quinta-feira, 3 de julho de 2008
A princípio é simples anda-se sozinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
Passa-se nas ruas bem devagarinho
quarta-feira, 2 de julho de 2008
I'll describe the way I feel
Weeping wounds that never heal
Weeping wounds that never heal
sexta-feira, 20 de junho de 2008
Evidente e férreo
Na realidade, pela altura em que Marx estipulava a lei evidente e férrea da luta de classes, Faraday e Maxwell entretinham-se a demonstrar que a lei da gravidade de Newton não era tão evidente e férrea como isso.
quinta-feira, 19 de junho de 2008
Palpite
Tenho um pressentimento que acabou de abrir a época de tiro ao Scolari.
quarta-feira, 18 de junho de 2008
Corporativismos
Há sempre quem pense que proteger “os nossos” passa por fechar os olhos à falta de competência, ao desleixo ou à má fé. Parecem não perceber o tipo de “nossos” em que isso os transforma.
Mais bola, ou talvez não
Compreensivelmente, não faltam adeptos do FCP a exultar com a participação do clube na Liga dos Campeões. O SLB, se fosse gerido por pessoas sérias ou inteligentes, já para não pedir as duas qualidades em simultâneo, ter-se-ia abstido de qualquer papel nesta novela e teria afirmado desde o princípio, de forma simples e decidida, que disputaria a UEFA qualquer que fosse o destino reservado ao FCP.
Mas uma coisa é estranha. Se o SLB “não deve obter na secretaria o que não conseguiu em campo”, o que faz o seu sentido, por razões de honra mais do que por quaisquer outras, já o facto de o FCP ter andado igualmente a tentar ganhar fora de campo não parece ser tão incomodativa para tais aficionados. O oportunismo feroz não é bonito de se ver. A alegria baseada na batotice também não.
Mas uma coisa é estranha. Se o SLB “não deve obter na secretaria o que não conseguiu em campo”, o que faz o seu sentido, por razões de honra mais do que por quaisquer outras, já o facto de o FCP ter andado igualmente a tentar ganhar fora de campo não parece ser tão incomodativa para tais aficionados. O oportunismo feroz não é bonito de se ver. A alegria baseada na batotice também não.
Deve ser a tradição humanista da Europa a funcionar
Se os euro-deputados comungassem da memória de dias menos felizes na Europa que se pede aos irlandeses não tinham tanta pressa em aprovar legislação de natureza tão claramente hiper-securitária e xenófoba.
Ingratos
Se a Itália chegar à final do Europeu e ganhar a competição, é bom que toda a gente se lembre que a responsabilidade é de um senhor chamado Adrian Mutu, o qual, chamado a marcar um penalti que, prodigiosamente, arrumava de uma vez com França e Itália, não teve a dignidade sequer de falhar apontando ao adepto da última fila do estádio. Não, com tanta baliza, com tanta superfície de poste e trave, com tanta bancada, conseguiu atirar devagar, a meia altura, para o centro da baliza, onde, mesmo que Buffon não fosse o guarda-redes estupidamente bom que é (qual Petr Cech qual quê), bastava-lhe desmaiar para o seu lado esquerdo para defender a bola. É obrigá-los a passar a disputar competições da Confederação Asiática ou da Confederação Africana e que vão lá falhar penaltis decisivos contra o Iémen ou o Burkina Faso.
terça-feira, 17 de junho de 2008
Construir a Europa
Em mais um dos seus exercícios de paciente dedicação aos blogues, a Helena traduziu um artigo do Süddeutsche Zeitung sobre o projecto de construção da Europa. Talvez não exista, por esta altura, tema político mais actual e importante do que a consolidação política da União Europeia. Mas o texto que a Helena traduziu enferma de uma exagerada desculpabilização dos políticos e de uma exagerada diabolização dos eleitores irlandeses.
É preciso que se diga que o argumento dos 862 415 irlandeses que estão a travar os 490 milhões de europeus é pura demagogia. Não fossem os irlandeses os únicos a referendar o Tratado e logo se veria, com mais propriedade, quantos europeus poriam travão à Europa. Este é um juízo que é independente da valia do referendo para ratificação do Tratado ou da necessidade deste último. Mesmo sem considerar se o Tratado está bem elaborado ou não, se o processo está a ser bem gerido ou não, se a sua ratificação deve depender de métodos directos ou representativos, não se pode fingir que há apenas 800 mil irlandeses dispostos a dizer “não”. Em 500 milhões de consciências, custa a acreditar que mais de 99,8% delas estejam de acordo quanto ao presente e futuro da UE.
As campanhas são feitas pelos políticos e pelas suas máquinas de propaganda. Se na Irlanda se andou a discutir questões paralelas e alguns se aproveitaram para envenenar o processo com o seu populismo e os seus ajustes de contas internos, isso não pode ser certamente imputado aos eleitores. Essa culpa não morre solteira e se parece fácil atribuir as responsabilidades aos políticos é porque, neste caso, são eles efectivamente os principais, senão exclusivos, responsáveis. O envolvimento toca a todos, mas uns têm mais instrumentos à sua disposição para fazer as coisas de outro modo do que os outros.
Por outro lado, esta visão maniqueísta de “connosco ou contra nós”, tão popular depois do 11 de Setembro, é redutora e simplesmente injusta. Ser contra o Tratado não significa ser contra a Europa, nem contra o alargamento, nem contra o aprofundamento da integração económica e política. Ser contra o Tratado pode apenas significar que se pretende uma construção europeia diferente. O fim da História da Europa não está nem na recusa do Tratado nem na sua aceitação acrítica.
A Europa precisa de uma redefinição do seu processo de integração política, o que deu origem à defunta Constituição e, por sua vez, ao actual Tratado. A integração económica atingiu um nível de sofisticação muito elevado e, através das relações de mútuos benefícios que tem gerado, dá o cimento utilitarista para que o projecto da UE ambicione outros objectivos. Não é credível que algum dos países que a integram se imagine fora dela num futuro próximo, nem mesmo a sempre desconfiada Grã-Bretanha, nem se deve empurrar a Irlanda para o lado como um entrave indesejável. Construir uma integração política a 27 e preparada para continuar a ser alargada e aprofundada é um desígnio incontornável da UE, mas não se afigura tarefa fácil. Há uma diferença de substância entre a simplicidade e o simplismo. O projecto da UE, por muito bonito que fosse, dificilmente poderia residir apenas na primeira e não precisa definitivamente da segunda.
É preciso que se diga que o argumento dos 862 415 irlandeses que estão a travar os 490 milhões de europeus é pura demagogia. Não fossem os irlandeses os únicos a referendar o Tratado e logo se veria, com mais propriedade, quantos europeus poriam travão à Europa. Este é um juízo que é independente da valia do referendo para ratificação do Tratado ou da necessidade deste último. Mesmo sem considerar se o Tratado está bem elaborado ou não, se o processo está a ser bem gerido ou não, se a sua ratificação deve depender de métodos directos ou representativos, não se pode fingir que há apenas 800 mil irlandeses dispostos a dizer “não”. Em 500 milhões de consciências, custa a acreditar que mais de 99,8% delas estejam de acordo quanto ao presente e futuro da UE.
As campanhas são feitas pelos políticos e pelas suas máquinas de propaganda. Se na Irlanda se andou a discutir questões paralelas e alguns se aproveitaram para envenenar o processo com o seu populismo e os seus ajustes de contas internos, isso não pode ser certamente imputado aos eleitores. Essa culpa não morre solteira e se parece fácil atribuir as responsabilidades aos políticos é porque, neste caso, são eles efectivamente os principais, senão exclusivos, responsáveis. O envolvimento toca a todos, mas uns têm mais instrumentos à sua disposição para fazer as coisas de outro modo do que os outros.
Por outro lado, esta visão maniqueísta de “connosco ou contra nós”, tão popular depois do 11 de Setembro, é redutora e simplesmente injusta. Ser contra o Tratado não significa ser contra a Europa, nem contra o alargamento, nem contra o aprofundamento da integração económica e política. Ser contra o Tratado pode apenas significar que se pretende uma construção europeia diferente. O fim da História da Europa não está nem na recusa do Tratado nem na sua aceitação acrítica.
A Europa precisa de uma redefinição do seu processo de integração política, o que deu origem à defunta Constituição e, por sua vez, ao actual Tratado. A integração económica atingiu um nível de sofisticação muito elevado e, através das relações de mútuos benefícios que tem gerado, dá o cimento utilitarista para que o projecto da UE ambicione outros objectivos. Não é credível que algum dos países que a integram se imagine fora dela num futuro próximo, nem mesmo a sempre desconfiada Grã-Bretanha, nem se deve empurrar a Irlanda para o lado como um entrave indesejável. Construir uma integração política a 27 e preparada para continuar a ser alargada e aprofundada é um desígnio incontornável da UE, mas não se afigura tarefa fácil. Há uma diferença de substância entre a simplicidade e o simplismo. O projecto da UE, por muito bonito que fosse, dificilmente poderia residir apenas na primeira e não precisa definitivamente da segunda.
quarta-feira, 11 de junho de 2008
Mais que perfeito
O problema desta linha de pensamento é que, quando se reúne a elite para tomar decisões e se deixa o povo à porta à espera do resultado, ninguém garante a ninguém, à partida, quem fica do lado de dentro e quem fica do lado de fora. Dito de outra forma, a melhor garantia que tenho de que o que digo é ouvido é assegurando que o que qualquer pessoa diga seja ouvido. Porque, dêem-se as voltas ao texto que se quiser, as estratificações, por mais que sociologicamente justificáveis, serão sempre politicamente inaceitáveis.
Se viermos falar na competência que investimos nos nossos políticos ao elegê-los, a questão ganha contornos bastante diferentes.Mas se o argumento é “a insanidade política que é submeter a decisão popular um texto incompreensível para quase toda a gente, onde a decisão pode ser tomada com base nos elementos mais aleatórios que se podem imaginar”, parece-me que estamos demasiado perto de uma linha que, uma vez atravessada, permite todo o tipo de justificações elitistas anti-democráticas.
Se viermos falar na competência que investimos nos nossos políticos ao elegê-los, a questão ganha contornos bastante diferentes.Mas se o argumento é “a insanidade política que é submeter a decisão popular um texto incompreensível para quase toda a gente, onde a decisão pode ser tomada com base nos elementos mais aleatórios que se podem imaginar”, parece-me que estamos demasiado perto de uma linha que, uma vez atravessada, permite todo o tipo de justificações elitistas anti-democráticas.
sexta-feira, 6 de junho de 2008
Casa de ferreiro
Entre os anos 50 e 60, para não falar de histórias mais recentes, quando já metade do mundo clamava contra cortinas de ferro, a população negra do Sul da América lutava pelo direito de se sentar nos mesmos bancos de autocarro dos brancos, pelo direito de entrar nos mesmos restaurantes e hotéis, pelo direito a frequentar as mesmas escolas e universidades e pelo direito a eleger e ser eleito para cargos públicos. Muitas vezes a liberdade é uma palavra que enche a boca de pessoas que sempre a acham mais urgente em casa alheia.
quinta-feira, 5 de junho de 2008
A excepção
O corolário do post anterior é que Barack Obama deve representar apenas Barack Obama. Para os que acham que ter o primeiro afro-americano da história na recta final da corrida para a Casa Branca é um sinal inequívoco de mudança, interessa relembrar que Obama é um candidato preferido pelo que os especialistas de marketing político americano chamam wine drinkers e tem sérias dificuldades com os chamados beer drinkers. É um produto de elite, mais facilmente acarinhado pelas elites, que as estatísticas sócio-económicas se encarregam de demonstrar ter muito pouco a ver com a esmagadora maioria da população desfavorecida dos EUA, qualquer que seja a sua cor de pele. Barack Obama é a excepção que confirma a regra.
Romantizar
Em política, há sempre quem romantize. Barack Obama, para além daquilo que possa, ou não, valer como futuro presidente dos EUA, é uma inevitável romantização política. Porque tem um discurso articulado e que entusiasma, porque é novo e atraente e porque a América tem ainda muitas contas para ajustar na questão das igualdades étnicas. É impossível não ver na nomeação de Obama algo mais que o simples acto em si. Na sua imagem reúne-se a superação de séculos de escravatura e discriminação, o triunfo da perseverância e a vitória das oportunidades para todos. Mas atribuir demasiada importância a esta perspectiva tolda o julgamento político. Em política, a romantização e as más interpretações nunca são uma boa notícia. E por muito difícil que seja a avaliação, os candidatos devem valer pelo que são e não pelo que gostaríamos que fossem.
terça-feira, 3 de junho de 2008
Uma outra Feira do Livro
As quesílias do mundo editorial ultrapassam-me. As lutas de poder e de protagonismo que giram em torno da Feira do Livro de Lisboa pouco me têm interessado e confesso que nem sequer me esforço por me inteirar das razões da contenda. Com os anos, ou, de forma menos eufemística, com a idade, vamos descobrindo que, paulatinamente, vão surgindo pequenas intolerâncias para com certas coisas, as quais acarinhamos e desenvolvemos até atingirem um nível de requinte muito pessoal. Para nós são um sinal evidente de que o amadurecimento dos gostos nos torna selectivos e exigentes. Para todos os restantes são a prova provada de que a idade se encarrega de nos tornar cada vez mais chatos e embirrantes.
O meu grau de crescente exigência já não concebe que se descure a internet como um canal privilegiado de comuicação. Menos ainda que um evento como a Feira do Livro não aproveite todas as potencialidades deste meio, como se não houvesse já exemplos suficientes de como o rentabilizar devidamente. Mas, por falha dos organizadores, ou por falha dos editores, ou por falha de todos, o que nos chega é o mesmo modelo de sempre, em que as estratégias de promoção e venda passam por ocultar a informação e o interesse do cliente vem sempre, na melhor das hipóteses, em segundo lugar.
Numa outra Feira do Livro, o Livro do Dia seria uma iniciativa para fidelizar clientes e promover o gosto pela leitura, colocando à venda os melhores livros, dos melhores autores, aos melhores preços, e nunca serviria para tentar desencalhar monos que atafulham armazéns esconsos desde o tempo em que os cabelos com brilhantina estavam na moda. Numa outra Feira do Livro, a lista de Livros do Dia de todos os editores e para todo o período da Feira seria divulgada no primeiro minuto do evento, para que os compradores pudessem definir prioridades e planear as suas visitas. Numa outra Feira do Livro, esta informação estaria disponível permanentemente no site, através do qual também seria possível fazer reservas e encomendas.
Os portugueses lêem pouco, os livros estão caros e não são uma prioridade nas despesas familiares. Como a necessidade é a mãe de todas as invenções, dir-se-ia que este seria o momento para apostar em novos modelos – que já nem são tão novos como isso. Mas há sempre quem torça o nariz e desconfie e prossiga, parafraseando o outro, de prejuízo em prejuízo até à falência final.
O meu grau de crescente exigência já não concebe que se descure a internet como um canal privilegiado de comuicação. Menos ainda que um evento como a Feira do Livro não aproveite todas as potencialidades deste meio, como se não houvesse já exemplos suficientes de como o rentabilizar devidamente. Mas, por falha dos organizadores, ou por falha dos editores, ou por falha de todos, o que nos chega é o mesmo modelo de sempre, em que as estratégias de promoção e venda passam por ocultar a informação e o interesse do cliente vem sempre, na melhor das hipóteses, em segundo lugar.
Numa outra Feira do Livro, o Livro do Dia seria uma iniciativa para fidelizar clientes e promover o gosto pela leitura, colocando à venda os melhores livros, dos melhores autores, aos melhores preços, e nunca serviria para tentar desencalhar monos que atafulham armazéns esconsos desde o tempo em que os cabelos com brilhantina estavam na moda. Numa outra Feira do Livro, a lista de Livros do Dia de todos os editores e para todo o período da Feira seria divulgada no primeiro minuto do evento, para que os compradores pudessem definir prioridades e planear as suas visitas. Numa outra Feira do Livro, esta informação estaria disponível permanentemente no site, através do qual também seria possível fazer reservas e encomendas.
Os portugueses lêem pouco, os livros estão caros e não são uma prioridade nas despesas familiares. Como a necessidade é a mãe de todas as invenções, dir-se-ia que este seria o momento para apostar em novos modelos – que já nem são tão novos como isso. Mas há sempre quem torça o nariz e desconfie e prossiga, parafraseando o outro, de prejuízo em prejuízo até à falência final.
segunda-feira, 2 de junho de 2008
Acontecimentos
Não ver televisão tem as suas vantagens. A principal é que as coisas regressam à dimensão que possuem sem o efeito promocional que a televisão lhes empresta. Hoje em dia, até os telejornais são programas de entretenimento. De outra forma, não faria sentido que durassem mais de 30 minutos, como não faz sentido que se transmitam directos de todos os sítios e mais alguns, a propósito de tudo e mais alguma coisa. Os factos deixam de ser factos e passam a ser "acontecimentos". A forma passa a definir o conteúdo e a propaganda incessante encarrega-se de relegar para segundo plano os restantes factos que concorrem por espaço noticioso televisivo.
O distanciamento do exagero que a promoção dos "acontecimentos" assume não apaga a sua importância. Antes permite que ela seja equacionada em perspectiva e de um ponto de vista muito mais pessoal. O julgamento é aquele que cada um faz em função dos seus interesses e prioridades, e não o que é definido a priori por terceiros e que só por manifesta ingenuidade pode ser considerado imparcial e destituído de interesses. A televisão dá mais importância ao futebol porque o futebol interessa e o futebol interessa porque a televisão dá mais importância ao futebol. Este é o ciclo viciado das prioridades editoriais e a principal explicação que desmistifica a falsidade de que "as audiências provam que a televisão transmite o que as pessoas querem ver".
Sem televisão, o terramoto de Sichuan continuará sempre a ser uma tragédia, mas o Rock in Rio é apenas uma sucessão de concertos e o Euro 2008 são apenas jogos de futebol.
O distanciamento do exagero que a promoção dos "acontecimentos" assume não apaga a sua importância. Antes permite que ela seja equacionada em perspectiva e de um ponto de vista muito mais pessoal. O julgamento é aquele que cada um faz em função dos seus interesses e prioridades, e não o que é definido a priori por terceiros e que só por manifesta ingenuidade pode ser considerado imparcial e destituído de interesses. A televisão dá mais importância ao futebol porque o futebol interessa e o futebol interessa porque a televisão dá mais importância ao futebol. Este é o ciclo viciado das prioridades editoriais e a principal explicação que desmistifica a falsidade de que "as audiências provam que a televisão transmite o que as pessoas querem ver".
Sem televisão, o terramoto de Sichuan continuará sempre a ser uma tragédia, mas o Rock in Rio é apenas uma sucessão de concertos e o Euro 2008 são apenas jogos de futebol.
sexta-feira, 30 de maio de 2008
A globalização do futebol
Um dos temas mais interessantes para discutir as consequências práticas da globalização é o futebol. Mais concretamente, as suas implicações no modelo de organização e gestão do futebol moderno.
Há muitos críticos do rumo que o futebol está a tomar. Se quisermos agrupar as opiniões em apenas duas barricadas, de um lado temos os que defendem que o futebol (e o desporto, de uma forma geral) deve representar um caso de excepção no enquadramento legislativo europeu, enquanto do outro temos os que defendem precisamente o contrário. As leis do futebol europeu, neste momento, alinham pela livre circulação de jogadores, em concordância com o que se passa no mercado de trabalho comum da UE. Na opinião de alguns, isso descaracterizou os campeonatos nacionais, prejudicando a formação de novos talentos nas escolas dos clubes, ao mesmo tempo que agudizou uma divisão entre clubes de elite, com orçamentos milionários, e clubes de segunda, com orçamentos modestos.
Há uns anos, o modelo das competições europeias de clubes começou a sofrer alterações profundas de forma a maximizar as receitas televisivas. Na UEFA, alguém se lembrou que, dentro da lógica do futebol-entretenimento, seria interessante ver com mais frequência as melhores equipas jogar entre si. Como, matematicamente, isto é muito complicado de ver acontecer num modelo de eliminatórias e apenas com um representante por país, no caso da Taça dos Campeões, nasceu o conceito de Liga dos Campeões. Nesta última, existem fases de grupos e podemos encontrar até um máximo de quatro equipas de um mesmo campeonato. O aparente contrasenso de termos uma Liga de Campeões cuja final pode, hipoteticamente, ser disputada entre duas equipas que não conseguiram melhor que a quarta classificação no seu campeonato nacional não impediu a sua implementação.
O lema da UEFA é “We care about football”. Mas não cometemos uma grande injustiça se dissermos que a sua preocupação passa muito, sim, pelas receitas do futebol. De resto, as boas intenções da UEFA e da FIFA para com o futebol-desporto são sempre de desconfiar. Basta relembrar que a final de Moscovo, este ano, terminou depois da uma da manhã, hora local, ou que muitos dos jogos do Campeonato do Mundo nos EUA, em 1994, se disputaram debaixo de um Sol implacável e temperaturas altíssimas, para benefício das transmissões televisivas para a Europa.
O principal problema do futebol é que o actual modelo, que gera receitas fabulosas, não foi acompanhado de uma política sensata de distribuição de riqueza. Quem já dispunha de orçamentos elevados teve a oportunidade de ganhar ainda mais. Quem não dispunha de recursos, viu-se progressivamente afastado da possibilidade de diminuir a diferença para os clubes de elite. Neste Verão, fala-se de transferências milionárias como sempre se tem falado desde há uns anos. O Chelsea pode oferecer mais de 60 milhões de euros por um avançado do Liverpool. O Inter poderá gastar mais de 40 milhões para reforçar-se de acordo com os desejos do seu novo treinador. O Real Madrid pondera seriamente a hipótese de contratar Cristiano Ronaldo ao Manchester United por qualquer coisa como 80 milhões de euros.
Perante um cenário que pouca gente terá a coragem de não apelidar de excessivo, alguns voltam-se para a livre circulação de jogadores como uma das causas do descalabro, pretendendo, obviamente, restringi-la. Desse modo esperam que regresse um maior equilíbrio entre clubes europeus. Mas muito mais eficaz, e até justa, seria a imposição de limitações de outro nível. O actual modelo beneficia um número muito restrito de jogadores. Cerceando a circulação de jogadores de uma forma geral, não só não se impede que os valores de transferências continuem a subir, como se ataca o direito de uma imensa maioria de futebolistas que não deixam de ser trabalhadores e não ganham, nem de perto nem de longe, os salários que enchem as manchetes dos diários desportivos. Assim, sobra por exemplo a imposição de tectos salariais e de tectos para transferências. E sobra também uma distribuição de receitas que não favoreça apenas os que já possuem os maiores trunfos, mas que beneficie a modalidade como um todo. Se é competição que se pretende, então este será um caminho muito mais seguro.
O futebol não pode ser encarado puramente como desporto nem puramente como negócio de entretenimento, pois muito mais está em causa. De alguma forma, criou-se a ideia de que os dois modelos são inconciliáveis, o que não é verdade. Soluções de compromisso são sempre possíveis. Basta vontade de as alcançar e não recorrer à primeira solução aparentemente milagrosa que apareça.
Há muitos críticos do rumo que o futebol está a tomar. Se quisermos agrupar as opiniões em apenas duas barricadas, de um lado temos os que defendem que o futebol (e o desporto, de uma forma geral) deve representar um caso de excepção no enquadramento legislativo europeu, enquanto do outro temos os que defendem precisamente o contrário. As leis do futebol europeu, neste momento, alinham pela livre circulação de jogadores, em concordância com o que se passa no mercado de trabalho comum da UE. Na opinião de alguns, isso descaracterizou os campeonatos nacionais, prejudicando a formação de novos talentos nas escolas dos clubes, ao mesmo tempo que agudizou uma divisão entre clubes de elite, com orçamentos milionários, e clubes de segunda, com orçamentos modestos.
Há uns anos, o modelo das competições europeias de clubes começou a sofrer alterações profundas de forma a maximizar as receitas televisivas. Na UEFA, alguém se lembrou que, dentro da lógica do futebol-entretenimento, seria interessante ver com mais frequência as melhores equipas jogar entre si. Como, matematicamente, isto é muito complicado de ver acontecer num modelo de eliminatórias e apenas com um representante por país, no caso da Taça dos Campeões, nasceu o conceito de Liga dos Campeões. Nesta última, existem fases de grupos e podemos encontrar até um máximo de quatro equipas de um mesmo campeonato. O aparente contrasenso de termos uma Liga de Campeões cuja final pode, hipoteticamente, ser disputada entre duas equipas que não conseguiram melhor que a quarta classificação no seu campeonato nacional não impediu a sua implementação.
O lema da UEFA é “We care about football”. Mas não cometemos uma grande injustiça se dissermos que a sua preocupação passa muito, sim, pelas receitas do futebol. De resto, as boas intenções da UEFA e da FIFA para com o futebol-desporto são sempre de desconfiar. Basta relembrar que a final de Moscovo, este ano, terminou depois da uma da manhã, hora local, ou que muitos dos jogos do Campeonato do Mundo nos EUA, em 1994, se disputaram debaixo de um Sol implacável e temperaturas altíssimas, para benefício das transmissões televisivas para a Europa.
O principal problema do futebol é que o actual modelo, que gera receitas fabulosas, não foi acompanhado de uma política sensata de distribuição de riqueza. Quem já dispunha de orçamentos elevados teve a oportunidade de ganhar ainda mais. Quem não dispunha de recursos, viu-se progressivamente afastado da possibilidade de diminuir a diferença para os clubes de elite. Neste Verão, fala-se de transferências milionárias como sempre se tem falado desde há uns anos. O Chelsea pode oferecer mais de 60 milhões de euros por um avançado do Liverpool. O Inter poderá gastar mais de 40 milhões para reforçar-se de acordo com os desejos do seu novo treinador. O Real Madrid pondera seriamente a hipótese de contratar Cristiano Ronaldo ao Manchester United por qualquer coisa como 80 milhões de euros.
Perante um cenário que pouca gente terá a coragem de não apelidar de excessivo, alguns voltam-se para a livre circulação de jogadores como uma das causas do descalabro, pretendendo, obviamente, restringi-la. Desse modo esperam que regresse um maior equilíbrio entre clubes europeus. Mas muito mais eficaz, e até justa, seria a imposição de limitações de outro nível. O actual modelo beneficia um número muito restrito de jogadores. Cerceando a circulação de jogadores de uma forma geral, não só não se impede que os valores de transferências continuem a subir, como se ataca o direito de uma imensa maioria de futebolistas que não deixam de ser trabalhadores e não ganham, nem de perto nem de longe, os salários que enchem as manchetes dos diários desportivos. Assim, sobra por exemplo a imposição de tectos salariais e de tectos para transferências. E sobra também uma distribuição de receitas que não favoreça apenas os que já possuem os maiores trunfos, mas que beneficie a modalidade como um todo. Se é competição que se pretende, então este será um caminho muito mais seguro.
O futebol não pode ser encarado puramente como desporto nem puramente como negócio de entretenimento, pois muito mais está em causa. De alguma forma, criou-se a ideia de que os dois modelos são inconciliáveis, o que não é verdade. Soluções de compromisso são sempre possíveis. Basta vontade de as alcançar e não recorrer à primeira solução aparentemente milagrosa que apareça.
Hora do disparate
E depois os blogues é que estão cheios de abordagens simplistas e de opiniões avulsas.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
Bios Politikos
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