros reside no facto de se poder definir indicadores objectivos para os primeiros, enquanto os segundos dependem sobretudo de juízos de valor, sempre subjectivos e muitas vezes arbitrários. Se alguém acredita que este esquema não gera subsídio-dependência é muito ingénuo ou intelectualmente muito desonesto. Não só gera subsídio-dependência como gera subsídio-dependência de contornos caciquistas. Mas com essa, aparentemente, o CDS vive bem.
Mas o CDS não é contra os apoios do Estado, como não é contra a imigração. É contra alguns apoios do Estado e contra alguma imigração.
O que fica do discurso ambíguo do CDS é que os apoios não são para quem precisa, mas sim para quem merece. A diferença entre uns e outros reside no facto de se poder definir indicadores objectivos para os primeiros, enquanto os segundos dependem sobretudo de juízos de valor, sempre subjectivos e muitas vezes arbitrários. Se alguém acredita que este esquema não gera subsídio-dependência é muito ingénuo ou intelectualmente muito desonesto. Não só gera subsídio-dependência como gera subsídio-dependência de contornos caciquistas. Mas com essa, aparentemente, o CDS vive bem.
sexta-feira, 18 de julho de 2008
Cada país tem o George W. Bush que merece
Esqueçam o número de cantos dos Lusíadas, esqueçam o bolo-rei, esqueçam o mal disfarçado apoio a Manuela Ferreira Leite. Já tem uns meses, mas vale a pena ouvir.
Via Câmara Corporativa
Via Câmara Corporativa
quinta-feira, 17 de julho de 2008
Pretérito imperfeito
Ninguém pode dizer que a prestação sofrível de Manuela Ferreira Leite como líder do maior partido da oposição seja uma surpresa. O PSD conseguiu a proeza de minar de tal forma o seu mais recente funcionamento que a escolha óbvia nas últimas eleições internas era um mergulho sem glória no passado. MFL não está ligada a nenhum projecto político de envergadura e galvanizador para o país. Pelo contrário, quase sempre suscitou contestação no desempenho de cargos de relevo e está irremediavelmente ligada à desastrosa experiência do governo de Durão Barroso, a qual abriu as portas do partido e da governação aos piores momentos que, em democracia, se conhecem tanto num como noutra. Dificilmente qualquer estratégia de campanha conseguirá iludir estes factos. A memória dos eleitores pode ser curta, mas não é, certamente, assim tão curta.
"Não é fácil"
É com a titubeante frase de título deste post que os deputados socialistas justificam o adiamento do casamento entre pessoas do mesmo sexo. Ao contrário do que afirmam PSD e CDS, é à esquerda que este governo poderá perder votos decisivos para a maioria absoluta. Se não vão lá pela coragem de assumir a igualdade de direitos, ao menos sempre podiam tentar encarar o calculismo político por outra perspectiva.
Impossível de saber
Pretender saber exactamente quantas armas ilegais existem é um bocado como pretender saber exactamente quais os assaltos que vão ocorrer no dia seguinte.
quarta-feira, 16 de julho de 2008
segunda-feira, 14 de julho de 2008
Bandidos
Esta manhã, no blogue da TSF, perdão, no fórum da TSF, alguém dizia que os bairros sociais que se construíram foram aqueles que foi possível construir. Tenta-se, assim, atenuar a opção de criar guetos sociais num modelo cujo insucesso era já amplamente conhecido. Percebem-se as dificuldades financeiras a todos os níveis de intervenção política, mas, mesmo com o pouco dinheiro que havia e há, era difícil ter feito pior trabalho.
sexta-feira, 11 de julho de 2008
Ser benfiquista
Os jornais desportivos andam há semanas a fazer capa com o Pablo Aimar. O benfiquista prevenido desconfia.
quarta-feira, 9 de julho de 2008
Anti-americanismo
Alguns blogues descobriram que quem vai aos EUA descobre mais EUA do que aqueles que aparecem na televisão. E que o anti-americanismo se desvanece na miríade de aspectos positivos com os quais assim se contacta em primeira mão. Na minha modestíssima forma de ver as coisas, isto são conclusões que qualquer pessoa munida de um mínimo de bom senso pode retirar sem se levantar do sofá.
Autoridade
Para a diplomacia dos EUA, os testes balísticos do Irão constituem uma violação das disposições das Nações Unidas. Como o Irão representa realmente uma ameaça séria, seria muito mais conveniente que os EUA tivessem, eles mesmos, mostrado um bocadinho mais de respeito pela ONU. Serviria, por exemplo, para soarem muito mais convincentes neste momento delicado.
terça-feira, 8 de julho de 2008
Reconciliemo-nos, diziam eles
A Igreja Anglicana aprovou, por maiorias expressivas, a ordenação de mulheres bispos. O aceso debate e a polémica que antecederam esta alteração parecem ter traduzido menos consenso do que aquele que as votações demonstram. A favor da ordenação de mulheres estiveram 70% dos bispos, 74% do clero e 62% dos laicos, o que deixa muito pouca margem para ambiguidades.
Para a Igreja Católica, este é um passo que suscita “desgosto” e um “obstáculo à reconciliação” entre as duas Igrejas. Diz ainda a ICAR que a ordenação de mulheres constitui uma “ruptura com a tradição apostólica mantida por todas as Igrejas no primeiro milénio”. O facto de a ICAR ter de recuar mais de 1000 anos para apoiar as suas posições neste debate já devia ser suficiente para suscitar alguma reflexão para os lados de Roma. Mas o “desgosto” do Vaticano revela também uma certa forma de ecumenismo. A aproximação entre Igrejas é possível, desde que os modelos se aproximem daquilo que o catolicismo professa. Aliás, esta inflexibilidade, ligada ao medo de perder uma identidade que insiste em carregar consigo alguns dos mais preconceituosos modelos morais e culturais da era pré-medieval, explica bastante bem as dificuldades em manter-se como uma influência no ocidente moderno.
Deixemos de parte o facto de se saber para além de qualquer dúvida que os textos que compõem o Novo Testamento foram seleccionados e adulterados pelas correntes da proto-ortodoxia católica e de ser razoavelmente duvidoso que Jesus Cristo tenha escolhido para seus seguidores apenas homens, e mesmo assim ficamos com a imensidão de práticas descritas na Bíblia que foram abandonadas ao longo dos tempos, precisamente porque os textos bíblicos reflectem modelos de época que não se podem perpetuar sob pena de criarem anacronismos insustentáveis.
Ao recusar terminantemente a ordenação de mulheres, ao condenar a homossexualidade, ao estabelecer uma conexão absoluta entre sexo e procriação, a ICAR apresenta-se como uma Igreja que não é para todos. Alguns dirão que está no seu direito. Muito bem, que esteja. Mas nem é preciso ler os evangelhos que nunca chegaram a integrar o Novo Testamento para se perceber que as intenções de Jesus Cristo andavam longe desta Igreja que se reclama sua há 2000 anos. Há mais Igrejas para além desta Igreja Católica, mesmo dentro dela própria.
Para a Igreja Católica, este é um passo que suscita “desgosto” e um “obstáculo à reconciliação” entre as duas Igrejas. Diz ainda a ICAR que a ordenação de mulheres constitui uma “ruptura com a tradição apostólica mantida por todas as Igrejas no primeiro milénio”. O facto de a ICAR ter de recuar mais de 1000 anos para apoiar as suas posições neste debate já devia ser suficiente para suscitar alguma reflexão para os lados de Roma. Mas o “desgosto” do Vaticano revela também uma certa forma de ecumenismo. A aproximação entre Igrejas é possível, desde que os modelos se aproximem daquilo que o catolicismo professa. Aliás, esta inflexibilidade, ligada ao medo de perder uma identidade que insiste em carregar consigo alguns dos mais preconceituosos modelos morais e culturais da era pré-medieval, explica bastante bem as dificuldades em manter-se como uma influência no ocidente moderno.
Deixemos de parte o facto de se saber para além de qualquer dúvida que os textos que compõem o Novo Testamento foram seleccionados e adulterados pelas correntes da proto-ortodoxia católica e de ser razoavelmente duvidoso que Jesus Cristo tenha escolhido para seus seguidores apenas homens, e mesmo assim ficamos com a imensidão de práticas descritas na Bíblia que foram abandonadas ao longo dos tempos, precisamente porque os textos bíblicos reflectem modelos de época que não se podem perpetuar sob pena de criarem anacronismos insustentáveis.
Ao recusar terminantemente a ordenação de mulheres, ao condenar a homossexualidade, ao estabelecer uma conexão absoluta entre sexo e procriação, a ICAR apresenta-se como uma Igreja que não é para todos. Alguns dirão que está no seu direito. Muito bem, que esteja. Mas nem é preciso ler os evangelhos que nunca chegaram a integrar o Novo Testamento para se perceber que as intenções de Jesus Cristo andavam longe desta Igreja que se reclama sua há 2000 anos. Há mais Igrejas para além desta Igreja Católica, mesmo dentro dela própria.
segunda-feira, 7 de julho de 2008
sexta-feira, 4 de julho de 2008
Copinho de leite
Hoje, à hora de almoço, num café da Avenida da Liberdade, um conhecido comentador e analista político, de muitas noites de eleições e debates televisivos, cuja particularidade mais notável é a queda para a indigência intelectual, folheava o 24 Horas e tinha à sua frente o que parecia ser um copo de leite. Tudo faz sentido.
Meios e fins
Quando não se percebe que não se pode estar ao lado das mesmas pessoas que usam o rapto e o sequestro como armas políticas, quando não se percebe a legitimidade intrínseca de resgatar alguém de um cativeiro de um dia, quanto mais de sete anos, quando se reduz pessoas a classes e categorias para que a coerência ideológica justifique o injustificável e relativize o sofrimento concreto e indelével de reféns e respectivas famílias, quando não se percebe nada disto não se tem uma solução politicamente, socialmente e culturalmente razoável para entender e actuar num mundo moderno, democrático e humanista. E o resto é completamente secundário, porque quem não percebe isto é demasiado perigoso para ser encarado com normalidade num debate sobre o que quer que seja.
"Hoje vai ser mais um dia de inferno", diz, de repente, o homem no elevador.
quinta-feira, 3 de julho de 2008
A princípio é simples anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
quarta-feira, 2 de julho de 2008
I'll describe the way I feel
Weeping wounds that never heal
Weeping wounds that never heal
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Evidente e férreo
Na realidade, pela altura em que Marx estipulava a lei evidente e férrea da luta de classes, Faraday e Maxwell entretinham-se a demonstrar que a lei da gravidade de Newton não era tão evidente e férrea como isso.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Palpite
Tenho um pressentimento que acabou de abrir a época de tiro ao Scolari.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Corporativismos
Há sempre quem pense que proteger “os nossos” passa por fechar os olhos à falta de competência, ao desleixo ou à má fé. Parecem não perceber o tipo de “nossos” em que isso os transforma.
Mais bola, ou talvez não
Compreensivelmente, não faltam adeptos do FCP a exultar com a participação do clube na Liga dos Campeões. O SLB, se fosse gerido por pessoas sérias ou inteligentes, já para não pedir as duas qualidades em simultâneo, ter-se-ia abstido de qualquer papel nesta novela e teria afirmado desde o princípio, de forma simples e decidida, que disputaria a UEFA qualquer que fosse o destino reservado ao FCP.
Mas uma coisa é estranha. Se o SLB “não deve obter na secretaria o que não conseguiu em campo”, o que faz o seu sentido, por razões de honra mais do que por quaisquer outras, já o facto de o FCP ter andado igualmente a tentar ganhar fora de campo não parece ser tão incomodativa para tais aficionados. O oportunismo feroz não é bonito de se ver. A alegria baseada na batotice também não.
Mas uma coisa é estranha. Se o SLB “não deve obter na secretaria o que não conseguiu em campo”, o que faz o seu sentido, por razões de honra mais do que por quaisquer outras, já o facto de o FCP ter andado igualmente a tentar ganhar fora de campo não parece ser tão incomodativa para tais aficionados. O oportunismo feroz não é bonito de se ver. A alegria baseada na batotice também não.
Deve ser a tradição humanista da Europa a funcionar
Se os euro-deputados comungassem da memória de dias menos felizes na Europa que se pede aos irlandeses não tinham tanta pressa em aprovar legislação de natureza tão claramente hiper-securitária e xenófoba.
Ingratos
Se a Itália chegar à final do Europeu e ganhar a competição, é bom que toda a gente se lembre que a responsabilidade é de um senhor chamado Adrian Mutu, o qual, chamado a marcar um penalti que, prodigiosamente, arrumava de uma vez com França e Itália, não teve a dignidade sequer de falhar apontando ao adepto da última fila do estádio. Não, com tanta baliza, com tanta superfície de poste e trave, com tanta bancada, conseguiu atirar devagar, a meia altura, para o centro da baliza, onde, mesmo que Buffon não fosse o guarda-redes estupidamente bom que é (qual Petr Cech qual quê), bastava-lhe desmaiar para o seu lado esquerdo para defender a bola. É obrigá-los a passar a disputar competições da Confederação Asiática ou da Confederação Africana e que vão lá falhar penaltis decisivos contra o Iémen ou o Burkina Faso.
terça-feira, 17 de junho de 2008
Construir a Europa
Em mais um dos seus exercícios de paciente dedicação aos blogues, a Helena traduziu um artigo do Süddeutsche Zeitung sobre o projecto de construção da Europa. Talvez não exista, por esta altura, tema político mais actual e importante do que a consolidação política da União Europeia. Mas o texto que a Helena traduziu enferma de uma exagerada desculpabilização dos políticos e de uma exagerada diabolização dos eleitores irlandeses.
É preciso que se diga que o argumento dos 862 415 irlandeses que estão a travar os 490 milhões de europeus é pura demagogia. Não fossem os irlandeses os únicos a referendar o Tratado e logo se veria, com mais propriedade, quantos europeus poriam travão à Europa. Este é um juízo que é independente da valia do referendo para ratificação do Tratado ou da necessidade deste último. Mesmo sem considerar se o Tratado está bem elaborado ou não, se o processo está a ser bem gerido ou não, se a sua ratificação deve depender de métodos directos ou representativos, não se pode fingir que há apenas 800 mil irlandeses dispostos a dizer “não”. Em 500 milhões de consciências, custa a acreditar que mais de 99,8% delas estejam de acordo quanto ao presente e futuro da UE.
As campanhas são feitas pelos políticos e pelas suas máquinas de propaganda. Se na Irlanda se andou a discutir questões paralelas e alguns se aproveitaram para envenenar o processo com o seu populismo e os seus ajustes de contas internos, isso não pode ser certamente imputado aos eleitores. Essa culpa não morre solteira e se parece fácil atribuir as responsabilidades aos políticos é porque, neste caso, são eles efectivamente os principais, senão exclusivos, responsáveis. O envolvimento toca a todos, mas uns têm mais instrumentos à sua disposição para fazer as coisas de outro modo do que os outros.
Por outro lado, esta visão maniqueísta de “connosco ou contra nós”, tão popular depois do 11 de Setembro, é redutora e simplesmente injusta. Ser contra o Tratado não significa ser contra a Europa, nem contra o alargamento, nem contra o aprofundamento da integração económica e política. Ser contra o Tratado pode apenas significar que se pretende uma construção europeia diferente. O fim da História da Europa não está nem na recusa do Tratado nem na sua aceitação acrítica.
A Europa precisa de uma redefinição do seu processo de integração política, o que deu origem à defunta Constituição e, por sua vez, ao actual Tratado. A integração económica atingiu um nível de sofisticação muito elevado e, através das relações de mútuos benefícios que tem gerado, dá o cimento utilitarista para que o projecto da UE ambicione outros objectivos. Não é credível que algum dos países que a integram se imagine fora dela num futuro próximo, nem mesmo a sempre desconfiada Grã-Bretanha, nem se deve empurrar a Irlanda para o lado como um entrave indesejável. Construir uma integração política a 27 e preparada para continuar a ser alargada e aprofundada é um desígnio incontornável da UE, mas não se afigura tarefa fácil. Há uma diferença de substância entre a simplicidade e o simplismo. O projecto da UE, por muito bonito que fosse, dificilmente poderia residir apenas na primeira e não precisa definitivamente da segunda.
É preciso que se diga que o argumento dos 862 415 irlandeses que estão a travar os 490 milhões de europeus é pura demagogia. Não fossem os irlandeses os únicos a referendar o Tratado e logo se veria, com mais propriedade, quantos europeus poriam travão à Europa. Este é um juízo que é independente da valia do referendo para ratificação do Tratado ou da necessidade deste último. Mesmo sem considerar se o Tratado está bem elaborado ou não, se o processo está a ser bem gerido ou não, se a sua ratificação deve depender de métodos directos ou representativos, não se pode fingir que há apenas 800 mil irlandeses dispostos a dizer “não”. Em 500 milhões de consciências, custa a acreditar que mais de 99,8% delas estejam de acordo quanto ao presente e futuro da UE.
As campanhas são feitas pelos políticos e pelas suas máquinas de propaganda. Se na Irlanda se andou a discutir questões paralelas e alguns se aproveitaram para envenenar o processo com o seu populismo e os seus ajustes de contas internos, isso não pode ser certamente imputado aos eleitores. Essa culpa não morre solteira e se parece fácil atribuir as responsabilidades aos políticos é porque, neste caso, são eles efectivamente os principais, senão exclusivos, responsáveis. O envolvimento toca a todos, mas uns têm mais instrumentos à sua disposição para fazer as coisas de outro modo do que os outros.
Por outro lado, esta visão maniqueísta de “connosco ou contra nós”, tão popular depois do 11 de Setembro, é redutora e simplesmente injusta. Ser contra o Tratado não significa ser contra a Europa, nem contra o alargamento, nem contra o aprofundamento da integração económica e política. Ser contra o Tratado pode apenas significar que se pretende uma construção europeia diferente. O fim da História da Europa não está nem na recusa do Tratado nem na sua aceitação acrítica.
A Europa precisa de uma redefinição do seu processo de integração política, o que deu origem à defunta Constituição e, por sua vez, ao actual Tratado. A integração económica atingiu um nível de sofisticação muito elevado e, através das relações de mútuos benefícios que tem gerado, dá o cimento utilitarista para que o projecto da UE ambicione outros objectivos. Não é credível que algum dos países que a integram se imagine fora dela num futuro próximo, nem mesmo a sempre desconfiada Grã-Bretanha, nem se deve empurrar a Irlanda para o lado como um entrave indesejável. Construir uma integração política a 27 e preparada para continuar a ser alargada e aprofundada é um desígnio incontornável da UE, mas não se afigura tarefa fácil. Há uma diferença de substância entre a simplicidade e o simplismo. O projecto da UE, por muito bonito que fosse, dificilmente poderia residir apenas na primeira e não precisa definitivamente da segunda.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Mais que perfeito
O problema desta linha de pensamento é que, quando se reúne a elite para tomar decisões e se deixa o povo à porta à espera do resultado, ninguém garante a ninguém, à partida, quem fica do lado de dentro e quem fica do lado de fora. Dito de outra forma, a melhor garantia que tenho de que o que digo é ouvido é assegurando que o que qualquer pessoa diga seja ouvido. Porque, dêem-se as voltas ao texto que se quiser, as estratificações, por mais que sociologicamente justificáveis, serão sempre politicamente inaceitáveis.
Se viermos falar na competência que investimos nos nossos políticos ao elegê-los, a questão ganha contornos bastante diferentes.Mas se o argumento é “a insanidade política que é submeter a decisão popular um texto incompreensível para quase toda a gente, onde a decisão pode ser tomada com base nos elementos mais aleatórios que se podem imaginar”, parece-me que estamos demasiado perto de uma linha que, uma vez atravessada, permite todo o tipo de justificações elitistas anti-democráticas.
Se viermos falar na competência que investimos nos nossos políticos ao elegê-los, a questão ganha contornos bastante diferentes.Mas se o argumento é “a insanidade política que é submeter a decisão popular um texto incompreensível para quase toda a gente, onde a decisão pode ser tomada com base nos elementos mais aleatórios que se podem imaginar”, parece-me que estamos demasiado perto de uma linha que, uma vez atravessada, permite todo o tipo de justificações elitistas anti-democráticas.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Casa de ferreiro
Entre os anos 50 e 60, para não falar de histórias mais recentes, quando já metade do mundo clamava contra cortinas de ferro, a população negra do Sul da América lutava pelo direito de se sentar nos mesmos bancos de autocarro dos brancos, pelo direito de entrar nos mesmos restaurantes e hotéis, pelo direito a frequentar as mesmas escolas e universidades e pelo direito a eleger e ser eleito para cargos públicos. Muitas vezes a liberdade é uma palavra que enche a boca de pessoas que sempre a acham mais urgente em casa alheia.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
A excepção
O corolário do post anterior é que Barack Obama deve representar apenas Barack Obama. Para os que acham que ter o primeiro afro-americano da história na recta final da corrida para a Casa Branca é um sinal inequívoco de mudança, interessa relembrar que Obama é um candidato preferido pelo que os especialistas de marketing político americano chamam wine drinkers e tem sérias dificuldades com os chamados beer drinkers. É um produto de elite, mais facilmente acarinhado pelas elites, que as estatísticas sócio-económicas se encarregam de demonstrar ter muito pouco a ver com a esmagadora maioria da população desfavorecida dos EUA, qualquer que seja a sua cor de pele. Barack Obama é a excepção que confirma a regra.
Romantizar
Em política, há sempre quem romantize. Barack Obama, para além daquilo que possa, ou não, valer como futuro presidente dos EUA, é uma inevitável romantização política. Porque tem um discurso articulado e que entusiasma, porque é novo e atraente e porque a América tem ainda muitas contas para ajustar na questão das igualdades étnicas. É impossível não ver na nomeação de Obama algo mais que o simples acto em si. Na sua imagem reúne-se a superação de séculos de escravatura e discriminação, o triunfo da perseverância e a vitória das oportunidades para todos. Mas atribuir demasiada importância a esta perspectiva tolda o julgamento político. Em política, a romantização e as más interpretações nunca são uma boa notícia. E por muito difícil que seja a avaliação, os candidatos devem valer pelo que são e não pelo que gostaríamos que fossem.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Uma outra Feira do Livro
As quesílias do mundo editorial ultrapassam-me. As lutas de poder e de protagonismo que giram em torno da Feira do Livro de Lisboa pouco me têm interessado e confesso que nem sequer me esforço por me inteirar das razões da contenda. Com os anos, ou, de forma menos eufemística, com a idade, vamos descobrindo que, paulatinamente, vão surgindo pequenas intolerâncias para com certas coisas, as quais acarinhamos e desenvolvemos até atingirem um nível de requinte muito pessoal. Para nós são um sinal evidente de que o amadurecimento dos gostos nos torna selectivos e exigentes. Para todos os restantes são a prova provada de que a idade se encarrega de nos tornar cada vez mais chatos e embirrantes.
O meu grau de crescente exigência já não concebe que se descure a internet como um canal privilegiado de comuicação. Menos ainda que um evento como a Feira do Livro não aproveite todas as potencialidades deste meio, como se não houvesse já exemplos suficientes de como o rentabilizar devidamente. Mas, por falha dos organizadores, ou por falha dos editores, ou por falha de todos, o que nos chega é o mesmo modelo de sempre, em que as estratégias de promoção e venda passam por ocultar a informação e o interesse do cliente vem sempre, na melhor das hipóteses, em segundo lugar.
Numa outra Feira do Livro, o Livro do Dia seria uma iniciativa para fidelizar clientes e promover o gosto pela leitura, colocando à venda os melhores livros, dos melhores autores, aos melhores preços, e nunca serviria para tentar desencalhar monos que atafulham armazéns esconsos desde o tempo em que os cabelos com brilhantina estavam na moda. Numa outra Feira do Livro, a lista de Livros do Dia de todos os editores e para todo o período da Feira seria divulgada no primeiro minuto do evento, para que os compradores pudessem definir prioridades e planear as suas visitas. Numa outra Feira do Livro, esta informação estaria disponível permanentemente no site, através do qual também seria possível fazer reservas e encomendas.
Os portugueses lêem pouco, os livros estão caros e não são uma prioridade nas despesas familiares. Como a necessidade é a mãe de todas as invenções, dir-se-ia que este seria o momento para apostar em novos modelos – que já nem são tão novos como isso. Mas há sempre quem torça o nariz e desconfie e prossiga, parafraseando o outro, de prejuízo em prejuízo até à falência final.
O meu grau de crescente exigência já não concebe que se descure a internet como um canal privilegiado de comuicação. Menos ainda que um evento como a Feira do Livro não aproveite todas as potencialidades deste meio, como se não houvesse já exemplos suficientes de como o rentabilizar devidamente. Mas, por falha dos organizadores, ou por falha dos editores, ou por falha de todos, o que nos chega é o mesmo modelo de sempre, em que as estratégias de promoção e venda passam por ocultar a informação e o interesse do cliente vem sempre, na melhor das hipóteses, em segundo lugar.
Numa outra Feira do Livro, o Livro do Dia seria uma iniciativa para fidelizar clientes e promover o gosto pela leitura, colocando à venda os melhores livros, dos melhores autores, aos melhores preços, e nunca serviria para tentar desencalhar monos que atafulham armazéns esconsos desde o tempo em que os cabelos com brilhantina estavam na moda. Numa outra Feira do Livro, a lista de Livros do Dia de todos os editores e para todo o período da Feira seria divulgada no primeiro minuto do evento, para que os compradores pudessem definir prioridades e planear as suas visitas. Numa outra Feira do Livro, esta informação estaria disponível permanentemente no site, através do qual também seria possível fazer reservas e encomendas.
Os portugueses lêem pouco, os livros estão caros e não são uma prioridade nas despesas familiares. Como a necessidade é a mãe de todas as invenções, dir-se-ia que este seria o momento para apostar em novos modelos – que já nem são tão novos como isso. Mas há sempre quem torça o nariz e desconfie e prossiga, parafraseando o outro, de prejuízo em prejuízo até à falência final.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Acontecimentos
Não ver televisão tem as suas vantagens. A principal é que as coisas regressam à dimensão que possuem sem o efeito promocional que a televisão lhes empresta. Hoje em dia, até os telejornais são programas de entretenimento. De outra forma, não faria sentido que durassem mais de 30 minutos, como não faz sentido que se transmitam directos de todos os sítios e mais alguns, a propósito de tudo e mais alguma coisa. Os factos deixam de ser factos e passam a ser "acontecimentos". A forma passa a definir o conteúdo e a propaganda incessante encarrega-se de relegar para segundo plano os restantes factos que concorrem por espaço noticioso televisivo.
O distanciamento do exagero que a promoção dos "acontecimentos" assume não apaga a sua importância. Antes permite que ela seja equacionada em perspectiva e de um ponto de vista muito mais pessoal. O julgamento é aquele que cada um faz em função dos seus interesses e prioridades, e não o que é definido a priori por terceiros e que só por manifesta ingenuidade pode ser considerado imparcial e destituído de interesses. A televisão dá mais importância ao futebol porque o futebol interessa e o futebol interessa porque a televisão dá mais importância ao futebol. Este é o ciclo viciado das prioridades editoriais e a principal explicação que desmistifica a falsidade de que "as audiências provam que a televisão transmite o que as pessoas querem ver".
Sem televisão, o terramoto de Sichuan continuará sempre a ser uma tragédia, mas o Rock in Rio é apenas uma sucessão de concertos e o Euro 2008 são apenas jogos de futebol.
O distanciamento do exagero que a promoção dos "acontecimentos" assume não apaga a sua importância. Antes permite que ela seja equacionada em perspectiva e de um ponto de vista muito mais pessoal. O julgamento é aquele que cada um faz em função dos seus interesses e prioridades, e não o que é definido a priori por terceiros e que só por manifesta ingenuidade pode ser considerado imparcial e destituído de interesses. A televisão dá mais importância ao futebol porque o futebol interessa e o futebol interessa porque a televisão dá mais importância ao futebol. Este é o ciclo viciado das prioridades editoriais e a principal explicação que desmistifica a falsidade de que "as audiências provam que a televisão transmite o que as pessoas querem ver".
Sem televisão, o terramoto de Sichuan continuará sempre a ser uma tragédia, mas o Rock in Rio é apenas uma sucessão de concertos e o Euro 2008 são apenas jogos de futebol.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
A globalização do futebol
Um dos temas mais interessantes para discutir as consequências práticas da globalização é o futebol. Mais concretamente, as suas implicações no modelo de organização e gestão do futebol moderno.
Há muitos críticos do rumo que o futebol está a tomar. Se quisermos agrupar as opiniões em apenas duas barricadas, de um lado temos os que defendem que o futebol (e o desporto, de uma forma geral) deve representar um caso de excepção no enquadramento legislativo europeu, enquanto do outro temos os que defendem precisamente o contrário. As leis do futebol europeu, neste momento, alinham pela livre circulação de jogadores, em concordância com o que se passa no mercado de trabalho comum da UE. Na opinião de alguns, isso descaracterizou os campeonatos nacionais, prejudicando a formação de novos talentos nas escolas dos clubes, ao mesmo tempo que agudizou uma divisão entre clubes de elite, com orçamentos milionários, e clubes de segunda, com orçamentos modestos.
Há uns anos, o modelo das competições europeias de clubes começou a sofrer alterações profundas de forma a maximizar as receitas televisivas. Na UEFA, alguém se lembrou que, dentro da lógica do futebol-entretenimento, seria interessante ver com mais frequência as melhores equipas jogar entre si. Como, matematicamente, isto é muito complicado de ver acontecer num modelo de eliminatórias e apenas com um representante por país, no caso da Taça dos Campeões, nasceu o conceito de Liga dos Campeões. Nesta última, existem fases de grupos e podemos encontrar até um máximo de quatro equipas de um mesmo campeonato. O aparente contrasenso de termos uma Liga de Campeões cuja final pode, hipoteticamente, ser disputada entre duas equipas que não conseguiram melhor que a quarta classificação no seu campeonato nacional não impediu a sua implementação.
O lema da UEFA é “We care about football”. Mas não cometemos uma grande injustiça se dissermos que a sua preocupação passa muito, sim, pelas receitas do futebol. De resto, as boas intenções da UEFA e da FIFA para com o futebol-desporto são sempre de desconfiar. Basta relembrar que a final de Moscovo, este ano, terminou depois da uma da manhã, hora local, ou que muitos dos jogos do Campeonato do Mundo nos EUA, em 1994, se disputaram debaixo de um Sol implacável e temperaturas altíssimas, para benefício das transmissões televisivas para a Europa.
O principal problema do futebol é que o actual modelo, que gera receitas fabulosas, não foi acompanhado de uma política sensata de distribuição de riqueza. Quem já dispunha de orçamentos elevados teve a oportunidade de ganhar ainda mais. Quem não dispunha de recursos, viu-se progressivamente afastado da possibilidade de diminuir a diferença para os clubes de elite. Neste Verão, fala-se de transferências milionárias como sempre se tem falado desde há uns anos. O Chelsea pode oferecer mais de 60 milhões de euros por um avançado do Liverpool. O Inter poderá gastar mais de 40 milhões para reforçar-se de acordo com os desejos do seu novo treinador. O Real Madrid pondera seriamente a hipótese de contratar Cristiano Ronaldo ao Manchester United por qualquer coisa como 80 milhões de euros.
Perante um cenário que pouca gente terá a coragem de não apelidar de excessivo, alguns voltam-se para a livre circulação de jogadores como uma das causas do descalabro, pretendendo, obviamente, restringi-la. Desse modo esperam que regresse um maior equilíbrio entre clubes europeus. Mas muito mais eficaz, e até justa, seria a imposição de limitações de outro nível. O actual modelo beneficia um número muito restrito de jogadores. Cerceando a circulação de jogadores de uma forma geral, não só não se impede que os valores de transferências continuem a subir, como se ataca o direito de uma imensa maioria de futebolistas que não deixam de ser trabalhadores e não ganham, nem de perto nem de longe, os salários que enchem as manchetes dos diários desportivos. Assim, sobra por exemplo a imposição de tectos salariais e de tectos para transferências. E sobra também uma distribuição de receitas que não favoreça apenas os que já possuem os maiores trunfos, mas que beneficie a modalidade como um todo. Se é competição que se pretende, então este será um caminho muito mais seguro.
O futebol não pode ser encarado puramente como desporto nem puramente como negócio de entretenimento, pois muito mais está em causa. De alguma forma, criou-se a ideia de que os dois modelos são inconciliáveis, o que não é verdade. Soluções de compromisso são sempre possíveis. Basta vontade de as alcançar e não recorrer à primeira solução aparentemente milagrosa que apareça.
Há muitos críticos do rumo que o futebol está a tomar. Se quisermos agrupar as opiniões em apenas duas barricadas, de um lado temos os que defendem que o futebol (e o desporto, de uma forma geral) deve representar um caso de excepção no enquadramento legislativo europeu, enquanto do outro temos os que defendem precisamente o contrário. As leis do futebol europeu, neste momento, alinham pela livre circulação de jogadores, em concordância com o que se passa no mercado de trabalho comum da UE. Na opinião de alguns, isso descaracterizou os campeonatos nacionais, prejudicando a formação de novos talentos nas escolas dos clubes, ao mesmo tempo que agudizou uma divisão entre clubes de elite, com orçamentos milionários, e clubes de segunda, com orçamentos modestos.
Há uns anos, o modelo das competições europeias de clubes começou a sofrer alterações profundas de forma a maximizar as receitas televisivas. Na UEFA, alguém se lembrou que, dentro da lógica do futebol-entretenimento, seria interessante ver com mais frequência as melhores equipas jogar entre si. Como, matematicamente, isto é muito complicado de ver acontecer num modelo de eliminatórias e apenas com um representante por país, no caso da Taça dos Campeões, nasceu o conceito de Liga dos Campeões. Nesta última, existem fases de grupos e podemos encontrar até um máximo de quatro equipas de um mesmo campeonato. O aparente contrasenso de termos uma Liga de Campeões cuja final pode, hipoteticamente, ser disputada entre duas equipas que não conseguiram melhor que a quarta classificação no seu campeonato nacional não impediu a sua implementação.
O lema da UEFA é “We care about football”. Mas não cometemos uma grande injustiça se dissermos que a sua preocupação passa muito, sim, pelas receitas do futebol. De resto, as boas intenções da UEFA e da FIFA para com o futebol-desporto são sempre de desconfiar. Basta relembrar que a final de Moscovo, este ano, terminou depois da uma da manhã, hora local, ou que muitos dos jogos do Campeonato do Mundo nos EUA, em 1994, se disputaram debaixo de um Sol implacável e temperaturas altíssimas, para benefício das transmissões televisivas para a Europa.
O principal problema do futebol é que o actual modelo, que gera receitas fabulosas, não foi acompanhado de uma política sensata de distribuição de riqueza. Quem já dispunha de orçamentos elevados teve a oportunidade de ganhar ainda mais. Quem não dispunha de recursos, viu-se progressivamente afastado da possibilidade de diminuir a diferença para os clubes de elite. Neste Verão, fala-se de transferências milionárias como sempre se tem falado desde há uns anos. O Chelsea pode oferecer mais de 60 milhões de euros por um avançado do Liverpool. O Inter poderá gastar mais de 40 milhões para reforçar-se de acordo com os desejos do seu novo treinador. O Real Madrid pondera seriamente a hipótese de contratar Cristiano Ronaldo ao Manchester United por qualquer coisa como 80 milhões de euros.
Perante um cenário que pouca gente terá a coragem de não apelidar de excessivo, alguns voltam-se para a livre circulação de jogadores como uma das causas do descalabro, pretendendo, obviamente, restringi-la. Desse modo esperam que regresse um maior equilíbrio entre clubes europeus. Mas muito mais eficaz, e até justa, seria a imposição de limitações de outro nível. O actual modelo beneficia um número muito restrito de jogadores. Cerceando a circulação de jogadores de uma forma geral, não só não se impede que os valores de transferências continuem a subir, como se ataca o direito de uma imensa maioria de futebolistas que não deixam de ser trabalhadores e não ganham, nem de perto nem de longe, os salários que enchem as manchetes dos diários desportivos. Assim, sobra por exemplo a imposição de tectos salariais e de tectos para transferências. E sobra também uma distribuição de receitas que não favoreça apenas os que já possuem os maiores trunfos, mas que beneficie a modalidade como um todo. Se é competição que se pretende, então este será um caminho muito mais seguro.
O futebol não pode ser encarado puramente como desporto nem puramente como negócio de entretenimento, pois muito mais está em causa. De alguma forma, criou-se a ideia de que os dois modelos são inconciliáveis, o que não é verdade. Soluções de compromisso são sempre possíveis. Basta vontade de as alcançar e não recorrer à primeira solução aparentemente milagrosa que apareça.
Hora do disparate
E depois os blogues é que estão cheios de abordagens simplistas e de opiniões avulsas.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Bios Politikos
Um blogue por natureza intermitente.
quarta-feira, 26 de março de 2008
IVA (2)
Num registo mais sério, o que a descida do IVA representa é o início da campanha não oficial para as próximas legislativas.
IVA
A descida do IVA de 21% para 20% só se pode explicar se, com a proliferação de trabalho precário, alguém no Ministério das Finanças tiver tido a visão de facilitar as contas para o preenchimento dos recibos verdes. E quem ache que estou a exagerar é porque, com toda a certeza, nunca perdeu muito tempo do seu dia de trabalho à espera que a pessoa que tem à frente perceba o funcionamento do valor bruto, da retenção na fonte, da incidência de IVA, do valor líquido e da tenebrosa soma algébrica para apurar o resultado.
quinta-feira, 20 de março de 2008
Fazer rolar cabeças
A notícia já é do fim-de-semana passado. Existem lares, apoiados pelo Estado, a recusar idosos infectados com HIV. Mencionou-se a possibilidade, reconhecidamente extrema, de vir a retirar os apoios concedidos a esses lares. O presidente da União das Misericórdias, Manuel Lemos, reagindo a essa ainda que remota possibilidade, apelou à “pedagogia” e rejeitou que se “corte cabeças a torto e a direito”.
Tem razão o presidente das Misericórdias. A pedagogia e a sensibilização são sempre soluções altamente recomendáveis, pelo menos para aqueles que acreditam que a mudança é possível. Da mesma forma, os lares das Misericórdias desempenham um papel importantíssimo e seria eventualmente nefasto colocá-los numa situação difícil que acabaria por prejudicar, em último caso, a população que beneficia dos serviços por eles prestados.
Tudo isto faz sentido e parece equilibrado, mas a questão não se esgota aqui. Tudo parece apontar para que os casos relatados representem situações pontuais. Mas é preciso que nos perguntemos a partir de que número as coisas passam a ganhar um relevo impossível de ignorar e em que circunstâncias é legítimo pedir responsabilidades. Três casos pontuais de discriminação são apenas um deslize ou são três casos a mais do que se pode aceitar? Faz sentido admitir que discriminar poucos é melhor do que discriminar muitos?
Ninguém recusará méritos à pedagogia, mas espera-se que, mais de duas décadas depois do mundo ter despertado para a realidade da SIDA, pessoas com responsabilidades em áreas ligadas à acção social estivessem entre a população mais sensibilizada para os problemas da discriminação e da exclusão. Tem de ser possível traçar uma linha que divida aqueles que reúnem condições para as funções que ocupam dos que não as possuem. Não se trata de fazer rolar cabeças. Trata-se de assegurar que as pessoas estão à altura dos cargos. Ao Estado não cabe pedir cabeças, mas é perfeitamente legítimo que exija que aos apoios que concede corresponda um desempenho de acordo com o princípio da igualdade de direitos. A União das Misericórdias, por todo o trabalho que não se pode deixar de se lhe reconhecer, devia ser a primeira a preocupar-se com isso. Quando estão em causa questões fundamentais, os números não são realmente importantes.
Tem razão o presidente das Misericórdias. A pedagogia e a sensibilização são sempre soluções altamente recomendáveis, pelo menos para aqueles que acreditam que a mudança é possível. Da mesma forma, os lares das Misericórdias desempenham um papel importantíssimo e seria eventualmente nefasto colocá-los numa situação difícil que acabaria por prejudicar, em último caso, a população que beneficia dos serviços por eles prestados.
Tudo isto faz sentido e parece equilibrado, mas a questão não se esgota aqui. Tudo parece apontar para que os casos relatados representem situações pontuais. Mas é preciso que nos perguntemos a partir de que número as coisas passam a ganhar um relevo impossível de ignorar e em que circunstâncias é legítimo pedir responsabilidades. Três casos pontuais de discriminação são apenas um deslize ou são três casos a mais do que se pode aceitar? Faz sentido admitir que discriminar poucos é melhor do que discriminar muitos?
Ninguém recusará méritos à pedagogia, mas espera-se que, mais de duas décadas depois do mundo ter despertado para a realidade da SIDA, pessoas com responsabilidades em áreas ligadas à acção social estivessem entre a população mais sensibilizada para os problemas da discriminação e da exclusão. Tem de ser possível traçar uma linha que divida aqueles que reúnem condições para as funções que ocupam dos que não as possuem. Não se trata de fazer rolar cabeças. Trata-se de assegurar que as pessoas estão à altura dos cargos. Ao Estado não cabe pedir cabeças, mas é perfeitamente legítimo que exija que aos apoios que concede corresponda um desempenho de acordo com o princípio da igualdade de direitos. A União das Misericórdias, por todo o trabalho que não se pode deixar de se lhe reconhecer, devia ser a primeira a preocupar-se com isso. Quando estão em causa questões fundamentais, os números não são realmente importantes.
quarta-feira, 19 de março de 2008
Promessas vãs
Recentemente, quando Alvin Toffler passou por Portugal, ganhou algum destaque o facto de ter afirmado preferir Barack Obama porque representava um sinal positivo para o resto do mundo. Argumentou-se, não sem razão, que escolher candidatos em função do sinal que representam talvez não seja a opção mais sensata. Contudo, quase ninguém reparou que Toffler complementou a sua preferência afirmando que não acreditava que nenhum candidato cumprisse as promessas que faz. O contexto é importante e as declarações aparentemente superficiais podem sempre encerrar algum tipo de raciocínio mais esclarecido.
sábado, 15 de março de 2008
Leis potencialmente inúteis
O governo quer acabar com as raças de cães consideradas perigosas em território nacional. Como as pessoas que usam cães como prolongamento dos seus egos e que não entendem ou não respeitam os mais elementares conselhos da sua educação e sociabilização não vão desenvolver um súbito interesse por peixes de aquário, é provável que daqui a 5 ou 10 anos tenhamos o mesmo tipo de problemas que levaram a esta lei envolvendo outras raças.
Aquilo que é considerado perigoso ou agressivo (conceitos diferentes, convém lembrar) varia de país para país. Curiosamente, na lista italiana não consta o Mastim Napolitano, que está na lista alemã, onde, por sua vez, não está o Rottweiler, que está na lista espanhola, onde não está o cão das Canárias, que está na lista italiana, onde o Serra da Estrela e o Rafeiro do Alentejo também são considerados com risco de agressividade e já foram tidos como potencialmente perigosos. Mas em Portugal não. Tudo muito objectivo, como se vê.
Aquilo que é considerado perigoso ou agressivo (conceitos diferentes, convém lembrar) varia de país para país. Curiosamente, na lista italiana não consta o Mastim Napolitano, que está na lista alemã, onde, por sua vez, não está o Rottweiler, que está na lista espanhola, onde não está o cão das Canárias, que está na lista italiana, onde o Serra da Estrela e o Rafeiro do Alentejo também são considerados com risco de agressividade e já foram tidos como potencialmente perigosos. Mas em Portugal não. Tudo muito objectivo, como se vê.
quinta-feira, 13 de março de 2008
Resumo da situação
Um dos comentários do blogue da Atlântico, a propósito da capa miserável do DN de terça-feira, refere que, jornalisticamente falando, “a fotografia está bem apanhada, porque vende e porque levanta polémica”, acrescentando depois que, apesar de não ser uma história para figurar no jornal, “as vendas falam mais alto, e por vezes é necessário abdicar de certos princípios para ganhar leitores e visibilidade”.
Eis a descrição do estado a que chegou a comunicação social. Vender e polemizar são conceitos relevantes para a definição de jornalismo e os princípios são relativizáveis em função da visibilidade. Não poderia estar melhor condensado.
Eis a descrição do estado a que chegou a comunicação social. Vender e polemizar são conceitos relevantes para a definição de jornalismo e os princípios são relativizáveis em função da visibilidade. Não poderia estar melhor condensado.
quarta-feira, 12 de março de 2008
Lixo
Se a mulher do presidente da CML, António Costa, não tem actividade política conhecida, se tece comentários em círculos reservados, se se limita a participar numa manifestação a título pessoal, esta pseudo-notícia no DN é puro lixo e tem como única finalidade dar visibilidade às tristes e mal intencionadas insinuações de Paulo Pinto Mascarenhas. A forma de estar na política do círculo próximo de Paulo Portas já é bem conhecida. A falta de dignidade de imprensa de referência, infelizmente, também já vai sendo.
O gosto e a qualidade
Existe um pequeno problema com a adenda do João Tunes ao seu post A Mania Fixada dos 3 F. O raciocínio explicita uma dicotomia acentuada entre massas e vanguarda cultural. Essa dicotomia não existe nesses moldes. Nem eu sou a pessoa indicada para escrever um texto de sociologia do consumo cultural nem este blogue precisa de mais textos impenetráveis que ninguém lê, mas as lógicas do consumo respeitam mais um ordenamento em espiral do que uma divisão dicotómica. As diversas classes sociais aspiram ao padrão de consumo das classes que lhe estão imediatamente acima e procuram afastar-se dos padrões das que lhes estão imediatamente abaixo. Para que fique bem claro, este acima e abaixo são usados devido ao suporte metafórico da espiral. Não estou, ainda, a fazer juízos de valor. Posso gostar do livro A, do filme B, do programa C e da reportagem D. Outros discordarão. Nada de especial. São meras preferências.
O juízo de valor começa quando se propõe uma hierarquia baseada num qualquer conjunto de critérios. Apesar da crescente facilidade de segmentação do mercado e de difusão de conteúdos, as escolhas têm de ser feitas. Voltando ao nosso caso, abrir telejornais com notícias de futebol ou com a maior manifestação contra o governo não pode ter o mesmo valor, sob pena de cairmos num relativismo niilista. O número de simpatizantes do SLB e do SCP não é um argumento forte porque, se admitirmos que todos os simpatizantes de um clube se interessam de forma homogénea pelo resultado do fim-de-semana, nada nos impede de afirmar que todos os cidadãos de um país se interessam de forma homogénea pelos acontecimentos que influenciam a sua governação.
Os conteúdos noticiosos, a abordagem jornalística e a hierarquia de prioridades são passíveis de ser julgados. Se as audiências são um indicador de preferência mas não de qualidade, então como medir esta última? Julgo que a resposta se encontra em critérios de relevância objectiva dos assuntos e em rigor de tratamento da informação. Parece-me inquestionável que, objectivamente, o que está relacionado com a governação tem primazia sobre o que se relaciona com o desporto. A política e o entretenimento não estão ao mesmo nível de importância. Se uma boa parte das pessoas prefere as reportagens sobre o Benfica e o Sporting, isso é sobretudo um problema de cidadania e de demissão das responsabilidades cívicas, e não um problema que ponha em causa a hierarquia valorativa que propus. Não somos um povo de mandados, nem de tontos, nem de elites e de massas. Somos um país com fracos níveis de maturidade democrática e de cultura cívica, em que a ética e a qualidade não são suficientemente valorizadas.
O juízo de valor começa quando se propõe uma hierarquia baseada num qualquer conjunto de critérios. Apesar da crescente facilidade de segmentação do mercado e de difusão de conteúdos, as escolhas têm de ser feitas. Voltando ao nosso caso, abrir telejornais com notícias de futebol ou com a maior manifestação contra o governo não pode ter o mesmo valor, sob pena de cairmos num relativismo niilista. O número de simpatizantes do SLB e do SCP não é um argumento forte porque, se admitirmos que todos os simpatizantes de um clube se interessam de forma homogénea pelo resultado do fim-de-semana, nada nos impede de afirmar que todos os cidadãos de um país se interessam de forma homogénea pelos acontecimentos que influenciam a sua governação.
Os conteúdos noticiosos, a abordagem jornalística e a hierarquia de prioridades são passíveis de ser julgados. Se as audiências são um indicador de preferência mas não de qualidade, então como medir esta última? Julgo que a resposta se encontra em critérios de relevância objectiva dos assuntos e em rigor de tratamento da informação. Parece-me inquestionável que, objectivamente, o que está relacionado com a governação tem primazia sobre o que se relaciona com o desporto. A política e o entretenimento não estão ao mesmo nível de importância. Se uma boa parte das pessoas prefere as reportagens sobre o Benfica e o Sporting, isso é sobretudo um problema de cidadania e de demissão das responsabilidades cívicas, e não um problema que ponha em causa a hierarquia valorativa que propus. Não somos um povo de mandados, nem de tontos, nem de elites e de massas. Somos um país com fracos níveis de maturidade democrática e de cultura cívica, em que a ética e a qualidade não são suficientemente valorizadas.
terça-feira, 11 de março de 2008
Efes
Se não tresli, sou acusado de alinhar pelo diapasão dos que acham que temos um povo de mandados que cai na primeira esparrela que apanha à frente. Mas entre aquilo com que o povo se distrai e aquilo com que querem distrair o povo vai uma grande diferença. Há ciclos mediáticos e, apesar de termos telejornais de quase 90 minutos, o tempo de cobertura não deixa de ter de ser distribuído entre as várias notícias. Sem Camacho e sem a crise de resultados do Sporting sobrava bastante mais tempo para dedicar a outras coisas. Se alguém me pedisse a opinião, eu diria que o futebol não deve abrir telejornais nem fazer capa de periódicos generalistas. Mas ninguém pediu e a comunicação social nunca cessa de nos surpreender com as suas opções editoriais.
Levo uns anos valentes a menos disto do que o João Tunes. Mesmo assim, se não me falha nada, quer-me parecer que os três F elucidam mais sobre o que o regime salazarista reservava às massas do que sobre as preferências destas. Acho que do meu post não se retira que somos um povo de mandados e de tontinhos distraídos. Quanto muito, retira-se que dentro do PS deve haver quem esteja aliviado por dividir um ciclo mediático que não lhe é particularmente favorável. Se parecer outra coisa, façam favor de dizer, mesmo que seja para me explicar o que é que eu estava a pensar quando escrevi o texto.
Levo uns anos valentes a menos disto do que o João Tunes. Mesmo assim, se não me falha nada, quer-me parecer que os três F elucidam mais sobre o que o regime salazarista reservava às massas do que sobre as preferências destas. Acho que do meu post não se retira que somos um povo de mandados e de tontinhos distraídos. Quanto muito, retira-se que dentro do PS deve haver quem esteja aliviado por dividir um ciclo mediático que não lhe é particularmente favorável. Se parecer outra coisa, façam favor de dizer, mesmo que seja para me explicar o que é que eu estava a pensar quando escrevi o texto.
Provocação
Oitenta escudos por um bilhete para Genesis? Parece-me um bom preço de mercado ainda hoje.
segunda-feira, 10 de março de 2008
Timing perfeito
No fim-de-semana da maior manifestação contra o governo de José Sócrates, o treinador do Benfica demite-se e o Sporting encaixa dois secos em Guimarães, consolidando uma renhida luta pelo apuramento para a UEFA. No Largo do Rato devem estar a acender velinhas aos santos.
domingo, 9 de março de 2008
Tramaram-se
O PSOE ganhou novamente as eleições espanholas. Perdeu o PP, claro, mas, acima de tudo, perdeu a Igreja Católica espanhola. Os bispos espanhóis quiseram ir a votos e obtiveram uma resposta inequívoca de uma sociedade que está muito à frente do obscurantismo que pretendiam fazer vingar.
Muito curiosa é a convivência deste activismo político, quase militante, com as passagens dos Evangelhos que dão a César o que é de César. Não é uma realidade de agora, mas não deixa de ser estranho que ainda seja uma realidade nos dias de hoje.
Muito curiosa é a convivência deste activismo político, quase militante, com as passagens dos Evangelhos que dão a César o que é de César. Não é uma realidade de agora, mas não deixa de ser estranho que ainda seja uma realidade nos dias de hoje.
Feitios
Há uns tempos, quando já andavam a abrir a porta da rua a Camacho, comentava-se que se ele fosse um bom treinador não estaria no Benfica. O que Camacho percebe de futebol passa-me ao lado, tal como passa ao lado dos que o criticam na sua erudição de mesa de café. O que é certo é que o agora bi-ex-treinador do Benfica, não há melhor forma de o dizer, é daquelas pessoas que não está para aturar merdas. O que é muito mau para se trabalhar em futebol, onde quer que seja, e em Portugal, no que quer que seja.
terça-feira, 4 de março de 2008
Vapor político
O Rui Branco revela perplexidade pela bateria de críticas com que o Movimento Esperança Portugal foi recebido e prefere oferecer o benefício da dúvida ao projecto de Rui Marques.
O centro do centro, politicamente falando, é algo que não me agrada. É um posicionamento legítimo, claro, mas ideologicamente muito difícil de sustentar. O centro do centro, como opção política, parece-me coerente com um pragmatismo político muito activo. Podemos esperar para ver, mas quer-me parecer que a melhor estratégia, nesse caso, passaria por assumir projectos muito definidos. Para já, assistimos apenas uma manifestação de intenções que está entre o vazio e a ambiguidade que serve tudo.
Em segundo lugar, as expressões de eleição deste novo movimento deixam muito a desejar. Têm ligeiros laivos de demagogia messiânica e de ingenuidade político-social. Posicionem-se onde quiserem e escolham o discurso que lhes apetecer, mas é inegável que pretendem ocupar um espaço que está preenchido. E, assim sendo, não estou a ver como podem reclamá-lo sem uma crítica muito forte ao que tem sido o centro e os seus actores políticos no passado recente.
Por estes lados, não se trata tanto de cuspir em todas as direcções nem de distribuir porrada pelos pequeninos. Opiniões, já dizia o outro, cada um tem a sua. O MEP propõe-se mudar o país pelo centro, privilegiando o que nos une e construindo pontes. Mas de substância e ideias concretas não apresenta nada. É tudo tão vaporoso que, para ser sincero, não sei se chega, sequer, para ser qualificado como demagogia.
O centro do centro, politicamente falando, é algo que não me agrada. É um posicionamento legítimo, claro, mas ideologicamente muito difícil de sustentar. O centro do centro, como opção política, parece-me coerente com um pragmatismo político muito activo. Podemos esperar para ver, mas quer-me parecer que a melhor estratégia, nesse caso, passaria por assumir projectos muito definidos. Para já, assistimos apenas uma manifestação de intenções que está entre o vazio e a ambiguidade que serve tudo.
Em segundo lugar, as expressões de eleição deste novo movimento deixam muito a desejar. Têm ligeiros laivos de demagogia messiânica e de ingenuidade político-social. Posicionem-se onde quiserem e escolham o discurso que lhes apetecer, mas é inegável que pretendem ocupar um espaço que está preenchido. E, assim sendo, não estou a ver como podem reclamá-lo sem uma crítica muito forte ao que tem sido o centro e os seus actores políticos no passado recente.
Por estes lados, não se trata tanto de cuspir em todas as direcções nem de distribuir porrada pelos pequeninos. Opiniões, já dizia o outro, cada um tem a sua. O MEP propõe-se mudar o país pelo centro, privilegiando o que nos une e construindo pontes. Mas de substância e ideias concretas não apresenta nada. É tudo tão vaporoso que, para ser sincero, não sei se chega, sequer, para ser qualificado como demagogia.
segunda-feira, 3 de março de 2008
Entre o PS e o PSD
"O Movimento Esperança Portugal descreve-se como abrangendo um espaço da social-democracia entre o PS e PSD."
Entre o PS e o PSD, como tem sido muito notório, o que existe menos é espaço para o que quer que seja, de tal forma as extremidades de cada um se tocam. Um novo partido pode e deve reclamar qualquer espaço político, apesar dos analistas que equacionam o espectro partidário como se se tratasse de feirantes a competir por balcões no mercado da vila. O problema do Movimento Esperança Portugal, para além do nome escolhido, é que é impossível implantar-se nessa zona sem fazer uma crítica feroz ao que tem sido o centrão socialista/social-democrata. De alguma forma, não me parece que seja essa a estratégia pela qual os seus futuros dirigentes vão optar.
Entre o PS e o PSD, como tem sido muito notório, o que existe menos é espaço para o que quer que seja, de tal forma as extremidades de cada um se tocam. Um novo partido pode e deve reclamar qualquer espaço político, apesar dos analistas que equacionam o espectro partidário como se se tratasse de feirantes a competir por balcões no mercado da vila. O problema do Movimento Esperança Portugal, para além do nome escolhido, é que é impossível implantar-se nessa zona sem fazer uma crítica feroz ao que tem sido o centrão socialista/social-democrata. De alguma forma, não me parece que seja essa a estratégia pela qual os seus futuros dirigentes vão optar.
sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008
A vida secreta dos animais domésticos
Que a gata tem um gosto especial por trazer lagartixas para casa já não é novidade e acabou por ser uma rotina com a qual se convive pacificamente. Agora o talento especial do cão para desenterrar ratazanas mortas, isso é uma conversa totalmente diferente.
sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008
Reformas
Parece muito agradável facilitar a aposentação dos funcionários públicos, reduzindo os números da Administração Pública. Mas, se não me escapa nada, isto significa que o problema orçamental dos ministérios está a ser sacudido para as costas da Segurança Social. Ninguém é despedido, muito bem, mas ainda me parece melhor se não vierem, daqui a uns tempos, falar na sobrecarga com as pensões de reforma para pedir mais anos de trabalho, ou mais descontos, ou redução de benefícios.
Modesta contribuição para a educação das elites
No seguimento da série do João Pinto e Castro dedicada ao presidente da Comissão de Cultura e Media do parlamento britânico e do contributo do Lutz Bruckelmann, a minha singela participação, recorrendo à arte Michelangelo Caravaggio, uma das preferências da casa.

Caravaggio, O Amor Triunfante, 1602-03

Caravaggio, O Amor Triunfante, 1602-03
terça-feira, 19 de fevereiro de 2008
Equívocos
Parece que a palavra multiculturalismo parece querer transformar-se, para alguma direita, no que a palavra globalização é para alguma esquerda: uma fonte de equívocos.
sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008
As estatísticas, sempre as estatísticas
Arrepia ligeiramente ouvir uma pessoa com as responsabilidades de Vitalino Canas a dizer que a média da taxa de desemprego no ano passado é enganadora. A média não é enganadora. É o que é: uma medida de tendência central com as virtudes e limitações que lhe são conhecidas. As estatísticas não são enganadoras. O que é enganador é o que se opta por dizer com elas.
terça-feira, 12 de fevereiro de 2008
Ideias fáceis
O problema não é que a Europa tenha colocado a palavra "inimigos" no esquecimento, como afirma Henrique Raposo. O problema é que no mundo ocidental, livre, moderno, democrático, há quem tenha esquecido os conceitos de dignidade e de sofrimento humano e quem tenha esquecido que este continente viu morrer, no século passado, mais de 60 milhões dos seus habitantes como consequência de guerras. O problema é que há quem goste muito de espingardas, sobretudo quando são sempre outros a conhecer-lhes as extremidades. A bravura é muito fácil atrás do monitor e do teclado. Só que deixa de ser bravura; apenas bravata.
O conceito de guerra pode abranger muitas definições e aforismos, desde o popular inferno da guerra à académica continuação da diplomacia por outros meios. O que a guerra nunca deixa de ser é uma situação de excepção, com regras de excepção. É por isso que o insistente recurso à expressão “guerra contra o terrorismo” é tudo menos ingénuo e natural. A guerra, por permitir esse estatuto de excepção, abre caminho a todos os atropelos, a todos os abusos e a todas as feridas. Verdun, Auschwitz, Hiroshima e Sarajevo, entre tantos outros exemplos, não são causas de guerra. São, antes, seus produtos e, por tudo o que representam, deviam originar uma longa pausa para reflexão antes de se entrar no caminho das ideias fáceis.
O conceito de guerra pode abranger muitas definições e aforismos, desde o popular inferno da guerra à académica continuação da diplomacia por outros meios. O que a guerra nunca deixa de ser é uma situação de excepção, com regras de excepção. É por isso que o insistente recurso à expressão “guerra contra o terrorismo” é tudo menos ingénuo e natural. A guerra, por permitir esse estatuto de excepção, abre caminho a todos os atropelos, a todos os abusos e a todas as feridas. Verdun, Auschwitz, Hiroshima e Sarajevo, entre tantos outros exemplos, não são causas de guerra. São, antes, seus produtos e, por tudo o que representam, deviam originar uma longa pausa para reflexão antes de se entrar no caminho das ideias fáceis.
quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
Da estética à ética
É bastante difícil comentar a nova polémica a envolver o primeiro-ministro. Ou melhor, a envolver José Sócrates, porque é muito discutível que actos com 20 anos tenham a pertinência para a actualidade que lhe querem emprestar. Se não fosse assim, Durão Barroso, Pacheco Pereira e tantos outros ainda andariam a pagar pelo que disseram e fizeram há trinta anos. E não andam.
Ao redor de José Sócrates cheira a sangue. Este vasculhar do seu passado longínquo, alheio à actividade política, é muito pouco comum. Mais do que noticiar e comentar, parece existir uma vontade de sangrar o primeiro-ministro, quase uma obsessão pela descoberta da nódoa no percurso. Isto, repare-se, em questões totalmente alheias às políticas do governo, porque essa é outra conversa. A repetição das investidas, com motivos dúbios e contornos pouco claros, não abona a favor dos seus autores, sobretudo depois do muito que se saturou o publico com episódios anteriores.
A dificuldade de comentar esta polémica reside precisamente na falta de confiança que existe no trabalho das televisões e dos jornais. Chegámos a um ponto em que, apesar da notícia, é sempre preciso começar as frases com um “se for verdade…”. Porque por vezes, demasiadas vezes, não é. Não só a fidelidade da informação passou a ser duvidosa, como as prioridades editoriais deixam muito a desejar. Ou querem convencer-nos que não há nada com maior interesse e importância para noticiar do que os projectos que Sócrates assinou há duas décadas?
Se é isto que têm para servir como jornalismo de investigação da imprensa de referência, é fraco. É menos que fraco. Comparativamente, não é melhor, sequer, que as aberrações de tijolo e cimento que Sócrates ajudou a pôr de pé.
Ao redor de José Sócrates cheira a sangue. Este vasculhar do seu passado longínquo, alheio à actividade política, é muito pouco comum. Mais do que noticiar e comentar, parece existir uma vontade de sangrar o primeiro-ministro, quase uma obsessão pela descoberta da nódoa no percurso. Isto, repare-se, em questões totalmente alheias às políticas do governo, porque essa é outra conversa. A repetição das investidas, com motivos dúbios e contornos pouco claros, não abona a favor dos seus autores, sobretudo depois do muito que se saturou o publico com episódios anteriores.
A dificuldade de comentar esta polémica reside precisamente na falta de confiança que existe no trabalho das televisões e dos jornais. Chegámos a um ponto em que, apesar da notícia, é sempre preciso começar as frases com um “se for verdade…”. Porque por vezes, demasiadas vezes, não é. Não só a fidelidade da informação passou a ser duvidosa, como as prioridades editoriais deixam muito a desejar. Ou querem convencer-nos que não há nada com maior interesse e importância para noticiar do que os projectos que Sócrates assinou há duas décadas?
Se é isto que têm para servir como jornalismo de investigação da imprensa de referência, é fraco. É menos que fraco. Comparativamente, não é melhor, sequer, que as aberrações de tijolo e cimento que Sócrates ajudou a pôr de pé.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Uma de três
Politicamente, há três interpretações para a remodelação de Correia de Campos. Ou o ministro da Saúde não fez o trabalho previsto, ou se reconhece que as reformas levadas a cabo não são as melhores, ou o primeiro-ministro cedeu à pressão popular e mediática. Em nenhuma delas o governo de José Sócrates fica bem na fotografia.
Tortura
A ASAE fica aí a uns 50 metros do barbeiro onde me desloco regularmente para aparar a melena. Os únicos indícios de tortura que por lá costumo encontrar são o tempo que se passa à procura de lugar para estacionar e os preços praticados pelo parque de estacionamento subterrâneo, quando há mais pressa.
segunda-feira, 28 de janeiro de 2008
Sinais de perigo
Encontra-se no Dois Dedos de Conversa um artigo de Bernd Ulrich, traduzido pela Helena Araújo, que se revela imperdível (quem domine o Alemão encontra também ligação disponível para o original). O posicionamento dos extremismos políticos é cada vez mais notório e relaciona-se de perto com o ambiente de incerteza e de clivagem social que se vive um pouco por toda a Europa.
A democracia pode sobreviver a muitas crises, mas dificilmente ao facto de ser tida como um dado adquirido, não precisando de ser permanentemente defendida e aprofundada. A forma como tratamos os mais desprotegidos revela muito do que somos e, neste momento, não revela uma grande preocupação com as suas condições. O tratamento reservado aos imigrantes – legais e, sobretudo, ilegais – ou a incapacidade de encarar o sofrimento humano vivido pelos apátridas e pelos refugiados denotam bem o lugar que o Ocidente lhes reserva na sua lista de prioridades.
Se a isto somarmos o eterno conflito israelo-palestiniano, o separatismo Kosovar e o recrudescimento dos nacionalismos, na Europa como no Mundo, temos rastilho e pólvora suficiente para nos arrependermos amargamente de não ter dado a devida atenção aos sinais à nossa volta.
A democracia pode sobreviver a muitas crises, mas dificilmente ao facto de ser tida como um dado adquirido, não precisando de ser permanentemente defendida e aprofundada. A forma como tratamos os mais desprotegidos revela muito do que somos e, neste momento, não revela uma grande preocupação com as suas condições. O tratamento reservado aos imigrantes – legais e, sobretudo, ilegais – ou a incapacidade de encarar o sofrimento humano vivido pelos apátridas e pelos refugiados denotam bem o lugar que o Ocidente lhes reserva na sua lista de prioridades.
Se a isto somarmos o eterno conflito israelo-palestiniano, o separatismo Kosovar e o recrudescimento dos nacionalismos, na Europa como no Mundo, temos rastilho e pólvora suficiente para nos arrependermos amargamente de não ter dado a devida atenção aos sinais à nossa volta.
domingo, 27 de janeiro de 2008
Actualizações
José Pimentel Teixeira continua o seu Ma-Schamba noutro poiso.
À esquerda
Criar um novo partido à esquerda do PS, algures no intervalo que deveria separar o PS do PCP e do BE, é entregar o partido à indefinição centrista, à sede de poder pelo poder e às facções mais à direita que por lá militam. Parece haver quem queira retirar como consequência lógica dos resultados eleitorais de Manuel Alegre e de Helena Roseta a criação de uma nova força partidária, a qual resolveria os diferendos vividos. Mas o problema não reside em Manuel Alegre, Helena Roseta ou nos militantes que se identificam com uma linha ideológica mais à esquerda. O problema reside precisamente no facto de o PS se ter transformado num partido com uma matriz muito próxima do centro-direita. A ala à esquerda do PS não precisa de outro partido; precisa que o PS volte a ser um partido de esquerda.
Faz falta ao sistema político-partidário uma força de esquerda com a implantação eleitoral do PS. A co-habitação de um partido como o PSD com esta versão do PS é redundante e empobrecedora. Além disso, compreensivelmente, o PSD faz muito melhor de PSD do que o PS. Esta aventura pelo centro-direita do PS de Sócrates só tem resultado bem porque os sociais-democratas optaram consecutivamente por soluções tão populistas como pouco credíveis nas figuras de Santana Lopes e de Luís Filipe Menezes.
Ao contrário do que muita gente pensa, a culpa da crise no PSD não é da responsabilidade de Sócrates, mas ainda dos efeitos dos governos e do PS de António Guterres. Deixem o PSD voltar a encontrar uma referência séria para líder, com um discurso ideologicamente coerente e sério, para ver o pandemónio em que se vai transformar o Largo do Rato nas mãos da elite dirigente que os anos Sócrates têm promovido.
Faz falta ao sistema político-partidário uma força de esquerda com a implantação eleitoral do PS. A co-habitação de um partido como o PSD com esta versão do PS é redundante e empobrecedora. Além disso, compreensivelmente, o PSD faz muito melhor de PSD do que o PS. Esta aventura pelo centro-direita do PS de Sócrates só tem resultado bem porque os sociais-democratas optaram consecutivamente por soluções tão populistas como pouco credíveis nas figuras de Santana Lopes e de Luís Filipe Menezes.
Ao contrário do que muita gente pensa, a culpa da crise no PSD não é da responsabilidade de Sócrates, mas ainda dos efeitos dos governos e do PS de António Guterres. Deixem o PSD voltar a encontrar uma referência séria para líder, com um discurso ideologicamente coerente e sério, para ver o pandemónio em que se vai transformar o Largo do Rato nas mãos da elite dirigente que os anos Sócrates têm promovido.
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Gostar de peixe
Acho que ainda não disse, este ano, que gosto muito do que escreve o Besugo. Pois bem, gosto muito do que escreve o Besugo.
O Besugo diz que não lhe pagam para escrever (e muito menos para escrever bem). Ainda bem, digo eu. Assim, o que escreve não lhe vem da carteira, mas sai-lhe da alma, ou do coração, ou do que ele lhe queira chamar.
O Besugo é do Sporting. Devia ser do Benfica. Quem escreve assim, depois de um dia de trabalho, devia ser do Benfica. Eu já fui ver jogos do Sporting e sei que tenho razão.
O Besugo diz que não lhe pagam para escrever (e muito menos para escrever bem). Ainda bem, digo eu. Assim, o que escreve não lhe vem da carteira, mas sai-lhe da alma, ou do coração, ou do que ele lhe queira chamar.
O Besugo é do Sporting. Devia ser do Benfica. Quem escreve assim, depois de um dia de trabalho, devia ser do Benfica. Eu já fui ver jogos do Sporting e sei que tenho razão.
terça-feira, 22 de janeiro de 2008
Publicidade grátis
A edição desta semana da revista The Economist menciona o nosso cantinho da costa ocidental da Europa. O texto tem por título “Millennium bug”. Depois de passar os olhos pelos curtos parágrafos do artigo, onde se lê portuguese banks podia ler-se o nome de qualquer país da América Latina e continuaria tudo a fazer sentido.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2008
quinta-feira, 10 de janeiro de 2008
Resumo do dia
Se bem percebo, Luís Filipe Meneses está satisfeito porque José Sócrates mudou de opinião, mas não gosta que o primeiro-ministro mude de opinião. Já Paulo Portas, o ex- ministro Xerox, acha que tem autoridade moral e política para aconselhar a demissão a quem quer que seja. Armando Vara, por seu lado, quer mudar de emprego, mantendo o que ainda tem. Tudo normal. Tudo perfeitamente normal.
quarta-feira, 9 de janeiro de 2008
Referendar
Não se vai referendar o Tratado. Mas referenda-se, pelo menos de quatro em quatro anos, os tratantes.
Um debate necessário
Na segunda-feira, João Pinto e Castro notou com perplexidade as prioridades do Público nos destaques que confere aos artigos dos seus colunistas. O exemplo é efectivamente caricato e poderia servir de mote para introduzir o debate que o país e os blogues ainda não fizeram sobre os meios de comunicação social.
O tema da comunicação social, sobretudo quando abordado nos blogues, mas não só, acaba frequentemente por resvalar para um debate sobre as novas oportunidades e as novas ameaças ao jornalismo. Discute-se muito se os blogues são comunicação social, se roubam ou acrescentam público, se competem ou complementam os meios tradicionais, tal como se discute a relação dos órgãos de comunicação social com a Internet, a rapidez de divulgação das notícias, a interdependência entre canais de informação e as vantagens e desvantagens relativas de cada meio em comparação com os outros.
Comparar blogues com os meios de difusão de notícias – a imprensa, as televisões, as rádios – tem o seu interesse enquanto exercício intelectual, especialmente, sem estranheza, para quem escreve em blogues, mas ofusca uma discussão muito mais importante. Os blogues ainda não substituem os meios de comunicação social, nem em recursos, nem em audiência, nem em influência e os órgãos de comunicação social tradicionais ainda são o meio de informação por excelência para a maioria da população. Assim sendo, o que importa conhecer é o seu actual estado de funcionamento. Ou seja, interessa perceber o grau de confiança e profissionalismo que ela oferece, enquanto instrumento de mediação da informação, enquanto lente de leitura da actualidade política, económica e social.
Compreende-se que esse debate não interesse aos próprios meios que serão objecto de reflexão. Surge, então, o papel que os blogues têm a desempenhar.
Que qualidade de democracia podemos esperar se a comunicação social padecer de fragilidades operacionais, de falta de rigor, de interesses instalados? Não muita, certamente. O debate que ainda não foi feito é precisamente este e envolve compreender a qualidade de ensino de jornalismo nas faculdades, o peso do trabalho inexperiente e mal remunerado nas redacções, o fenómeno da concentração da comunicação social e a relação das receitas da publicidade com a independência editorial.
Deste modo, o equívoco gerado pela chamada de atenção do Público pode ter resultado de uma ética informativa pouco desenvolvida, de mera iliteracia ou de um trabalho mal feito por falta de tempo para o fazer melhor. O que é certo é que, sobretudo na imprensa, cada vez o leque de temas é menor, os artigos são mais pequenos e superficiais e a qualidade da escrita se torna sofrível. Encarar o problema com frontalidade, parecendo que não, era um favor que se fazia aos jornalistas, já para não falar do país.
O tema da comunicação social, sobretudo quando abordado nos blogues, mas não só, acaba frequentemente por resvalar para um debate sobre as novas oportunidades e as novas ameaças ao jornalismo. Discute-se muito se os blogues são comunicação social, se roubam ou acrescentam público, se competem ou complementam os meios tradicionais, tal como se discute a relação dos órgãos de comunicação social com a Internet, a rapidez de divulgação das notícias, a interdependência entre canais de informação e as vantagens e desvantagens relativas de cada meio em comparação com os outros.
Comparar blogues com os meios de difusão de notícias – a imprensa, as televisões, as rádios – tem o seu interesse enquanto exercício intelectual, especialmente, sem estranheza, para quem escreve em blogues, mas ofusca uma discussão muito mais importante. Os blogues ainda não substituem os meios de comunicação social, nem em recursos, nem em audiência, nem em influência e os órgãos de comunicação social tradicionais ainda são o meio de informação por excelência para a maioria da população. Assim sendo, o que importa conhecer é o seu actual estado de funcionamento. Ou seja, interessa perceber o grau de confiança e profissionalismo que ela oferece, enquanto instrumento de mediação da informação, enquanto lente de leitura da actualidade política, económica e social.
Compreende-se que esse debate não interesse aos próprios meios que serão objecto de reflexão. Surge, então, o papel que os blogues têm a desempenhar.
Que qualidade de democracia podemos esperar se a comunicação social padecer de fragilidades operacionais, de falta de rigor, de interesses instalados? Não muita, certamente. O debate que ainda não foi feito é precisamente este e envolve compreender a qualidade de ensino de jornalismo nas faculdades, o peso do trabalho inexperiente e mal remunerado nas redacções, o fenómeno da concentração da comunicação social e a relação das receitas da publicidade com a independência editorial.
Deste modo, o equívoco gerado pela chamada de atenção do Público pode ter resultado de uma ética informativa pouco desenvolvida, de mera iliteracia ou de um trabalho mal feito por falta de tempo para o fazer melhor. O que é certo é que, sobretudo na imprensa, cada vez o leque de temas é menor, os artigos são mais pequenos e superficiais e a qualidade da escrita se torna sofrível. Encarar o problema com frontalidade, parecendo que não, era um favor que se fazia aos jornalistas, já para não falar do país.
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
Controlar o sistema
Os partidos políticos são condição necessária, se bem que não suficiente, de qualquer sistema político democrático. Estabelecer um limite mínimo de filiados como condição de não extinção de um partido político tem o duvidoso condão de, numa situação extrema, mas não tão estranha em tempos de divórcio entre política e eleitores, poder patrocinar a extinção de todos os partidos políticos do sistema. Este raciocínio revela bem a ausência de bom senso de tal limitação. Mas, como diria o outro, essa não é a questão. A questão é que a liberdade política, que passa pela liberdade de associação política, não pode estar manietada por números estabelecidos arbitrariamente.
Por alguma razão, alguém pensou que um partido político deve depender menos da identificação dos eleitores com as suas propostas do que da disponibilidade destes para pagarem quotas. A premissa, já de si, é absurda. Contudo, a objecção principal que se levanta a este sistema de policiamento da actividade partidária é a sua inerente falta de democraticidade, a forma como prejudica inquestionavelmente os partidos mais pequenos, vozes de correntes minoritárias, mas nem por isso menos merecedoras do seu espaço de intervenção.
No fundo, esta é uma solução de secretaria, artificial e autoritária, de controlo paulatino da evolução do sistema político-partidário, sonegando aos indivíduos a oportunidade de estabelecerem por eles mesmos, não só com as suas decisões eleitorais, mas também com a sua disponibilidade para a actividade partidária, o futuro de cada força envolvida no processo. A falta de cultura democrática manifesta-se de muitas formas e em muitos meios. Entrevê-la enraizada numa lei tão recente e posta em execução por órgãos de soberania não deixa de ser manifestamente preocupante.
Por alguma razão, alguém pensou que um partido político deve depender menos da identificação dos eleitores com as suas propostas do que da disponibilidade destes para pagarem quotas. A premissa, já de si, é absurda. Contudo, a objecção principal que se levanta a este sistema de policiamento da actividade partidária é a sua inerente falta de democraticidade, a forma como prejudica inquestionavelmente os partidos mais pequenos, vozes de correntes minoritárias, mas nem por isso menos merecedoras do seu espaço de intervenção.
No fundo, esta é uma solução de secretaria, artificial e autoritária, de controlo paulatino da evolução do sistema político-partidário, sonegando aos indivíduos a oportunidade de estabelecerem por eles mesmos, não só com as suas decisões eleitorais, mas também com a sua disponibilidade para a actividade partidária, o futuro de cada força envolvida no processo. A falta de cultura democrática manifesta-se de muitas formas e em muitos meios. Entrevê-la enraizada numa lei tão recente e posta em execução por órgãos de soberania não deixa de ser manifestamente preocupante.
Always look on the bright side of life
Se pensar que terminei o ano passado, já a menos de duas horas da meia-noite, a conter uma inundação na casa-de-banho que alastrava até meio do corredor, este ano as coisas só podem melhorar.
quarta-feira, 26 de dezembro de 2007
Conto de Natal
- Então, gostaste da imagem que escolhi para pôr no blogue na véspera de Natal?
- Nem por isso...
- Nem por isso...
segunda-feira, 24 de dezembro de 2007
quinta-feira, 20 de dezembro de 2007
A Península Ibérica em números
Já está disponível o exercício de masoquismo anual publicado pelo INE.
Por comparação
Os membros do governo japonês andam a discutir a existência de ovnis e a capacidade de reacção das forças de defesa em caso de contacto directo. Isto quase faz parecer a política portuguesa um cenário razoável e equilibrado.
terça-feira, 18 de dezembro de 2007
Wittgenstein’s Wienna
O Terapia Metatísica anunciou o seu fim. Ando há uns dias para alinhar umas palavras sobre o blogue escrito pela Filigraana sem conseguir resumir as ideias em forma de post. Até hoje. O Terapia Metatísica é um daqueles blogues que dá vontade de escrever blogues.
Diz-me com quem andas
Carla Bruna, uma mulher do Mal?
segunda-feira, 17 de dezembro de 2007
Interesses
Na interessante troca de comentários (as usual) sobre prostituição no Quase em Português, o MS-S questiona-se sobre a alienação no trabalho. Primeiro, "a desvalorização do trabalho como uma actividade com valor intrínseco e a elevação da remuneração e da questão económica a valor determinante da organização da sociedade" é um facto. Mas a desvalorização do trabalho também tem muito que ver com a valorização do tempo livre, do lazer, que também é uma consequência da modernidade e das suas formas de organização da sociedade, a par do individualismo e do primado da economia.
As pessoas de hoje em dia são cada vez mais diferentes entre si. As realidades difusas da globalização e da sociedade de massas confundem, mas a tendência é para que os interesses de cada um de nós sejam cada vez mais individuais e menos de grupo.
Não só tem aumentado o leque das ofertas, como as possibilidades de lhes aceder. As combinações, assim, são infinitas. Os mil e um fóruns na net sobre tudo e mais alguma coisa são disso um bom exemplo.
Mas, sendo que todos precisamos de uma forma de sustento, e nem toda a gente tem a sorte de poder ser extremamente exigente no mercado de trabalho, é muito compreensível que exista um desfasamento. Obviamente, esta separação ou alienação do trabalhador deriva de determinadas condições, às quais eu mais facilmente chamaria sociais do que históricas. Independentemente disso, o que é preciso ter presente quando se pensa estas questões é que a alteração das condições acarreta igualmente a mudança das cargas simbólicas que atribuímos aos objectos, às actividades, às acções e a tudo o que nos rodeia - e vice-versa.
Investir afectivamente no trabalho e considerá-lo um valor maior da nossa vida, quando comparado com outros, já terá sido algo mais popular. Mas, por exemplo, os antigos gregos achavam que o trabalho era uma forma de servidão inaceitável para um homem de bem. Preferiam muitas vezes a penúria e a fome a terem de se sujeitar a trabalhar para outros, perdendo a sua liberdade, a sua senhoria de si mesmos.
Mesmo a propósito, o MP-S fala numa "relação individual e privada". O termo privado, que agora tem uma conotação positiva, tinha o sentido inverso para os antigos gregos, para quem o que dizia respeito a cada um – a casa, a família e o sustento – era privado precisamente porque privava o indivíduo da participação no que era comum a todos – a coisa pública, os assuntos da cidade, a política.
O divórcio entre o que as pessoas são e aquilo que fazem não é forçosamente negativo. Especialmente, se se relacionar com uma maior vontade de evoluir e diversificar o leque de interesses e com uma maior atenção ao indivíduo e às suas relações próximas. A importância que se dá a uma actividade talvez não seja aquilo em que nos devemos focar. O principal interesse do ser humano deve ser por si mesmo e pelos seus semelhantes. O resto, se vier em segundo plano, não vem mal.
As pessoas de hoje em dia são cada vez mais diferentes entre si. As realidades difusas da globalização e da sociedade de massas confundem, mas a tendência é para que os interesses de cada um de nós sejam cada vez mais individuais e menos de grupo.
Não só tem aumentado o leque das ofertas, como as possibilidades de lhes aceder. As combinações, assim, são infinitas. Os mil e um fóruns na net sobre tudo e mais alguma coisa são disso um bom exemplo.
Mas, sendo que todos precisamos de uma forma de sustento, e nem toda a gente tem a sorte de poder ser extremamente exigente no mercado de trabalho, é muito compreensível que exista um desfasamento. Obviamente, esta separação ou alienação do trabalhador deriva de determinadas condições, às quais eu mais facilmente chamaria sociais do que históricas. Independentemente disso, o que é preciso ter presente quando se pensa estas questões é que a alteração das condições acarreta igualmente a mudança das cargas simbólicas que atribuímos aos objectos, às actividades, às acções e a tudo o que nos rodeia - e vice-versa.
Investir afectivamente no trabalho e considerá-lo um valor maior da nossa vida, quando comparado com outros, já terá sido algo mais popular. Mas, por exemplo, os antigos gregos achavam que o trabalho era uma forma de servidão inaceitável para um homem de bem. Preferiam muitas vezes a penúria e a fome a terem de se sujeitar a trabalhar para outros, perdendo a sua liberdade, a sua senhoria de si mesmos.
Mesmo a propósito, o MP-S fala numa "relação individual e privada". O termo privado, que agora tem uma conotação positiva, tinha o sentido inverso para os antigos gregos, para quem o que dizia respeito a cada um – a casa, a família e o sustento – era privado precisamente porque privava o indivíduo da participação no que era comum a todos – a coisa pública, os assuntos da cidade, a política.
O divórcio entre o que as pessoas são e aquilo que fazem não é forçosamente negativo. Especialmente, se se relacionar com uma maior vontade de evoluir e diversificar o leque de interesses e com uma maior atenção ao indivíduo e às suas relações próximas. A importância que se dá a uma actividade talvez não seja aquilo em que nos devemos focar. O principal interesse do ser humano deve ser por si mesmo e pelos seus semelhantes. O resto, se vier em segundo plano, não vem mal.
Tabaco
A duas semanas da entrada em vigor da nova lei do tabaco, ainda há quem continue a pretender fazer crer que esta é uma medida que tem como alvo os fumadores, quando se trata precisamente do contrário. Os principais visados são os não fumadores, cujo direito a não serem intoxicados por terceiros parece escapar a tanta gente.
Carnaval da Madeira
Alberto João Jardim processou Baptista Bastos por alegada ofensa à honra.
domingo, 16 de dezembro de 2007
Não é um Big Brother, é um Grand Frère
Chama-se Acordo Olivennes e parte das entidades que representam os criadores de conteúdos: para combater a pirataria, os fornecedores de acesso à Internet devem vigiar o tráfego dos seus clientes a fim de detectar casos suspeitos. Segundo o Público, Paulo Santos, da Federação de Editores de Videogramas, “considera a ideia «brilhante» e desvaloriza as críticas dos que dizem que vigiar o uso da Internet é um atentado às liberdades individuais”. Porém, basicamente, trata-se de uma medida que é parecida com pedir aos fabricantes de cassetes dos anos 80 que se comprometessem a colocar câmaras de vídeo aos ombros dos seus compradores para assegurarem que nenhum deles utilizava os seus produtos para piratear conteúdos.
Já conhecíamos a deriva securitária como ameaça à liberdade e à privacidade de cada um. Temos agora os interesses comerciais dos criadores de conteúdos e dos revendedores como uma nova desculpa para controlar o que fazemos.
Ninguém contesta o direito dos autores receberem pelas suas criações, nem ninguém contesta que a revenda é uma actividade económica perfeitamente legítima. Mas seria interessante que alguém se desse ao trabalho de perceber por que é que a pirataria de conteúdos tem a dimensão que tem. Por que é que tantas pessoas preferem o download ao original. Porque talvez seja uma questão que, não sendo indiferente ao problema dos preços, se prenda mais com a questão do valor. Sobretudo, seria muito positivo que a indústria de conteúdos percebesse que atacar a privacidade do indivíduo para proteger os seus interesses comerciais é um caminho inaceitável e que os governos não se dispusessem a patrocinar estes exageros.
Já conhecíamos a deriva securitária como ameaça à liberdade e à privacidade de cada um. Temos agora os interesses comerciais dos criadores de conteúdos e dos revendedores como uma nova desculpa para controlar o que fazemos.
Ninguém contesta o direito dos autores receberem pelas suas criações, nem ninguém contesta que a revenda é uma actividade económica perfeitamente legítima. Mas seria interessante que alguém se desse ao trabalho de perceber por que é que a pirataria de conteúdos tem a dimensão que tem. Por que é que tantas pessoas preferem o download ao original. Porque talvez seja uma questão que, não sendo indiferente ao problema dos preços, se prenda mais com a questão do valor. Sobretudo, seria muito positivo que a indústria de conteúdos percebesse que atacar a privacidade do indivíduo para proteger os seus interesses comerciais é um caminho inaceitável e que os governos não se dispusessem a patrocinar estes exageros.
terça-feira, 11 de dezembro de 2007
O medo ao serviço da política
O populismo tem destas coisas. Mal surge uma oportunidade, encarrega-se de cavalgá-la a toda a sela, sem olhar a nada. Os assassinatos envolvendo pessoas ligadas a estabelecimentos nocturnos são a mais recente oportunidade. O PSD de Luís Filipe Menezes entreviu nesses crimes uma forma de atacar o governo e assacou-lhe responsabilidades. Se algum dia Menezes for governo – e, desde que Santana Lopes ocupou São Bento, qualquer um lá pode chegar –, perante casos semelhantes, não hesitará um segundo em deixar a responsabilidade dos crimes unicamente com quem os pratica. Aliás, a direita populista do PSD e do PP treme de indignação de cada vez que alguém tenta explicar que a criminalidade tem uma envolvente social. Para eles, a criminalidade é um conceito circular, que se explica e se esgota em si mesmo.
A solução, diz o PSD, passa por mais policiamento. Talvez um polícia à porta de cada discoteca, de cada bar e de cada casa de strip.
Tanto no diagnóstico como na solução avançada se percebe a falta de outra perspectiva que não seja a de capitalizar a insegurança como trunfo político. Os assassinatos dos últimos meses estão ligados a uma criminalidade altamente organizada. Exactamente o tipo de criminalidade que se combate menos com policiamento de proximidade e mais com investimento na investigação e no combate à corrupção e ao branqueamento de capitais. Tudo coisas bastante mais difíceis de concretizar e de atrair atenção imediata.
A solução, diz o PSD, passa por mais policiamento. Talvez um polícia à porta de cada discoteca, de cada bar e de cada casa de strip.
Tanto no diagnóstico como na solução avançada se percebe a falta de outra perspectiva que não seja a de capitalizar a insegurança como trunfo político. Os assassinatos dos últimos meses estão ligados a uma criminalidade altamente organizada. Exactamente o tipo de criminalidade que se combate menos com policiamento de proximidade e mais com investimento na investigação e no combate à corrupção e ao branqueamento de capitais. Tudo coisas bastante mais difíceis de concretizar e de atrair atenção imediata.
segunda-feira, 10 de dezembro de 2007
sábado, 8 de dezembro de 2007
Um espelho
Para opinar sobre o folhetim mexicano que aconteceu no blogue da Atlântico era preciso ter lido bastante mais do que me dispus a fazer. Limitei-me a seguir a ligação para o post de despedida do Tiago Mendes e a acompanhar as reflexões dos bloguistas que já costumo visitar diariamente. Entre estes, talvez o que se tem dedicado mais ao tema seja o João Pinto e Castro, equacionando sobretudo o silêncio e a fuga ao âmago das questões que o Tiago Mendes levantou por parte dos seus colegas de blogue e de alguma direita bloguista.
O silêncio e a fuga mais ou menos descarada à discussão, apontando baterias ao estilo e não ao conteúdo, se têm como propósito o não posicionamento, falham miseravelmente. Como já alguém salientou, não tomar uma posição, neste caso, equivale mesmo a tomar uma posição.
Especulando um bocado, esta opção talvez se prenda menos com pressupostos ideológicos do que com uma outra característica muito vincada entre nós e que é a de muito dificilmente se resistir à extrapolação dos laços naturais da esfera da amizade para a esfera pública. Este fenómeno tem bastante notoriedade no campo político, no qual determinadas personalidades se fazem acompanhar, durante toda a carreira e qualquer que seja o cargo desempenhado, do seu círculo de confiança.
Mas não se confunda o que é notório com o que é exclusivo. Pelo contrário, estamos perante uma faceta mais comum do que seria de desejar. Sempre que é preciso tomar uma decisão de recursos humanos, o elo mais fraco raramente é o menos competente, mas antes aquele com quem se priva menos, aquele com quem se partilha menos afinidades pessoais. Não se trata de uma pecha da direita ou da esquerda. Trata-se de um traço cultural que transcende a geografia, a ideologia, a classe e a actividade. Desengane-se quem pensa que os blogues são algo mais do que o espelho da sociedade em que se inserem.
O silêncio e a fuga mais ou menos descarada à discussão, apontando baterias ao estilo e não ao conteúdo, se têm como propósito o não posicionamento, falham miseravelmente. Como já alguém salientou, não tomar uma posição, neste caso, equivale mesmo a tomar uma posição.
Especulando um bocado, esta opção talvez se prenda menos com pressupostos ideológicos do que com uma outra característica muito vincada entre nós e que é a de muito dificilmente se resistir à extrapolação dos laços naturais da esfera da amizade para a esfera pública. Este fenómeno tem bastante notoriedade no campo político, no qual determinadas personalidades se fazem acompanhar, durante toda a carreira e qualquer que seja o cargo desempenhado, do seu círculo de confiança.
Mas não se confunda o que é notório com o que é exclusivo. Pelo contrário, estamos perante uma faceta mais comum do que seria de desejar. Sempre que é preciso tomar uma decisão de recursos humanos, o elo mais fraco raramente é o menos competente, mas antes aquele com quem se priva menos, aquele com quem se partilha menos afinidades pessoais. Não se trata de uma pecha da direita ou da esquerda. Trata-se de um traço cultural que transcende a geografia, a ideologia, a classe e a actividade. Desengane-se quem pensa que os blogues são algo mais do que o espelho da sociedade em que se inserem.
quinta-feira, 6 de dezembro de 2007
Um passo
A maioria dos portugueses é favorável à legalização da prostituição, revela o barómetro da Marktest para a TSF. Talvez a maior e mais pertinente reserva que se possa deter perante a prostituição tenha que ver com a relação de poder entre quem é cliente e quem se prostitui. Mas isso é, precisamente, um dos aspectos que mais alterações poderá conhecer com a legalização. Retirar a prostituição do submundo da marginalidade oferece uma hipótese legítima de acesso à protecção de um Estado e dos seus agentes.
Evidentemente, entre esta hipótese de acesso e a mudança de mentalidades pode estar um abismo. Mas, como esta sondagem indica, a maioria dos portugueses não se sente chocada com este primeiro passo. Por que não dá-lo, então?
Evidentemente, entre esta hipótese de acesso e a mudança de mentalidades pode estar um abismo. Mas, como esta sondagem indica, a maioria dos portugueses não se sente chocada com este primeiro passo. Por que não dá-lo, então?
terça-feira, 4 de dezembro de 2007
Maus prenúncios
Sobre a máquina de propaganda que é o Kremlin de Vladimir Putin, pode adiantar-se um apontamento elucidativo: apesar de o partido Rússia Unida se ter recusado a participar em debates televisivos, segundo uma sondagem pré-eleitoral, oito por cento dos russos acreditava terem-no visto ganhá-los.
O silêncio em redor do que está a acontecer à democracia nos Urais é um erro. Interesses energéticos à parte, por uma questão de princípios. Mas também porque, a História demonstra-o, fazer vista grossa aos atropelos nunca resultou bem neste continente.
O silêncio em redor do que está a acontecer à democracia nos Urais é um erro. Interesses energéticos à parte, por uma questão de princípios. Mas também porque, a História demonstra-o, fazer vista grossa aos atropelos nunca resultou bem neste continente.
segunda-feira, 3 de dezembro de 2007
Os mesmos
O desemprego atingiu um nível alarmante. Nada que não se previsse já, pese embora o optimismo do governo, quando ainda antes do Verão tudo levava a crer que assim seria. A taxa de desemprego, pelo menos de há uma década para cá, tem um comportamento homólogo de subidas e descidas muito uniforme.
Sabendo-se, para mais, que perder o emprego é uma das principais portas para a exclusão económica e social, uma taxa de 8,5% de desempregados anuncia uma calamidade que muito dificilmente se pode ignorar. Sem dúvida, o governo merece que se lhe aponte o dedo e que se lhe exijam soluções. Mas convém prestar atenção para ver se os que o fazem não são os mesmos que afirmaram, quando Sócrates prometeu 150.000 postos de trabalho, que não é o governo, e sim as empresas, o responsável pela criação de emprego.
Adenda: Afinal, parece que, sendo mau, não é assim tão mau. O propósito do post, não obstante, mantém-se.
Sabendo-se, para mais, que perder o emprego é uma das principais portas para a exclusão económica e social, uma taxa de 8,5% de desempregados anuncia uma calamidade que muito dificilmente se pode ignorar. Sem dúvida, o governo merece que se lhe aponte o dedo e que se lhe exijam soluções. Mas convém prestar atenção para ver se os que o fazem não são os mesmos que afirmaram, quando Sócrates prometeu 150.000 postos de trabalho, que não é o governo, e sim as empresas, o responsável pela criação de emprego.
Adenda: Afinal, parece que, sendo mau, não é assim tão mau. O propósito do post, não obstante, mantém-se.
Mistério da fé
A TSF dedicou a manhã a analisar o momento da Igreja em Portugal. Entre os vários problemas enunciados, foi referido o baixo número de novas ordenações.
A escassez de padres tem como consequência, em parte, uma participação mais activa dos fiéis na celebração dos rituais católicos. Curiosamente, este fenómeno pode contribuir para aproximar a Igreja aos seus primeiros tempos, quando as hierarquias religiosas ainda eram insípidas ou inexistentes. Contudo, essa participação pode acarretar igualmente riscos para a Igreja, que assim detém muito menos controlo teológico e social sobre as suas paróquias. O empenho e boa vontade dos fiéis não impede que possam surgir formas locais de heterodoxia. Aliás, a constituição de uma Igreja Católica foi a resposta ao risco que os diferentes cristianismos representavam uns para os outros, do ponto de vista de uniformização de crenças. Ainda assim, o papel mais activo que a participação dos fiéis na celebração dos rituais permite assume contornos intrigantes, por, nascendo de uma falta de vocações e constituindo um risco, possibilitar que as pessoas encarem novos níveis de responsabilidade na sua fé.
Tendo tudo isto em consideração, apetece terminar com uma pergunta provocadora, mas não tão paradoxal como pode parecer à primeira vista: e se da agonia da Igreja resultasse a salvação da Fé?
A escassez de padres tem como consequência, em parte, uma participação mais activa dos fiéis na celebração dos rituais católicos. Curiosamente, este fenómeno pode contribuir para aproximar a Igreja aos seus primeiros tempos, quando as hierarquias religiosas ainda eram insípidas ou inexistentes. Contudo, essa participação pode acarretar igualmente riscos para a Igreja, que assim detém muito menos controlo teológico e social sobre as suas paróquias. O empenho e boa vontade dos fiéis não impede que possam surgir formas locais de heterodoxia. Aliás, a constituição de uma Igreja Católica foi a resposta ao risco que os diferentes cristianismos representavam uns para os outros, do ponto de vista de uniformização de crenças. Ainda assim, o papel mais activo que a participação dos fiéis na celebração dos rituais permite assume contornos intrigantes, por, nascendo de uma falta de vocações e constituindo um risco, possibilitar que as pessoas encarem novos níveis de responsabilidade na sua fé.
Tendo tudo isto em consideração, apetece terminar com uma pergunta provocadora, mas não tão paradoxal como pode parecer à primeira vista: e se da agonia da Igreja resultasse a salvação da Fé?
sábado, 1 de dezembro de 2007
Piadinha costumeira, para não fugir à regra
Hoje é Dia Mundial da Luta Contra a Sida e Feriado Nacional de não sei quê.
Tempo de tolerância
O orgulho hetero, o tal que surgiu numa publicidade de uma marca de cerveja, é um conceito tão vazio como o orgulho gay, ou o orgulho de ser português, de ser europeu, branco, negro, ou outra classificação qualquer. O orgulho por se pertencer a uma construção indefinida, que tem tanto de arbitrária como de heterogénea, não pode cimentar-se em nada de concreto. Partilhar a orientação sexual, a nacionalidade e a cor da pele não pode nunca ser mais do que isso. Não é possível estabelecer uma pertença identitária a uma categoria que não tem identidade própria, que não tem cultura própria, que não partilha necessariamente normas, valores, atitudes e práticas.
Na sequência das reacções suscitadas, a Tagus retirou a sua campanha e, na quinta-feira, Eduardo Cintra Torres manifestou a sua discordância com esta decisão (via Womenage a Trois). Não vou aqui discutir se a Tagus fez bem ou mal, assim como não pretendo discutir a felicidade da ideia publicitária nem a legitimidade das reacções. O que me chamou mais a atenção foi esse raciocínio de ECT, segundo o qual “Quando se inverte a espiral de silêncio pode ocorrer uma forte libertação de recalcamentos. O tempo de antena gay nos media, que muita gente percepciona como superior à sua presença na sociedade, poderá ser perigosamente contraproducente para a tolerância da sociedade.”
Cintra Torres começa o seu artigo de opinião precisamente por defender que apenas “fascizantes ou fascistas vocalizam oposição à nova atitude face à homossexualidade”. Mas, afinal, não são só os fascistas e os fascizantes que se podem opor à nova atitude perante a homossexualidade. Aparentemente, qualquer pessoa sempre disposta a prestar mais atenção às sensibilidades que se ofendem para romper preconceitos, em detrimentos das sensibilidades daqueles que constituem o objecto de preconceito, também oferece o seu pequeno contributo.
Nem todas as tolerâncias sociais se desenvolvem ao mesmo ritmo. Porém, quando estão em causa processos de exclusão social derivados de preconceito e atavismo, não existe qualquer justiça em esperar pela mudança de mentalidades. A escravatura acabou, as mulheres votam e têm acesso a carreiras profissionais de relevo, os povos africanos, asiáticos e americanos lograram a auto-determinação. Os homossexuais também terão direito ao seu “tempo de antena gay nos media”, seja lá o que isso for, e sem que apareça sempre alguém a pedir cuidado e mais tempo para a sociedade se adaptar. A adaptação surge com o conhecimento e o conhecimento precisa de contacto.
Adenda: A Helena Araújo, nos comentários, com a pertinência e simpatia que se lhe conhecem, chamou a atenção para o facto de o orgulho gay ter mais que ver com o orgulho de lutar abertamente contra o preconceito social. Quando eu escrevi que o orgulho gay era um conceito tão vazio como o orgulho hetero queria dizer, apenas e só, que é absurdo ter orgulho na orientação sexual. Fica feito o esclarecimento e a admissão da má formulação escolhida.
Na sequência das reacções suscitadas, a Tagus retirou a sua campanha e, na quinta-feira, Eduardo Cintra Torres manifestou a sua discordância com esta decisão (via Womenage a Trois). Não vou aqui discutir se a Tagus fez bem ou mal, assim como não pretendo discutir a felicidade da ideia publicitária nem a legitimidade das reacções. O que me chamou mais a atenção foi esse raciocínio de ECT, segundo o qual “Quando se inverte a espiral de silêncio pode ocorrer uma forte libertação de recalcamentos. O tempo de antena gay nos media, que muita gente percepciona como superior à sua presença na sociedade, poderá ser perigosamente contraproducente para a tolerância da sociedade.”
Cintra Torres começa o seu artigo de opinião precisamente por defender que apenas “fascizantes ou fascistas vocalizam oposição à nova atitude face à homossexualidade”. Mas, afinal, não são só os fascistas e os fascizantes que se podem opor à nova atitude perante a homossexualidade. Aparentemente, qualquer pessoa sempre disposta a prestar mais atenção às sensibilidades que se ofendem para romper preconceitos, em detrimentos das sensibilidades daqueles que constituem o objecto de preconceito, também oferece o seu pequeno contributo.
Nem todas as tolerâncias sociais se desenvolvem ao mesmo ritmo. Porém, quando estão em causa processos de exclusão social derivados de preconceito e atavismo, não existe qualquer justiça em esperar pela mudança de mentalidades. A escravatura acabou, as mulheres votam e têm acesso a carreiras profissionais de relevo, os povos africanos, asiáticos e americanos lograram a auto-determinação. Os homossexuais também terão direito ao seu “tempo de antena gay nos media”, seja lá o que isso for, e sem que apareça sempre alguém a pedir cuidado e mais tempo para a sociedade se adaptar. A adaptação surge com o conhecimento e o conhecimento precisa de contacto.
Adenda: A Helena Araújo, nos comentários, com a pertinência e simpatia que se lhe conhecem, chamou a atenção para o facto de o orgulho gay ter mais que ver com o orgulho de lutar abertamente contra o preconceito social. Quando eu escrevi que o orgulho gay era um conceito tão vazio como o orgulho hetero queria dizer, apenas e só, que é absurdo ter orgulho na orientação sexual. Fica feito o esclarecimento e a admissão da má formulação escolhida.
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