sexta-feira, 31 de outubro de 2008

Dardos



Nunca fui grande adepto de cadeias em blogues. Os blogues mudam, os hábitos mudam, os gostos mudam, e sempre me pareceu extremamente complicado elaborar uma lista de preferências. As listas de preferências, sejam elas de blogues, de livros, de filmes ou de doçaria conventual, para mim, são sempre listas de exclusões. O prémio para os eleitos é sempre o tantas vezes injusto desconsolo dos que ficam de fora. Assim, este Prémio Dardos, em que a Helena e o Lutz decidiram incluir-me, precisa de uma explicação para que se perceba a excepção à regra. A que se segue não é uma lista de preferências do momento. É quase a minha lista de prémios Nobel dos blogues. Trata-se de blogues que há bastante tempo, e de forma constante, contribuem para o meu pequeno prazer de ler bons blogues. E são blogues onde o respeito pela inteligência e pela honestidade do pensamento enriquecem o dia de quem por lá passa. São eles:

A Barbearia do Senhor Luís
A Pente Fino
Aurea Mediocritas
Bandeira ao Vento
Blogame Mucho
Blogo Existo
Dois Dedos de conversa
Imagens com Texto
Lida Insana
Margens de Erro
Mar Salgado
Ma-Schamba
Quase em Português
Vida breve
Womenage a Trois

quinta-feira, 30 de outubro de 2008

Democracia avançada e madura

Multiplicam-se os avisos dos militares em relação à insatisfação que se vive no meio, dos quais o mais sonante talvez seja o do general Loureiro dos Santos, notando-se o cuidado, nada inocente, que tem sido colocado nas palavras escolhidas. A insatisfação dos militares pode ser perfeitamente justificada ou não, não sendo esse o aspecto que me interessa reter. Aquilo que me capta a atenção é um certo tom de ameaça velada, que parece contradizer a confiança que, por exemplo, Loureiro dos Santos deposita no nosso sistema político ao apelidá-lo de democracia avançada e madura. Não se deve acalentar pretensões sobre esta matéria: a democracia portuguesa tem 34 verdes anos de vida. A necessidade que os militares sentiram de abrir hostilidades no seu processo revindicativo, e a forma escolhida para o fazerem, revela bem o quão débeis são o avanço e a maturidade da nossa democracia. Das forças armadas, como das forças policiais, pelo papel social que desempenham, espera-se uma reserva e uma discrição superiores à média. A ambiguidade dos sinais contidos nestes alertas é, por si só, um acontecimento com efeitos negativos para a democracia. Se as forças armadas se querem assumir, como não podia deixar de ser, como um pilar de estabilidade social e democrática, convinha que agissem respeitando esses princípios. Se é preciso contestar as políticas governamentais, que isso seja feito com franqueza, com exposição dos argumentos relevantes, com recurso a porta-vozes oficiais ou oficiosos, mas nunca com um tom de ambiguidade onde se possam ler pequenas ameaças ou pequenas chantagens, as quais apenas servem para alimentar o ainda muito fraco sentido democrático da nossa sociedade.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

O iluminado

Apesar da promulgação, Cavaco Silva continua a manifestar enormes reservas, como não se inibiu de expressar, à lei do divórcio. Uma lei, convém recordar, que tem o apoio de toda a esquerda e até de alguma direita.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Fim-de-semana

Passa uma pessoa dois dias sem ver blogues e, no entretanto, metade do 5Dias muda de casa e cria o Jugular.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

Esclarecer interpretações

Depois de reler o post anterior fiquei com a impressão de que pode dar a entender que a minha apreciação do blogue em causa é negativa. Muito pelo contrário. Como já disse, escrevem lá o Besugo e o maradona e isso é garantidamente sinónimo de tempos bem passados a ler blogues (sem desmérito para os restantes autores daquela casa). Eu continuaria a ler o Besugo e o maradona ainda que eles escrevessem apenas receitas de cozinha.

A crise chega à selecção

Nasceu aí há uns dias A Dieta Rochemback. Não há-de ser por acaso que os leitores do catalão e facciosíssimo Sport votaram Rochemback para o pior 11 de sempre do FC Barcelona (outros nomes familiares dessa equipa de arrepiar: Geovanni, Okunowo e Amunike). Ora, nesse blogue, onde, entre outros, escrevem o Besugo e o maradona, surge uma interessante pista para o desaire que parece estar a apoderar-se da selecção de futebol. Para quem não saiba, ou nunca tenha reparado, importa notar que o actual treinador da selecção é alguém que passou os últimos anos associado a um patrocinador, digamos, muito especial. We never saw it coming. Pois não, pois não...

Do optimismo II

O número de telefone do escritório já pertenceu a uma agência bancária. Não há dia em que não se atenda um ou dois telefonemas de clientes da instituição que ainda não actualizaram a agenda telefónica. A maior parte das pessoas que telefona nesta condição começa a discorrer o seu assunto mal se levanta o auscultador. Um número ainda considerável continua mesmo depois de quem atende ter tido finalmente oportunidade de se identificar. Nesta semana, dois telefonemas particularmente notórios: uma senhora com bastante urgência em discutir o empréstimo da casa e uma outra interessada em saber quanto dinheiro tinha ainda na conta. Algo me diz que as suas preocupações não eram excesso de liquidez.

Do optimismo

Quem, como eu, não está por enquanto desempregado nem perdeu ainda o seu negócio (...).

Decepções anunciadas

Qualquer que seja a perspectiva escolhida, não se consegue perceber como é que a candidatura de Pedro Santana Lopes à CML possa ser vantajosa. Não o é para a higiene política, não o é para a cidade, não o é para o PSD nem para Ferreira Leite e não o é para o PS, que continua a não ter uma oposição que o desafie. Eventualmente pode servir os interesses de Santana Lopes, mas nem isso é certo. Mas ainda que sirva a sua ambição pessoal, e no dia das eleições poderemos aferi-lo, é muito pouco para justificar a escolha. O PSD insiste em trilhar os mesmos caminhos que o conduziram ao marasmo em que se encontra. Só de decepciona quem, no início, acalentou ilusões de que a credibilidade é algo que se decreta a priori em colunas de opinião.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

O eterno retorno

Começamos todos, agora, a ver com mais clareza qual era a porcaria a que Queirós se referia há uns anos.

Provérbio do dia

Atrás de mim virá quem bom de mim fará.

Escusavam era de ter ido buscar o Carlos Queirós para o contraste ser tão grande.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

Todos diferentes

Hoje os preconceitos de uns vão aliar-se à falta de coragem de outros para continuar a adiar um passo fundamental na luta contra a desigualdade neste país.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

Democracia de segunda

Recorrendo aos lugares comuns, a solução portuguesa passa quase sempre menos por resolver os problemas do que por contorná-los. Resolver eventuais problemas de fiabilidade nas votações dos emigrantes tornado mais difícil a participação eleitoral não resolve nada. Pelo contrário, apenas afasta os emigrantes dos seus representantes e do próprio país. Minar a participação cívica e política nos dias que correm é das piores ideias que pode ocorrer a um político sério. Numa época de desconfiança e afastamento entre eleitos e eleitores, contribuir activamente para a diminuição da participação eleitoral não é um tiro no pé. É, antes, estar a fazer pontaria a órgãos vitais.

quarta-feira, 17 de setembro de 2008

O silêncio a favor da demagogia

O PSD de Setúbal decidiu investir numa campanha de outdoors à qual não falta nenhum dos pergaminhos da pior demagogia política. Nestes momentos, o silêncio de Ferreira Leite, pensarão os estrategas sociais-democratas, cai como uma luva. O silêncio em política tem esta extraordinária capacidade de camuflagem. Ao escolher não comentar, o actor político permite que a sua putativa opinião possa ser interpretada à medida das conveniências de cada um. Tanto pode ser de apoio como de recriminação, bastando que se lhe imprima o spin certo para as audiências certas. O silêncio, camuflando intenções e compromissos, não só esconde a opinião, mas, muito mais importante, impede a responsabilização. A política sem opiniões, sem compromissos e sem responsabilização deixa de proporcionar a possibilidade de controlo e acesso à informação a que os eleitores têm direito. A estratégia do silêncio é uma estratégia de vistas curtas, oportunista e desprestigiante. Quem não percebe o mal que esta opção faz ao exercício da democracia provavelmente não percebe o próprio exercício da democracia.

segunda-feira, 15 de setembro de 2008

Negro

Agora que penso nisso, o novo acelerador de partículas nunca poderá destruir o mundo. Um buraco negro manufacturado que nos engolisse a todos não é ciência; é poesia.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Sobreviver

David Hume terá dito que, para si, pensar que não exista nada depois da morte não o afligia mais do que pensar que não exista nada antes do nascimento. Falava, obviamente, da experiência da própria morte. O problema da morte, para quem partilha da aparente serenidade que Hume demonstrava, não se prende tanto com a ausência de si mesmo no mundo, mas antes com a ausência daquilo que se ama. O problema da morte é sempre o problema da morte dos outros. Ou, dito de outra forma, ainda menos encorajadora, o da própria sobrevivência.

A guerra contra o terrorismo

Após o 11 de Setembro erigiu-se o paradigma da guerra contra o terrorismo. A escolha da expressão não foi inocente. A guerra é um estado de excepção. Por isso se disse que o mundo estava diferente depois do ataque ao WTC. Mas, nos seus fundamentos, o mundo manteve-se igual. Houve, evidentemente, uma alteração de escala, traduzida nas dimensões humanas, materiais e mediáticas do atentado. Mas as ameaças mantiveram-se iguais na sua natureza. O terrorismo, o fundamentalismo e a ameaça nuclear e biológica, por um lado, e o direito à integridade física e psicológica e à procura de justiça, por outro, não nasceram em 2001.

Os caminhos bons e os caminhos maus que trouxeram a humanidade até aos dias de hoje mantiveram-se iguais a si mesmos. Não se verificou uma alteração dos fundamentos da ética, da justiça e das relações humanas. Não se inverteram os pólos do certo e do errado,
O terrorismo continuou a ser terrorismo, a morte continuou a ser morte, a tortura continuou a ser tortura e a guerra continuou a ser a guerra.

O paradigma da guerra contra o terrorismo, ao remeter para o estado de excepção, permitiu um posicionamento ideológico que sancionou todo o género de excessos. Sob o seu manto surgiram guerras preventivas, abusos sobre os direitos humanos, abusos sobre o estado de direito e despesas absurdas para satisfazer as necessidades de destruição e reconstrução de todo este processo. O poder viu o seu espectro de acção ser consideravelmente alargado. E se o poder tende a corromper, a natureza dessa corrupção, como se viu, tanto é material como moral.

A guerra ao terrorismo não serviu sequer os seus intentos e muito menos serviu os propósitos daquilo que gostamos de considerar as grandes conquistas da civilização humana – a democracia, a liberdade e o respeito pelos direitos humanos. Neste dia, isto é tão verdadeiro como se sabia ser há oito anos atrás. Utilizar as críticas ao paradigma da guerra ao terrorismo como forma de menorizar a solidariedade com as vítimas desse atentado é apenas um subterfúgio cobarde para desviar as atenções do falhanço miserável em transformar esse terrível momento numa oportunidade para a civilização se elevar a um nível que se sentia ser perfeitamente possível.

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

Areia para os olhos

O presidente do Conselho Nacional do CDS-PP criticou o comportamento de Paulo Portas e Nobre Guedes em relação à demissão deste último. Segundo a notícia do Público, pediu “mais formalismo” e avisou que “a amizade não se deve sobrepor às regras de funcionamento partidário”. E para frisar bem a elevação do nível de exigência dentro do partido, propôs um texto de apoio a Portas que os conselheiros se apressaram a aprovar com apenas quatro abstenções e nenhum voto contra. Os dirigentes do CDS-PP chegaram a um ponto em que já não são capazes de atirar areia para os olhos de ninguém, a não ser deles mesmos.

segunda-feira, 8 de setembro de 2008

WALL.E

E depois, nunca percebi bem porquê, o Babel é que estava recheado de anti-americanismo primário.
Dito isto, vale cada cêntimo do preço do bilhete, com os bónus da divertida curta que o antecede e da extraordinária síntese de História da Arte dos créditos finais.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Erros de avaliação

Uma candidata a vice-presidente que segure bem a base eleitoral conservadora, evangélica e rural dos republicanos permite que McCain possa ir atrás dos votos independentes e dos democratas de Reagan com outro à-vontade. Em 2004, os democratas nunca conseguiram perceber que perderam a eleição na luta ideológica. O eleitor americano não votou Bush por falta de informação ou por falta de discernimento. Votou nos valores e nas estratégias que lhe eram mais caras e num grupo de pessoas que, goste-se ou não, já tinha demonstrado ser capaz de cumprir o seu propósito político. Sarah Palin não alarga o espectro de potenciais votantes no partido republicano, mas promete segurar votos fundamentais. Se a campanha dos democratas não der o devido valor ao que Sarah Palin representa, pode ter à sua espera o mesmo desfecho de há quatro anos.